“A desgraça do pau verde é ter o seco encostado.
Redação DM
Publicado em 17 de maio de 2016 às 02:30 | Atualizado há 10 anos
Meu amigo e compadre, Lourival Ferreira do Amaral, nascido em Tabira, sertão de Pernambuco, conhecedor da caatinga e suas entranhas, tem o hábito de dizer frases muito comuns às antigas gerações daquelas bandas. Tem um ditado, tem um dizer, tem um adágio popular, citados nas revistas de cordel, de uma forma simples, linguagem direta ao gosto do povo sertanejo. Dia desses, num bate papo da saudade, me deixa escapar mais essa! Poderia traduzi-la para algo tipo “me diga com quem tú andas que te direi quem és”, “antes só que mal acompanhado”, por aí se vai.
Numa reflexão sobre os dias atuais, a respeito de nossa política exacerbada, observo as causas que provocaram os acontecidos e, obviamente, encontro um sinônimo paralelo nos dois governos que sofreram processos de impeachment no Brasil: Collor e Dilma. O primeiro, transitado e julgado, renunciou seu mandato; o que não lhe poupou um castigo de inelegibilidade por 8 anos consecutivos. O segundo, bem, está em andamento e consegue-se imaginar que, tudo indica, será um impeachment concluído daqui até seis meses.
Independentemente do resultado, à parte desse episódio, analiso o teor das conjunturas que envolveram ambos governantes e, necessariamente consigo identificar os “paus secos” que, terminantemente, incendiaram seus mandatos. Senão, vejamos: o processo que culminou com a renúncia do presidente Fernando Collor de Mello, em 29 de dezembro de 1992, foi resultado de meses de investigação parlamentar provocada por denúncias de corrupção divulgadas pela imprensa. Ainda candidato, em 1989, o ex-governador de Alagoas era bem diferente dos políticos da época: relativamente jovem (39 anos), fazia cooper, andava de jet-ski e estampava frases de impacto, como “Não fale em crise. Trabalhe”, em suas camisetas. Quando assumiu, em março de 1990, sua popularidade começou a ficar abalada ao confiscar o saldo das poupanças bancárias a fim de frear a inflação. Cada pessoa ficou com apenas 50 mil cruzeiros (hoje, cerca de R$ 6 mil) disponíveis e muita gente empobreceu da noite para o dia. Não deu certo: a inflação continuou crescendo e, em 1991, já passava dos 400% acumulados no ano, quando surgiram os primeiros escândalos de corrupção ligados a Collor. Pedro Collor, irmão do presidente, concedeu entrevista à revista VEJA, em maio de 1992, denunciando um esquema de lavagem de dinheiro no exterior comandado por Paulo César (PC) Farias, tesoureiro da campanha eleitoral de 1989. Fernando acusou o irmão de insanidade mental – desmentida por exames. O Congresso Nacional criou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as denúncias. Vieram à tona esquemas como a Operação Uruguai: empréstimos fraudulentos para financiar a campanha de 1989. Além disso, contas fantasma operadas por PC financiavam a reforma da Casa da Dinda, onde Collor morava. As ligações do presidente com os golpes de PC ficaram evidentes. Um carro Fiat Elba para uso pessoal do presidente foi comprado com dinheiro vindo das contas fantasma do tesoureiro de campanha. Em agosto, o motorista Eriberto França contou à revista Istoé como levava contas de Collor para serem pagas por empresas de fachada de PC. Um relatório da CPI atestou que US$ 6,5 milhões haviam sido transferidos irregularmente para financiar gastos do presidente. A insatisfação popular aumentou e, em 29 de setembro, o impeachment foi aprovado por 441 dos 509 deputados. Collor foi afastado e substituído por Itamar Franco, seu vice. Collor foi, então, julgado pelo Senado Federal. Em 29 de dezembro, o presidente renunciou para tentar engavetar o processo e preservar seus direitos políticos. No entanto, por 76 votos a 3, os senadores condenaram o presidente, que não poderia concorrer em eleições pelos oito anos seguintes.
Dilma Rousseff iniciou sua militância política aos 16 anos e ingressou na luta armada contra a ditadura militar. Foi presa em 1970 por quase três anos e submetida à tortura. Após deixar a prisão, mudou-se para Porto Alegre e formou-se em Economia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em 1980, ajudou a fundar o PDT, legenda a qual permaneceu filiada até 2001. Trabalhou na assessoria da bancada estadual do PDT entre 1980 e 1985. Em 1986, o então prefeito da capital gaúcha, Alceu Collares, a escolheu para a Secretária da Fazenda. Com a volta da democracia ao Brasil, Dilma, então diretora-geral da Câmara Municipal de Porto Alegre, participou da campanha de Leonel Brizola ao Palácio do Planalto em 1989, ano da primeira eleição presidencial direta após a ditadura militar. No início da década de 1990, retornou à Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul, agora como presidente da instituição. Em 1993, com a eleição de Alceu Collares para o governo do Rio Grande do Sul, tornou-se Secretária de Energia, Minas e Comunicação do Rio Grande do Sul. Em 1998, iniciou o curso de doutorado em Economia na Universidade Estadual de Campinas, mas, já envolvida na campanha sucessória do governo gaúcho, não chegou a defender tese. A aliança entre PDT e PT elegeu Olívio Dutra governador e Dilma ocupou, mais uma vez, a Secretaria de Energia, Minas e Comunicação do Rio Grande do Sul. Dois anos depois, filiou-se ao PT. O trabalho realizado no governo gaúcho chamou a atenção de Luiz Inácio Lula da Silva, já que o Rio Grande do Sul foi uma das poucas unidades da federação que não sofreram com o racionamento de energia em 2001. Durante a campanha de 2002, que levou Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, Dilma ganhou destaque na equipe responsável por formular o plano do governo na área energética. Foi convidada então a ocupar a pasta de Minas e Energia em 2003. Permaneceu no cargo até 2005, quando substituiu José Dirceu, atingido pelo escândalo do mensalão, na Casa Civil. Entre 2003 e 2005, comandou profunda reformulação no setor com a criação do chamado marco regulatório (leis, regulamentos e normas técnicas) para as práticas em Minas e Energia. Além disso, presidiu o Conselho de Administração da Petrobrás, introduziu o biodiesel na matriz energética brasileira e criou o programa Luz para Todos. Lula escolheu Dilma para ocupar a chefia da Casa Civil e coordenar o trabalho de todo ministério em 2005. A ministra assumiu a direção de programas estratégicos como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o programa de habitação popular Minha Casa, Minha Vida. Coordenou ainda a Comissão Interministerial encarregada de definir as regras para a exploração das recém-descobertas reservas de petróleo na camada pré-sal e integrou a Junta Orçamentária do Governo, que se reúne mensalmente para avaliar a liberação de recursos para obras. Em março de 2010, Dilma e Lula lançaram a segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2), que amplia as metas da primeira versão do programa. No dia 03 de abril do mesmo ano, Dilma deixou o Governo Federal para se candidatar à Presidência. Em 13 de junho, o PT oficializou a candidatura da ex-ministra. Dilma comandou uma extensa campanha pelo País, tendo Lula como seu principal cabo eleitoral. Viu a disputa ser levada ao segundo turno em meio a denúncias envolvendo Erenice Guerra, sua antiga auxiliar e então ministra da Casa Civil. Na segunda etapa da votação, Dilma confirmou seu favoritismo e se tornou a primeira presidente mulher do Brasil. No segundo turno das eleições, realizado em 31 de outubro de 2010, aos 63 anos de idade, Dilma Rousseff sagrou-se eleita a primeira mulher Presidenta da República Federativa do Brasil, com quase 56 milhões de votos.
Collor foi para a Casa da Dinda. Não era chegado a benesses palacianas e por isso não adquiriu “costumes”. Dilma está no Palácio da Alvorada; ela ainda é Presidenta; afastada. Mas é. Tanto que Michel Temer exigiu que mantivessem as fotos dela nos gabinetes. Sabe das coisas Michel Temer! Goza de todos os direitos e prerrogativas do cargo, entre eles: salário, residência oficial, avião, carro, segurança pessoal, assistência médica, etc. Merecidas férias, eu diria!
Ambos “paus verdes”.
A inteligência, a formação, e a competência de ambos são incontestáveis! Mesmo o caráter conservador ilibado é relevante. Nela, principalmente. Chegaram onde chegaram porque fizeram a diferença. Fizeram alianças que foram essenciais nas votações expressivas que tiveram.
Aqui é que entram os “paus secos”!
Collor, posso dizer que juntou um amontoado de “gravetos”, um “caminhãozinho de lenha”. Já queimaram, que nem cinzas há.
Agora, Dilma…ainda vai queimar muita lenha! Como vai! Os “paus secos” que se encostaram nela vão dar uma fogueira maior que a de São João de Campina Grande!
Resta-nos, à espreita, de soslaio, fazer uma barreira de proteção das nossas propriedades para evitarmos que brasas recaiam sobre nós, que não sabemos, a esta altura, se somos paus verdes ou paus secos!
Deus nos proteja!
(Carlos Dias Felizardo, bacharel em Administração Pública pela UFRN, técnico agropecuário e pós-graduando em Gestão, Licenciamento e Auditoria Ambiental)