Opinião

Redes sociais e a sociedade do espetáculo

diario da manha

Por Lilian Silva do Amaral Suzuki

O contexto de pandemia e o isolamento social apresenta-se como um grande desafio para o mundo todo. Diante desse cenário a utilização da internet para diversos fins (educacionais, políticos, comerciais etc.) tornou-se indispensável e com o isolamento social o acesso as redes sociais apresentaram um aumento significativo. Dados divulgados pela Kantar, empresa de consultoria inglesa, demonstra que o Facebook, Instagram e WhatsApp registraram um aumento de 40% nos acessos, o TikTok bateu a marca de 1 bilhão de downloads.

Analisando de modo superficial parece que o uso das redes sociais e o aumento de sua utilização é algo normal, especialmente diante do cenário que vivenciamos. Porém, se aprofundarmos um pouco mais podemos perceber como a exposição as redes sociais podem trazer prejuízos para nossa saúde. De acordo com o Indicador de Confiança Digital (ICD), em 2019, 41% dos jovens brasileiros afirmaram que as redes sociais causam sintomas como tristeza, ansiedade ou depressão.

A disseminação de aplicativos e de diversas redes sociais modificou a forma como interagimos uns com os outros, os relacionamentos humanos agora apresentam uma configuração marcada pela apresentação de pessoas perfeitas que buscam pares compatíveis. Nesse esquema, cada um assiste, curte e compartilha o outro em seu palco particular, aguardando a sua vez de ser assistido, curtido e compartilhado.

Em 1967 o filósofo francês Guy Debord publicou a obra “A sociedade do espetáculo”, demonstrando o poder que as imagens exercem na sociedade contemporânea. Atualmente, percebemos que os palcos se multiplicaram, especialmente com o advento da internet e a disseminação das redes sociais, dentro dessa lógica a plateia passou a ser cada um de nós. Compartilhar, exibir, curtir e postar fotos passaram a fazer parte de nosso cotidiano.

Observe o Instagram, olhe como as pessoas tendem a postar apenas momentos felizes, belos, ricos, apaixonados, em um cenário espetacular. Na verdade esses são apenas fragmentos de suas vidas, porém, naquele espaço essa aparência apresenta-se para os espectadores como toda a sua realidade e dessa forma toleramos e ansiamos pela ilusão apresentada nas redes sociais. A necessidade dessa ilusão é uma decorrência inevitável de uma sociedade do espetáculo, onde belas paisagens e corpos perfeitos são uma maneira de agregarmos valor a nós mesmos.

O filósofo sul-coreano Byung-chul Han, evidencia que a utilização de tantos filtros e edições digitais nas redes sociais trazem à tona a relação entre o real, o imaginário e o simbólico. De acordo com essa lógica fica o meu questionamento: o que é real na internet se não o que alguém imaginou, editou e publicou?

Compreendo que a construção de imaginários narcisos amplamente evidenciados nas redes sociais buscam ocultar as imperfeições do mundo e os não desejáveis, os fragmentos da vida cotidiana ali apresentados fazem com que os usuários permaneçam numa busca eterna por imaginários perfeitos e essa, provavelmente, é a receita para o sofrimento.

Licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Goiás. Mestre e Doutora em Sociologia pela UFG. Professora do Centro Universitário Araguaia.

Comentários