diario da manha
Francisco Dias Teixeira, Escritor e ex-procurador

Isto não é uma crônica: é um manifesto.

Lanço aqui um manifesto pela preservação de “muito”.

Explico-me: esta palavra está em risco de extinção. É o que venho notando. Não mais se fala “muito”. Fala-se “bastante”, “demais”, “híper”, “súper”, “mega”, “o-máximo”; porém, não “muito”.

Houve um tempo – eu era menino – em que “muito” era o contrário de “pouco”; e, assim sendo, falava-se tanto “muito” quanto “pouco”. Também se falava “bastante”, que ficava entre “pouco” e “muito”.

Todos compreendiam clara e precisamente o que esses advérbios significavam: pouco: menos que o insuficiente; bastante: o suficiente: muito: mais que o suficiente.

Mas hoje, se “pouco” continua pouco, “bastante” vai-se tornando “muito”. E “muito”, desaparecendo.

Não mais se fala que gostou “muito” de uma canção, de um vestuário, de uma obra, de um objeto qualquer – diz-se que gostou “bastante”. E então ficamos sem saber se o/a interlocutor (a) gostou muito ou pouco da coisa, ou simplesmente a achou medíocre, e, por gentileza, disse que é razoável: gostou bastante…

Depois de “bastante” vai-se direto para “híper”, “súper” e outras hipérboles, que, naquele tempo, só saíam do dicionário em situação excepcionalíssima, mas hoje estão em nossa boca a todos os momentos: Ele é súper rico! Ela é híper bonita! Eu estou mega feliz!

Outra palavra – esta, um verbo – que vem se escasseado e pode entrar em risco de extinção é “gostar”.

Naquela era – era cristã –, a gente gostava, amava e adorava.

Mas dizia-se que só se podia adorar a Deus. Sequer à Mãe de Cristo-Deus podia-se adorar. Adorar santo/a era idolatria, e idolatria era pecado. Não me lembro exatamente qual o tributo era devido aos santos; acho que a eles se venerava. Sei que aos semelhantes humanos devia-se amar (como a si mesmo…). Quanto aos animais irracionais e às coisas em geral, só se podia gostar deles/as.

O contrário de “gostar” era “não gostar”; de “amar”, “odiar”; já “adorar” não tinha rival, porque nenhum sentimento era devido ao Diabo.

Mas, se se podia legitimamente “não gostar” de alguém ou algo, a nada se podia “odiar”, que também era pecado.

Hoje, a tudo de que se gostava diz-se que “ama” ou até mesmo “adora”. Ama-se, adora-se um animal ou um objeto, chocolate ou feijoada, uma cidade ou uma estação do ano.

Do que não se gosta, “odeia”. Odeia-se: uma determinada comida ou um certo lugar; frio ou calor, chuva ou sol. Eventualmente, pode-se detestar.

De tal forma que não mais se “gosta” nem “não gosta” de nada: ama-se/adora-se ou odeia-se.

Apenas ao semelhante ainda não se costuma adorar, conforme também não é permitido odiar.

Só se adora um ser-humano “súper” especial, pois aí é um ídolo (Ex: “Ela adora Roberto Carlos”; “Ele adora Elis Regina”; “Você adora Chico Buarque”; “Nós adoramos os Beatles”). E também é permitido adorar alguma circunstância especial relativa a uma pessoa comum: “Eu adoro ver você assim!…”; “Eu adoro esse seu jeito de falar!”. Já odiar nunca é permitido, porque – digo eu – se se deve amar o próximo como a si mesmo, não se deve odiar o semelhante, conforme não se deve odiar a si mesmo.

Então, ama-se ou detesta-se uma pessoa.

Mas não lanço campanha de preservação do verbo “gostar”/”não-gostar” porque ele tem substituto: “curtir”/”não-curtir”. Este vocábulo vem se ampliando de significado, e já quase abarca todo aquele antes expresso pelo antigo “gostar”. Por isso não vejo motivo para uma campanha de preservação de “gostar”. Pois aqui há simplesmente uma renovação da língua, o que denota vitalidade; e isto é bom.

Mas não há neologismo que substitua o velho “muito”; e “bastante” não é muito: é menos; já “híper”/“súper” é mais que “muito”, conforme dito. Aqui vejo um empobrecimento do nosso vernáculo.

Então: Pela preservação de “muito”!

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