Brasil
A “cura gay”?
Redação DM
Publicado em 19 de novembro de 2017 às 06:16 | Atualizado há 9 anos
Logo abaixo relato casos reais de nossa experiência médico-psiquiátrico diária em temas relacionados à “cura gay”. Deixamos a cargo do leitor(a), eventuais julgamentos de valor sobre os mesmos.
- Um paciente , engenheiro de empresa pública, nos procura porque está “atuando sua homossexualidade”, mesmo sendo casado e tendo uma filha de quem gosta muito. Seus intercursos homossexuais iniciaram-se no âmbito de um grupo de escoteiros, havia um chefe homossexual, que fazia e estimulava esse tipo de atividades. O paciente, hoje em dia, alimenta , nos seus contatos homossexuais ( geralmente em saunas ) , a fantasia que tinha na época de escoteiro. Julga-se também um adicto de pornografia gay, “pornofilia a níveis toxicomaníacos”. “É como se eu fosse ainda um púbere, e estivesse naquele ambiente juvenil”. Ama sua esposa, ama mais ainda a filha ( 6 anos ), mas , depois que passou a atuar sua homossexualidade, há aproximadamente 1 ano, sente-se mal com a consciência, “ego-distônico”. Uma depressão obsessiva associam-se a estas cognições. Com o tratamento do problema psiquiátrico-afetivo, melhora as obsessões, melhora sua intensa adição homossexual ( como ele mesmo a julga ).
- Numa sessão de psicoterapia, refere que , numa Igreja evangélica, numa palestra interna dirigida a homossexuais ego-distônico, ouviu uma coisa que mexeu muito com ele : “vocês são pais, esposos, homens de valor, homens de trabalho, homens de sociedade, assumam que são adultos, que cresceram, parem de brincar com os “piu-piu-zinhos” dos outros”. Disse que, a princípio, ficou muito revoltado com isso, mas, que, depois, pensando melhor, viu que esta era mais ou menos sua situação. Diz que optou por “assumir” sua família, sua filha, esposa, seu casamento que estava indo para o ralo, e sua profissão que também já estava ficando prejudicada, por causa de sua intensa adição sexual.
- Diz, com cinco anos de evolução do tratamento psicoterápico, que “é claro, eu tenho pensamentos e desejos homossexuais, mas com a medicação, com a psicoterapia, com o “mergulho no trabalho e na família, com o apoio espiritual, eu lido com eles de modo a “não recair”, pois “eu imputo essa situação àquela situação de um dependente químico, e lido com isso como lidam os toxicômanos”. Refere que, assim como para os toxicômanos, a religião lhe é fundamental no dia-a-dia : “por meio dela é que me fortaleço para atuar aquilo que não quero atuar” ( daí a “ego-distonia” que relatamos acima ) .
- Outro paciente, que tem interesses transexuais ( quer mudar de sexo), diz, em psicoterapia, que , de quando em quando entra em “crise” de psicossexualidade. Por exemplo, nestes últimos tempos, está se sentindo “horrível”, porque, quando está transando , ativamente, com homens, quando está perto de ejacular, no frenesi final do ato, pensa em mulheres, pensa que está transando com uma mulher naquele momento. Isso tem “ego-distonizado” seu psiquismo homossexual.
- Também ego-distônica é uma paciente que diz ter uma certa “fobia de sexo”, fobia de homens, porque sempre julgou que seu pai a olhava com lascívia ou com laivos libidinosos. Era uma criança hiperativa, hipersexualizada, teve vários intercursos heterossexuais infantis, dos quais tem vergonha, nojo, queria esquecê-los, por julgá-los “um estupro”. Sendo hiperativa, e depois tendo desenvolvido um transtorno bipolar, com personalidade dominante, autoritária, sempre gostou de mandar nos namorados. Esses tinham dificuldade de aceitar serem “submissos” a uma mulher, gerando conflitos, e , segundo ela, “empurrando-a mais para a homossexualidade”. Sua personalidade forte, a fez odiar o pai, truculento, autoritário, agressivo, moralista , controlador, com todas as forças. Por outro lado, ela adora a “doce mãe”, mulher sofrida, renunciada, complacente e acolhedora, segundo ela. Na psicoterapia ela julga que esses fatores “psicossexuais” têm importância em sua orientação sexual, pois, “como eu já experimentei os dois sexos genitais, para mim, do ponto de vista físico, não fazem muita diferença”. Reconhece que sua opção homossexual é mais “psicossexual” do que “biossexual”, pois , do ponto de vista físico, genital, obtem prazer do mesmo jeito. Refere que, do ponto de vista psicossexual, tem medo e ódio das posturas “dominadoras/controladoras” dos homens, pois reconhece que é muito voluntariosa e que sofreu muito na mão de um pai autoritário.
- G. foi um adolescente com problemas homossexuais egodistônicos. Procurou psiquiatra aos 15 anos , entrou em pânico homossexual ao descobrir que estava “apaixonado pelas pernas de um colega”. Também teve intercurso sexual com um vizinho, masturbação mútua, sexo oral, dois 8 aos 13 anos de idade. Depois veio a tranqüilizar-se, julgando que sua “homossexualidade” era uma “fase”. Reconhece que gostava das pernas do amigo porque essas pareciam, “na verdade, com as pernas de uma mulher”. E imputou sua atividade homossexual infanto-juvenil à falta de “amadurecimento psicossexual” , pois quando chegou à fase adulta, viu que tinha interesses físicos e psicológicos por mulheres. De fato, quando o instinto sexual surge intenso, ou na infância ou na puberdade/adolescência, muitos entregam-se à atividade homossexual porque a “psicossexualidade” ainda não desenvolveu-se a ponto de tornar-se atrativa para o sexo oposto. Por exemplo, o que atrai muitos homens é a meiguice, receptividade, complacência, passividade, das mulheres, até mais do que os caracteres sexuais secundários.
(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra ( hospitalasmi[email protected] ))