Brasil

A delação premiada virou coqueluche, mas os grandes que vão tossir

Redação DM

Publicado em 7 de agosto de 2016 às 02:38 | Atualizado há 10 anos

Estes dias, estive com o Batista Custódio jogando conversa fora, rememorando fatos que estavam enterrados numa fundura medonha, e veio a lume a história da delação premiada, que vem tirando o sono dos grandes de Brasília, como de resto do Brasil inteiro. No ano passado, precisamente em 28/02/2015, publiquei aqui o artigo “Delação premiada é bom ou ruim?”, quando fiz considerações acerca dessa inovação que está sendo valioso colaborador da Justiça. Tanto quanto Batista Custódio, entendo também que o delator é talvez mais bandido que os bandidos que delata, pois demonstra o mau caráter daquele que, além de bandido, ainda cospe no prato em que comeu.

Apesar de estar chegando aos dezessete anos de idade, a delação premiada sempre teve ardorosos defensores, e nunca foi tão comentada e utilizada nestes tempos de Lava Jato, e, junto com a tecnologia dos “grampos”, vem se tornando o pesadelo dos políticos, pois foi graças aos áudios que pipocaram na mídia, foi possível descobrir a tentativa de Dilma blindar Lula com um fajuto termo de posse para ganhar foro privilegiado na frustrada nomeação do ex-presidente para a Casa Civil, barrada em boa hora pelo STF.

Também foi a divulgação de áudios de Delcídio do Amaral com o filho de Cerveró que levou à inédita prisão de um senador em pleno exercício do mandato, e sua delação, que abalou os alicerces do governo; um diálogo de Romero Jucá, recém-nomeado ministro do Planejamento, com ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, levou à primeira crise do novel governo Temer, que foi compelido a exonerar o senador roraimense do cargo para o qual nunca deveria ser nomeado. E a delação de Delcídio com certeza jogará Lula, Dilma e uma chusma de políticos desclassificados no colo de Moro, cuja atuação todo mundo teme.

O vendaval que o instituto da delação premiada e que os áudios vem causando no panorama político está levando ao desespero grande parte do nosso Legislativo; quando da delação de Sérgio Machado, sabíamos existirem cerca de 150 deputados federais e um terço dos senadores implicados só na Lava Jato (e temos dezenas de outras operações em curso). Apesar das declarações do Planalto, com o cauteloso Temer pisando em ovos para garantir o Senado na votação do “impeachment”, as coisas estão funcionando como catraca, que não permitem voltar atrás. Temer, Renan e Jucá adorariam fritar a Lava Jato, missão quase impossível nas atuais condições de judicialização da política, combinada com o rigor seletivo nos tribunais superiores contra inimigos políticos de ocasião. E foi esta posição de Jucá, em diálogo com Sérgio Machado, que lhe rendeu o cargo de ministro do Planejamento.

Passados Cerveró, Sérgio Machado e outros notórios delatores senvergonhas, agora aparece a figurinha carimbada de Eduardo Cunha, ameaçando Deus e o mundo, seguramente para chantagear: se votarem contra ele na cassação, vai detonar todo mundo. E, com isso, promete causar um estrago, pois declarou ao jornal “Diário do Brasil”, de 14 de julho em curso, “vai incendiar o país: 150 deputados,14 ministros do STJ e 2 ministros do STF serão denunciados”, pois, se ele cair, cairá atirando para todo lado e até poderá levar uma turminha que não nos vai fazer falta. E, segundo consta, ele já avisou a Michel Temer que, se não for salvo da cassação, leva com ele para o fundo do poço toda essa gentalha.

É mais que evidente que Cunha teme ser preso e quer proteger a si mesmo e à mulher, Cláudia Cruz, que virou ré na Lava Jato por lavar a merreca de um mi de propina. E já está escancarado que, no inquérito aberto por Sérgio Moro, há gastos de 7 mil  e 700 euros numa loja da “Chanel”, em Paris, em janeiro de 2014; de 4 mil e quatrocentos dólares na “Prada”, em Roma, de 2 mil e duzentos dólares na “Victoria´s Secret”, em Miami, dentre outras extravagâncias… às nossas custas. Segundo Janot, Cláudia Cruz “torrou” quase 900 mil dólares em bolsas, sapatos e roupas femininas.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, mostra que a vida de luxo do casal era sustentada com dinheiro público proveniente do esquema de corrupção montado na Petrobrás.

E, o que é pior: a delação de Cunha será acompanhada do depoimento de seu operador, Lúcio Funaro, que a própria Polícia Federal diz ser um elemento perigoso e violento. E, a esta altura dos acontecimentos, nada tem a perder.

A mídia já informou que, na esteira da ameaça de Cunha, 14 ministros do STJ, dois do Supremo, 150 parlamentares, um grupo de frigoríficos, quatro grandes bancos, dois advogados, além de caciques do PMDB e do PT serão denunciados, e a dupla Cunha-Funaro promete indicar contas bancárias em cinco paraísos fiscais, incluindo Bélgica e Emirados Árabes.

Vamos aguardar os próximos capítulos desta nossa novela política em que os próprios bandidos se destroem.

 

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])

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