Opinião

Uma UTI em sua vida – Parte II

Então sem mais delongas vamos retomar a partir do segundo para o terceiro dia na UTI, onde expectativas, frustações e impasses foram a tônica

diario da manha
Carlos Roberto Neri Matos, Consultor master da Adera Consultoria, diretor administrativo da Câmara de Comércio Brasil x Portugal e professor especialista em Direito Administrativo

Por Carlos Roberto Neri Matos

Antes de retomar a mini saga, gostaria de externar minha satisfação com o retorno obtido com a parte I do artigo, onde várias pessoas, próximas ou não, puderam se identificar com situações que passaram e até mesmo em relação às doenças autoimunes que têm. Outro fator que gostaria de destacar foram os contatos de quem interagiu comigo, dizendo da maneira clara e leve da abordagem, apesar da complexidade e dificuldade do assunto. Então sem mais delongas vamos retomar a partir do segundo para o terceiro dia na UTI, onde expectativas, frustações e impasses foram a tônica.

A luta pelas situações mais elementares da vida cotidiana. O uso do banheiro para seus fins próprios e um bom banho. Já no 2º dia na UTI, 3º sem dormir, totalmente recuperado da anestesia, despertei e solicitei para ir ao banheiro. Após muito estresse da minha parte e alguma conversa, a médica de plantão me autorizou ir acompanhado ao banheiro. Resumo da ópera? Pensem numa felicidade momentânea incomensurável ao final do banho e retorno para o leito.

E o melhor que ao sair do banho encontro um médico amigo e irmão Dr. André que me disse conversou com meu amigo e cardiologista Dr. Tulio e que no dia seguinte eu teria alta. Só felicidade!!!! Foi o resto do dia, tarde, noite e madrugada, mais tranquilo que passei nestes dias, se é que se pode dizer assim estando numa UTI, da mesma forma monitorado 100% por cabos e eletrodos, continuando com toda a medicação venal, feito mais outros tantos exames de sangue e para culminar um ecocardiograma onde o médico responsável me disse que estava tudo bem, ou seja, “vamos que vamos”, corroborando com a minha grande expectativa de sair.
 
Digamos assim, “acordo” ou melhor desperto, tomo café, no dia anterior tinha inclusive jantado, aí o tempo passa e ninguém se aproxima para tratar da minha alta. Inquieto de onde eu estava aceno em vão por várias vezes para que a médica ou a enfermeira venha até mim. Aí chamo a auxiliar e falo do banho e ela me diz que estou com o banho no leito. A “casa começar meio que a cair” e eu falo para ela como assim? Ontem fiz uso do banheiro normalmente.

Somente depois de uns longos instantes a enfermeira vem me dizer que meu exame de esquemia (troponina) se mantinha bem alterado, que eu estava restrito ao leito, que teria que voltar a usar fraldas, por motivos óbvios e que não tinha mais previsão de alta. Agora, neste exato momento, “a casa caiu”. Me vi perdido, sem saber o que fazer, sem ter a quem recorrer, nem com a família podia falar naquele momento. E lógico já projetava a angústia do lado de fora, já que para eles a expectativa era de alta e agora não mais.
 
O tempo passa, havia me alimentado razoavelmente na expectativa de sair naquele dia. E agora? Me vi obrigado, num dos piores e mais desconcertantes momentos da minha vida, a fazer o uso da fralda e ser limpo, e diga-se de passagem, por uma profissional das mais gabaritadas que me disse, não se abale desse jeito, somos preparados para a guerra e foi feito. A manhã foi embora, a tarde entrou imaginava eu, pois o almoço passou e eu lá e os médicos sem saber o que eu tinha. Impasse. E eu pensando, pensando, pensando e agora? Muitas dúvidas sobre o futuro. Foi quando a cabeça assentou e começou a clarear e pensar de um modo mais lógico. Consegui um “dedo de prosa” com a doutora intensivista de plantão, onde em extremo resumo, insisti que pesquisasse se essas alterações da troponina e tudo o que gerou o falso enfarto e todas essas consequências não poderiam ser em função da doença autoimune que eu tenho.

Não sei se ela deu “bola” ao que falei ou se já estava pesquisando algo neste sentido, fato é que no início da tarde desceu à UTI cardíaca do 1º andar uma reumatologista com a qual conversei bastante e fizemos toda uma anamnese, que como deslinde de tudo, ela falou com o meu reumatologista, um dos melhores do Brasil, Dr. Ximenes, meu amigo. No fim da tarde a reumatologista da UTI retornou e disse que em consonância com ele a partir daquele momento eu iria começar a tomar um composto na veia à base de imunossupressores e depois iria continuar de forma oral, tudo isso para observarmos se os índices da troponina baixariam, o que poderia ser o gatilho para o efetivo tratamento, que seria na doença de base e não na reflexa no coração. Colheríamos novas amostras de sangue na madrugada, para serem avaliadas durante a manhã.   
 
Neste ínterim em novo dia de visitas, minha esposa aparece e me relata o susto da família, com uma previsão de alta e um dia inteiro sem notícias e somente frustações nas tentativas de obtenção de informações mais assertivas até aquele horário. Naquele momento conversamos e ela ficou sabendo de tudo que começou a ser feito com o uso dos imunossupressores.  Isso é mais uma coisa que reforça “a crueldade” de uma UTI. Sabemos agora que não dá para os profissionais atenderem a todos os pedidos de informações e muito menos ligações ao longo dia dos parentes e/ou interessados, acho que por isso nelas têm aqueles boletins tão frios quantos elas, mas é desse jeito!  Agora, após a visita virou uma eternidade até coleta do sangue na madrugada, criando-se ainda mais expectativa e uma grande esperança.

O resultado do exame veio por volta das 9h do dia seguinte, onde tive a notícia da baixa dos índices da troponina, não do jeito que os médicos queriam, mais foi uma boa baixa. Isso tudo levou a uma série de providências, redução e eliminação de um potente medicamento de controle de pressão que vinha tomando na veia, o tridil, bem como a liberação de uso observado do banheiro e começou-se a falar de forma mais concreta em alta, para o 4º ou 5º dia. Já escaldado, embora quisesse com todas as minhas forças sair dali, procurei me conter, difícil, mas assim foi.
 
Nestes dias até ali convivi praticamente com zero privacidade, com luzes dia e de noite até a madrugada que me mantinha alertas e impediam de dormir com luzes que as 3, 4 ou 5 h da manhã se acendiam para a realização de exames etc.  Isso todos os dias e noites. Limpeza exemplar da UTI, tanto é que por 3 a 4 vezes ao dia, inclusive pela madrugada tudo era limpo. Os sons de igual modo eram potencializados e por muitas das vezes nas madrugadas ou mesmo durante o dia se podia escutar conversas particulares e algumas dos profissionais que lá trabalham. Descobri inclusive que as equipes de dividem em ímpares e pares para os banhos de leito e até mesmo que seus membros têm alguns períodos fora do seu plantão com retorno a partir de determinada hora. Agora imaginem toda essa movimentação num ambiente como esse, tudo ilumina mais, repercute mais e reverbera mais. E nem vou contar aqui da relação de amizade que fiz durante este período com um tal “compadre”. Amigo inseparável e situações inusitadas. Quem disse que um amigo frio não ajuda?
 
Outra situação que postarei na próxima e espero uma última parte serão as relações interpessoais e as últimas providências e mais expectativas cheias de estresse, até a saída. Refleti tanto durante esta experiência, sobre o presente, passado e futuro que até penso, pois a uma enormidade riqueza de detalhes, que não cabem sequer 5% aqui num artigo jornalístico, escrever um livro.
 
Saúde, Força e União a todos!
 
Carlos Roberto Neri Matos – Consultor Master – ADERA Consultoria, Professor Especialista em Direito Administrativo, Administração Pública, Direito Tributário e Aduaneiro, Membro da Academia Goiana Maçônica de Letras, Ex-Superintendente do Ministério da Fazenda e Servidor aposentado da Receita Federal

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