A casa de postigos verdes
Redação DM
Publicado em 25 de junho de 2016 às 03:06 | Atualizado há 10 anosAmada Clara, quando eu tiver de morrer, pensai de mim alguma coisa assim: que as crônicas e tudo o mais que escrevi foram inspirados nos teus beijos e, perdoai-me por ser tão humano nas sombrias ondas do mundo que gargalham na amplidão da alma. Que existe, na lonjura do infinito, algum lugar que será sempre o nosso Vale de Quimeras. Encontramos, um no outro, a segurança que buscávamos. Nas conversas animadas de todas as manhãs; nas risadas livres a caçoar das nossas manias; nos cochichos ao pé do ouvido, no observar dos pássaros – nuvens que voam – sob o céu límpido da primavera. Ou na alegria do reencontro, no sono e no abandono do individuo para erguer o outro.
Construímos em nossas vidas uma casa em que o tempo ou as circunstâncias jamais derruba. Ganhamos, no jeito do viver, a paz inabalável onde a guerra do ego não pode. Mas a morte é um êmulo inelutável, um moinho que não para de girar. Por isso, quando eu tiver de morrer, pense em mim com a indulgência de amada.
Soai, clarins, soais por nós! Qual o pulsar frenético no eterno espírito da esperança, irmã da fé. Deste-me as flores do convívio para amar-vos cada dia mais, noutras vezes mostrou-me caminhos para andar e rios de águas aquecidas com as bênçãos do sol. Movo-nas para ficar sempre sob a luz benfazeja a despertar as sementes que criam novas possibilidades. Esse mesmo sol que aquece o barro é o mesmo que fora retirado de uma estrela perdida no universo. Pois é, despertastes meu sono letárgico e o sol do amor quebrou o encanto de quem não acreditava nessa forma poética de ver o mundo. Deus renova a minha fé para percorrer a estrada que me leva ao reencontro da amada.
Quero asas de borboleta para voar. Soai, clarins, soais por nós! Não permitas que o calor do sol derreta minhas asas de Ícaro. Que sejam eternas para voejarem sempre. Desculpe-me Alberto Caeiro: Eu tenho que ter esperança e asas. Viajo com Fernando Pessoa: Se tirar minhas asas fico perdido e largado no fundo de um barranco. Olho para no espelho e vejo rugas e cabelos brancos renitentes. Aí vem o caráter de Rubem Braga a lembrar a minha mineirice: olho essa cara feia e triste de gente do interior. Nas minhas crônicas já conversei sobre cidade, pescaria, lembranças… Nasci e ui criado na roça; sou caipira com identificado com a fala de Guimarães Rosa. Não troco o tom ameno da concórdia nem por um caminhão de abóboras.
Recuso-me a escrever sobre política; nem falar mal dos outros sou capaz de fazer. O espaço de cronista no jornal é sagrado. Por esse motivo, a exemplo do chinês que coloca o resto de pão no lugar mais alto da casa, bendigo, na minha escrita, o dom de escrever.
A utopia deve ser vista pelas frestas de uma casa com postigos verdes que se abrem em todas as manhãs.
(Doracino Naves, jornalista; apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, PUC TV, sábado, 12h30. Reprise, domingo, 20h)