Brasil

A doença da civilização

Redação DM

Publicado em 21 de junho de 2016 às 02:17 | Atualizado há 10 anos

Muitas vezes suportamos o que não pode ser suportado em nome de uma falsa felicidade futura. Que é quase sempre trágica, ou nula. Triste é quem não busca viver o esplendor da felicidade presente, ou quem não afasta as sombras a ofuscar a claridade de seu instante. A falácia de existir no passado ou no futuro é exercida em nome de uma verdade que não se sustenta, ou de um encontro incerto, em uma paisagem idealizada, quando já temos dentro de nós tudo de que precisamos.

Quando tudo se despedaça , e a verdade da vida não viaja nos rios do instante, pode ser que seja a crise instalando o caos de um novo começo, e o fogo que vemos como ameaça pode ser liberador de uma necessária transformação do Ser. É o que diz Pierre Levy, especialista em cybercultura, doutor da Universidade de Sorbonne, em Paris,–alguém que espantou a muitos, quando mergulhou em águas de uma visão mística (ou holística) da vida: “Quando você congela o coração com medo de vê-lo sofrer, deixa-o morrer para a alegria. Não se transforme em um morto vivo”.

O mal estar da civilização é haver transformado a ilusão em doença, e a doença em instituição sagrada, a quem as multidões de normóides prestam reverência e adoração. Sigmund Freud diagnosticou com gênio e brilhantismo a doença da civilização, mas sua percepção não alcançou compreender que a doença é uma escolha que fazemos, porque crescemos usando a doença como um modo de vida, e temendo a cura como uma forma de morte. É o que ensina o Curso em milagres, da Fundação da Paz Interior: “O amor sem confiança é impossível, e dúvida e confiança não podem coexistir. O ódio tem que ser o oposto do amor, qualquer que seja o seu nome”.

O teatro da vida acelerou seus atos. A imaginação secular tanto esvaziou-se em seus atos, que reduziu a sede de justiça do homem revoltado ao desespero sem causa e à angústia existencialista do Ser que vive para a doença e a morte, em virtude da cegueira de sua percepção da teia da vida. Veio o progresso, inexorável, mandando aos mausoléus do passado os ingênuos românticos, que se opunham ao triunfo de seu carrossel trepidante. “Das agonias da golpeada Igreja Católica Romana surgiu a Renascença. Quase por milagre, a Europa começa a explodir, com nova energia. Logo chegou a ciência, como uma nova deidade, e o culto ao consumo foi erigido em religião, com milhões de fanáticos escravos, entre ricos, pobres e remediados. E o que parecia ser infinitamente fecundo, logo chegou ao fundo (não do FMI, que ainda não existia) mas do poço do calabouço.

A imaginação secular, que prometia tudo, passou a ser um garrote vil, a mutilar, mortalmente, as sociedades e culturas, antes movidas por fascinante dinamismo. Não vivendo o ser humano só de pão, senão que nutre a sua alma o fogo que não apaga, tarde demais o século do desespero mergulhou no desvario da angústia sem motivo, da violência gratuita, e de todas as formas de terrorismo político e religioso. Se não existem valores que nos mantenham unidos como seres humanos, não importando nosso credo político ou nossa fé religiosa, tudo se desagrega em ódios e conflitos insanos, como os que, há milênios, vêm promovendo guerras sangrentas, a barbárie e o genocídio – com o nome de Deus sendo colocado à frente, como justificativa para a loucura coletiva. Goethe e William Blake foram os últimos a vislumbrar o que estava por vir, assinala Henry Kolimowski, em O Teatro da mente): “A tirania da visão incompleta. As mentes luminosas de Nietzche e Dostoiévski foram reduzidas a vozes do desespero. Atropeladas pela carruagem do progresso material, os Nietzches e Rilkes anteciparam Kafka”. Se para Nietzche Deus morrera, com o enterro de Pã e sua flauta mágica, mergulhamos no pragmatismo neocínico, onde o que vale é vencer o concorrente ou o adversário, não importando os meios que utilizemos para atingir nossos fins.

Hoje somos seres sem mística e sem metafísica, reduzidos à física mecânica e ao raciocínio lógico. Criaturas sem alquimia, fragmentados e viciados em sofrer, desconectamos em nós as funções da árvore da vida. Não mais nos sustentam os andaimes imaginários da transcendência. Miseráveis de alma, e secos de espírito, nos contentamos com o brilho de purpurina de produtos de que não precisamos. Se tudo desabar no caos e na dissolução que não se reelabora em cosmo criativo, a doença da civilização, multiplicada em metástase de uma infecção que matou no humano o seu espírito, a terra, que tem sido berço da vida, será seu túmulo – ela mesma condenada à entropia, uma vez despojada da sinergia com que, há bilhões de anos, vem mudando o caos em cosmo, através da alquimia quântica de sua viagem pelos caminhos da evolução.

(Brasigóis Felício, escritor e jornalista.É membro da Academia Gopiana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)

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