Opinião

Crianças na pandemia: corpos invisíveis ou que excedem

diario da manha

Por Thaisa da Silva Ferreira

O tema da retomada das aulas nas redes pública e privada de ensino tem despertado controversas, por diversos motivos. Ainda não se chegou a um consenso a respeito do assunto. No final do mês de outubro foi publicada notícia sobre nova onda de contaminação na Europa, onde alguns países já se preparam para retomar a quarentena, com abertura das escolas e fechamento de bares. A decisão pela abertura das escolas se baseou nos apontamentos de pesquisas sobre os danos que o distanciamento social e ao ensino remoto causaram na Infância, nos últimos 7 meses.

Entre nós, a prefeitura de Goiânia noticiou decreto informando da reabertura dos Centros Municipais de educação – CMEIs a partir do dia 09 de novembro deste ano. Desde setembro escolas particulares retomaram as aulas com a prática do escalonamento. A expectativa é que as escolas cumpram os protocolos de proteção ao Covid-19 a despeito de suas tantas e diferentes limitações.

Caminha-se, portanto, na contramão do que o governador Ronaldo Caiado afirmou em julho, considerando a possibilidade de uma vacina efetiva e próxima: que o retorno das aulas com segurança somente poderia acontecer

Em 2021 — orientação que ele próprio nem sempre sustentou após sofrer pressões. E da decisão da Assembléia Legislativa de Goiás de manter atividades em caráter remoto.

Na ausência de coordenação entre os entes políticos e de coesão social, ao longo dos 8 meses de pandemia, as famílias têm vivenciado uma infinidade de problemas para manter suas crianças dentro de casa com ou sem aulas remotas enquanto necessitam sair para o trabalho ou mesmo trabalhando em home office. Surgiram dificuldades relacionadas à escassez e divisão de equipamentos tecnológicos, acesso à internet e ausência de espaço nas residências para a atividade de trabalho que antes era externa.

Em alguns estados as escolas mantiveram a distribuição de merendas na tentativa de que as famílias conseguissem garantir ao menos uma alimentação diária. Estas e outras transformações nos hábitos são em si desafios dessa reorganização doméstica que proporcionaram em grande medida tensões e conflitos familiares. É importante destacar que período pandêmico tem sido lamentavelmente comum a essas realidades o aumento da violência doméstica a crianças e mulheres.

Neste contexto é notável que temos diferentes formas de viver a infância no Brasil. Por isso ela deve ser entendida como infâncias, no plural. A diferença brutal de renda que vivemos no país é produtora de distintas realidades familiares, geradoras dessas infâncias. Mas há também um conflito geracional presente: pois se somos todos nós afetados pela pandemia em maior ou menor grau, o que de fato isso significa para as crianças?

São poucas as matérias de jornais e artigos científicos que trazem o que esses corpos pensam sobre a pandemia, como ele se percebem na pandemia. Somente em setembro deste ano foi lançada uma campanha de prevenção ao Corona vírus direcionada a esta parcela da população. Ela contou com personagens desenhados pelo cartunista Mauricio de Souza. Em conversas informais que pude ter com crianças sobre o tema da pandemia essas disseram sentir saudade dos colegas, das professoras, da tia da cozinha, do parquinho e da rua.

Não se disseram preocupadas com a alfabetização, tampouco demonstraram desejo em retornar para a instituição escolar. Essa é uma necessidade que aparece na fala dos adultos sobre aquilo que seria, para elas, importante. Para elas, importante é afeto. Crianças conseguem expressar o que os adultos verbalizam menos, mas também sentem: a falta das relações sociais. O que fazer frente tantas angústias? Frente tantos desafios?

Ainda que exaustos e ansiosos pela retomada, muitos adultos sofrem preocupados às vezes em silêncio com a ausência de uma vacina. Para o mercado, crianças devem ir para a escola e adultos trabalhar a todo vapor sempre, inclusive em período pandêmico, mesmo que não haja emprego para todos. Fora de creches e escolas as crianças ficaram fora do lugar. Suspensas. Elas excedem. Mas o mercado não se confunde com a vida, por isso é importante ouvi-las quando nos falam de suas importâncias. Na ausência de consenso, elas podem nos dar ideias mais realistas do que as nossas para uma sociedade ética e sustentável.

* Thaisa da Silva Ferreira – Doutoranda em Sociologia pela UFG. Professora adjunta do curso de direito na UniAraguaia.

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