diario da manha
Maria Júlia Franco, Docente universitária

Ao meu padrinho João (em memória) e ao Mundinho, irmãos

Os incomodados que se mudem, diz o ditado. Com João-da-canoa não foi

diferente. Fora despedido pelo rio: agora assoreado e dando vau em muitos trechos; dispensando, assim, seus préstimos de atravessador. Cansou de arrastar a canoa atopetada de gente nos bancos de areia do Rio Claro ouvindo madames com gritinhos histéricos, morrendo de medo daquela aguíca que mal lhe chegava às canelas, e crianças a jogarem-lhe areia na cara e limpando mãos meladas de balinhas e pirulitos na roupa puída que ele usava para o batente, dos poucos aparelhos que possuía.

Embora fizesse as travessias praticamente por gentileza, pois não tinha coragem de cobrar, e ninguém se lembrava de lhe oferecer sequer um agrado em espécime ou qualquer adjutório que compensasse. Era isso que gostava e sabia fazer, desde mocinho. Ultimamente, a pesca minguou, e o condomínio Beira Rio andava meio abandonado. Os doutores amantes da natureza, e os amantes das patroas “substitutas’’ que apareciam nos fins de semana, sumiram quase que completamente, e as ervas daninhas se alastravam, já tomando conta de todos os quintais.

João despachou primeiro, para a capital, a mulher com uma prole de cinco meninas, de dois a doze anos, com a finalidade de colocá-las na escola. “Não quero filha minha burra que nem eu não” – dizia.

Não passaram cinco meses, e o nosso canoeiro, que de bobo não tinha nada, com mil pretextos, já estava também a caminho de Goiânia. Irrefutável a fidelidade de Maria Rita, sabia, mas não confiava nem um pouco, nas armadilhas e malandragens presentes em maior proporção nos grandes centros urbanos. Gostava por demais da mulher e das filhas, e sabia que um bom jardineiro não deixa nunca suas flores para outro adubar e regar, que daí para serem levadas embora, é um pequeno passo.

Desmanchou em polvilho e farinha o pequeno mandiocal; abateu o porquinho criado às soltas e empanturrado de detritos – contrariado, pois nunca gostou de matar nem um micuim. Atrelou, pelas pernas, os últimos frangos que ainda perambulavam pelo terreiro tomado pela saroba, retirou de um prego na parede um pequeno rosário de raízes de jalapa seca, em rodelas (remédio natural para prisão de ventre), e picou a mula. Antes, arrastou para dentro do rancho a canoa gasta, herança que o pai, Chico Graúna, lhe havia deixado, além dos dois alqueires de brejo. Amarrou a porta com cipó, fez o sinal-da-cruz e partiu.

Mariinha ou Sá Rita, conforme lhe chamava o caboclo, estava instalada em uma casa alugada, ampla e nova, que pela ausência de móveis, parecia muito maior. Em um bairro humilde da periferia. Circundada por barracas de papelão e plástico, a morena laborava acabrunhada à vista desoladora de tanta pobreza e desigualdade social.

Como em todos os lugares não existem só os bons e honestos, já lhe sumira, dos poucos pertences, quase tudo do que havia ficado do lado de fora da casa. Não raro, tinha de sair gritando e puxar de volta, os arames esticados onde secavam as roupas, senão, retiravam-nas com varal e tudo, em plena luz do dia.

Mal João chegou, içaram mudança para outro setor. Casa grande também, mas velha, rebocos caídos, aluguel caro. Tão logo se alojaram e esparramaram as quiçaças, a proprietária vendeu o imóvel. De olho nas placas consultando vizinhos e jornais, conseguiram uma bem menor e com infiltrações. Depois, se mudaram para um barracão de fundos. Dali, para outras casas pequenas, mínimas, longe de tudo. Mais uma equidistante e outras mais… Compraram algumas coisas, mas tudo se desgastando nas mudanças, num vai e vem sem fim. Entretanto, quem bebeu da água pura das nascentes bradando anseios uníssonos aos esturros das suçuaranas e das pintadas, espantando jaracuçus a benzeções, não há de sucumbir às hecatombes no brio e na esperança. Cai aqui levanta acolá, mas sempre firme rumo às oportunidades.

É comigo-ninguém-pode, que arde e incomoda; é mandacaru teimoso em viver; é seixo que rola sem paradeiro.

Nômades: vidas de aluguel. Gente-Sol e gente-Lua remando no imenso oceano azul de um céu verde-amarelo. Invencíveis ignorados. Au revoir!

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