Opinião

Alta mobilidade interurbana entre capitais planejadas

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diario da manha
Fred Le Blue, Doutor em Planejamento Urbano pelo IPPUR/UFRJ

É provável que essa visão multissituada entre as matrizes culturais predominantes em Brasília e Goiás exista de uma maneira mais equilibrada em Anápolis, que está geograficamente no meio do caminho.

O protagonismo regional dessa cidade, cuja ancestralidade histórica (fundação em 1873) e infraestrutura logística (mais de 80 anos da Estação Ferroviária de Anápolis) são anteriores à Goiânia e a Brasília, certamente, contribuiu para a formação da cultura e do urbanismo de ambas.

A sua inclinação política (Henrique Santillo e Henrique Meirelles), a sua vocação acadêmica (Universidade Estadual de Goiás), a sua indústria farmacêutica (Distrito Agro Industrial de Anápolis) e a sua inteligência aeronáutica (base aérea militar de Anápolis), no entanto, são reflexos dos sopros de modernidade urbanística oriundos das duas capitais planejadas. É possível perceber ali uma forte influência das dinâmicas antropológicas, relativamente mais politizadas e globalizadas de Brasília, em contraponto aos habitus sociais mais morosos e amorosos, típicos de cidade de interior goiana.

A promessa de maior integração regional que poderia apontar para a consolidação de uma maior hibridização identitária transregional foi, no entanto, engavetada em 2018 pelos governos federais e estaduais, que seria o transporte férreo “Expresso Pequi” (Águas Lindas, Santo Antônio do Descoberto/ Anápolis/Goiânia), o que, provavelmente, afeta essa performance coletiva de entremeios, que chamo carinhosamente de “candangoiana”.

Alguns brasilienses e goianos que vão morar, moram ou moraram em Goiânia e em Brasília, como os estudantes goianos da UnB (Asa Norte) que acompanhei em 2005 e 2006, podem ser os agentes individuais e coletivos da transformação regional, em prol de uma tecnologia sociocultural de paz que aponte para maior tolerância e diversidade inter-regional. É possível superar o processo de (auto) estigmatização das identidades e discursividades assumidas e/ou atribuídas aos “tradicionais” goianos (sociabilidade oral e coletivista) e aos “modernos” brasilienses (sociabilidade visual e individualista).

A tendência mínima de incorporação dos valores individualistas e culturalizantes do Plano Piloto por parte dos seus estudantes goianos na UnB é o primeiro passo para permitir uma maior inserção social continuada e estável na sociedade brasiliense, para além das situações de acolhimento mais comum via casamento inter-regional, empreendedorismo empresarial ou concurso público.

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