A doença depressão
Redação DM
Publicado em 9 de julho de 2016 às 02:22 | Atualizado há 10 anosEste texto é um ligeiro apanhado sobre o assunto. Talvez seja uma forma de abordagem reveladora para alguns, pelo menos. Por isso mesmo não quero me estender muito sobre o tema que, certamente, é presença garantida em muitos livros e textos e até programas de TV. E na vida de muitos leitores que estão aqui lendo este texto. Como a depressão não enxerga a depressão, todos temos, sem saber, amigos, parentes, ou conhecidos, que morreram de depressão. Pior: sem a menor (a menor, repetimos) noção de que estavam sofrendo do mal. Nem ele sabia, nem quem estava por perto.
Alguns preferem dizer que somos todos deprimidos, o que é um exagero. Todos temos sentimentos depressivos. Mas mesmo se fôssemos, tem uns que são mais (ou menos, tanto faz) deprimidos do que outros. Mais ainda, cada deprimido é diferente do outro, não existe deprimido semelhante. Somos iguais na legislação e desiguais na depressão (fica essa rima mesmo). Não apenas, somos desiguais também no modo como cada um reage, nutre e trata a depressão. Tem uns que se matam de depressão e tem outros que matam os outros. Tudo de depressão.
Primeiro que a depressão não é uma doença que ataca velhos, nem apenas jovens e jovens, pretos e pardos, lerdos ou ligeiros, ricos ou pobres. Não podemos acusá-la de qualquer discriminação, por mais que tentem. Digo isso porque está na moda acusar os outros de discriminação (não que ela não exista), de discriminação contra pobres, ricos, miseráveis, tortos, derrubados e até atléticos. Mas o fato inexplicável, e persistente, de achar esquisito a vida, ou algo querido, pode ser obra da depressão. Uma decepção exagerada e que se prolonga demasiadamente também.
A depressão, a doença, consome e esgota o sujeito, pelas vias perceptíveis, mas também pelas vias imperceptíveis. Parece não ter limites. Penetra pelos poros, enfraquece os músculos, deixa o sujeito sem graça enfim. Isto quer dizer que nada daquilo que o indivíduo faz, está fora daquilo que a depressão lhe obriga sentir. Ela rouba a vida do “caboclo”, com o intuito relativamente disfarçado, de destruí-la. Seria uma espécie de sombra que derruba tudo que encontra pela frente.
A depressão está inscrita no volume de ar que o sujeito respira, no tom de voz que pronuncia, nas decisões que toma, no seu jeito de fazer as coisas, na maneira de pensar e no conteúdo dos seus pensamentos, assim como no modo como encara as pessoas com as quais convive. Nem todos, mas o sexo perde a graça no homem e na mulher permanece.
Mas esta é a parte mais visível da depressão. O que as pessoas não enxergam são as condições da sua formação, é a sua construção gradativa e cotidiana ao longo dos anos. Na sua versão mais barata, ela é enganosa porque não desperta maiores (nem as menores) rumores da sua presença e efeitos. Sorrateiramente ela gruda nas mais simples atitudes da pessoa colocando-a impossibilitada de enxergar suas potencialidades. Nestas condições, o sujeito se encontra preso a severas limitações, que podem aumentar a cada dia. Na verdade, a depressão engana o sujeito o tempo todo, provocando efeitos de desentendimento e muita confusão na sua cabeça. O sujeito fica alienado das suas próprias condições, mas achando que está tomando decisões por livre e espontânea vontade! Na verdade, ele está sendo enganado por constrangimentos silenciosos que alteram sua vida.
Aos navegantes, cabe dizer que a depressão comparece e atua no geral e no particular, devorando sentimentos, sexualidade, as atitudes, os odores e sabores, as sensações corporais, a atividade do pensamento (isto quer dizer que a depressão que vai determinar ou interferir nos pensamentos que o sujeito vai pensar).
Quando é descoberta, finalmente, todo mundo acha que foi de ontem pra hoje que fulano de tal ficou assim, mais esquisito, mais diferente do que já era, ou simplesmente ficou “deferente”. Não foi, vem de longa data. Ou ainda, vem de muito longa data. Nada indica surpresa na depressão. A depressão só surpreende os desatentos (a imensa maioria de nós), sobretudo os muitos, muitos desatentos.
Naquelas depressões que causam suicídio (é bom dizer que nem todo deprimido é suicida, mas o suicídio é mais presente nos deprimindo do que nos outros), as ideias de suicídio atuam, muitas vezes desde criança, sem que ela perceba a importância delas, nem a dimensão que ocupam na sua vida. A pessoa tem vergonha delas e se condena por tê-las. Imaginem o drama: o indivíduo, mesmo criança, vive dentro o que ele mesmo condena em silêncio. Não conta pra ninguém o que acha feio. Sabendo que carrega o feio, ele mais feio fica. Imaginem a imensa e persistente dor que tudo isso representa.
E como é que aparece a depressão na vida de uma pessoa? As pessoas acham que vem de longe, da sua natureza ruim, vem do acaso ou é algo como uma tentação do demônio e, pra quem acredita, é o próprio demônio em plena atuação. Se bem que não é nada fácil deixar de demonizar a depressão, tal o grau de estranheza e estrago que provoca na vida de uma pessoa. Pior, sem que ela sequer desconfie da sua existência. No entanto, só vamos poder aprender a lidar com a depressão retirando dela o caráter sobrenatural. Por que em lugar de procurar no que não conhecemos, é necessário mirar no conhecimento possível? Depressão é doença humana, não existe no céu. Se existe depois da morte ninguém sabe, ninguém viu.
Outra questão bastante comum é: depressão tem cura? Tanto a primeira quanto a segunda questão não podem ser respondidas com clareza matemática, algo do tipo é isso e aquilo. A primeira porque suas causas são múltiplas, variadas e de difícil identificação. Ninguém sabe, por exemplo, da participação genética na sua formação. Muitas causas que participam da formação do quadro depressão se encontram presentes na própria formação do sujeito, estão imbricadas no cotidiano familiar e social do indivíduo. De todo modo, a palavra final sobre a depressão não foi dada. Não sabemos se será um dia. Apesar dos progressos realizados, as respostas que temos são sempre incompletas. Só o progresso do conhecimento poderá nos oferecer respostas satisfatórias.
Questões não faltam: remédio ajuda? Claro que sim. Mas por melhor que sejam, as medicações de hoje (melhores que as de ontem) precisam ser dosadas de acordo com a circunstância de cada um, no sentido mais amplo da palavra dosar. A bondade dos remédios funciona, às vezes, como estímulo para passividade, atrapalhando a formação do interesse de trabalhar por melhora. Desmobiliza o sujeito do esforço para obter respostas no sentido de entender e elaborar melhor seu entendimento para se localizar melhor diante da sua própria vida. Caso onde, por incrível que pareça, a bondade ajuda a piorar. Em outra ocasião penso abordar melhor essa história da bondade que piora.
Mas um dos dilemas maiores de toda terapêutica da depressão está em como convidar o deprimido para realizar um esforço para sair de uma doença que solapa precisamente toda tentativa que ele faz para melhorar.
Mas já foi pior. Antigamente não havia medicações para depressão cientificamente testadas. E quando começaram a aparecer provocavam efeitos tão desagradáveis que alguns preferiam o sofrimento. Mas mesmo no melhor dos casos, todo ser humano é uma entidade afetiva imprevisível e a depressão funciona como fator adicional de desorganização. Assim, como saber com quais afetos o deprimido vai reagir ao remédio e ao médico que o prescreve? Seria como exigir humildade de quem está sendo humilhado por algo que desconhece.
De uma coisa sabemos: ninguém melhora da depressão por decisão pessoal, sem ajuda. Mesmo porque a depressão não é produto do acaso. Nem castigo do divino.
Para terminar, apenas por enquanto, é bom deixar avisado que na depressão não existem facilidades. A depressão é uma doença dura e cruel.
(Amaury Oliveira Tavares, médico e psicanalista. Presidente e organizador do Primeiro Congresso de Psiquiatras do Planalto Central. Autor do livro “Narcisismo”, e outros)