Brasil

A dor e a delícia do viver

Redação DM

Publicado em 16 de julho de 2016 às 03:05 | Atualizado há 10 anos

Viajando um dia desses, em uma estrada esburacada, ao dar uma rateada na condução do meu automóvel trepidante, comentei com quem viajava comigo: já fui bom em muita coisa! Ou, dando uma chance à modéstia: já fui bom em quase tudo! Falando que já fui bom em muita coisa, não seria a mesma coisa.

No futebol, quando menino e quando jovem, batia um bolão. Nas peladas driblava o time adversário inteirinho.Não escapava nem o goleiro. Driblava e, para humilhar, não fazia o gol. Voltava para driblar a todos de novo.

No amor fui um exagerado. Quando me apaixonava por uma dona, e isto ocorria com espantosa facilidade, escrevia cartas amorosas que eram exagerados tratados líricos de cem páginas ou mais.

Como poeta as palavras e imagens me vinham em jorros. Escrevi o meu livro de contos Monólogos da angústia (Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos e adotado para o vestibular em apenas oito noites. Média de três contos por noite. Um nascendo após o outro.

Na redação da revista Leia Agora, revista onde trabalhava como jornalista. No descanso carregava pedras.

A namorada e hoje minha esposa sentada ao meu lado, na redação solitária. Não entendia aquilo. De onde vinha tanta angústia. Tanto som, tantos personagens em sofrimento, jungidos à fúria e ao desconcerto do mundo.

Era capaz de escrever um bom livro de poemas em algumas horas. Como jornalista os editores me pediam uma legenda para uma foto e eu fazia um editorial. Concebia tratados. Tinham que mandar que eu parasse, era só uma legenda!

Também encontrei donas do mesmo naipe mental, que me mandavam cartas de amor que pareciam delas escorrer os mais intensos e dramáticos perfumes. Muitas sendo sobreviventes de terríveis trombadas existenciais, vindas de amor falhado ou mal havido e exercido – tsunamis emocionais que deixaram marcas, feridas profundas.

É a velha lei da física: semelhante atrai semelhante.

Para o transporte energético (ou o esporte do sexo)poucas vezes fui avesso – ao contrário, sempre fui propenso. Encarava desde as feras (as muito feias) até as belas, tendo ou não bebido, tumado umas e outras.

Uma espécie de filantropa benevolência ou de caridade cristã me fazia entender que todas mereciam ser amadas, desejadas, possuídas. Daí que nos bailes da juventude, aqueles da nossa preferência, em que não éramos convidados.Nossa turma gostava mais das festas e bailes nos quais entrávamos como participando penetras, os amigos e colegas, aludindo com ironia à estranha opção preferencial, maldavam, dizendo: “Hoje você vai nadar de braçada, Brasa! Tá assim de feia no pedaço!”

Lembranças que tenho, vindas do nada, em uma onda de nostalgia, avassalando quem sabe que já desceu quase toda a montanha, viveu muito, passou por muitas vivências, encontrou gente boa e ruim, deu e levou porradas, acendeu velas a Deus e cortejou o Diabo, sempre foi uma contradição ambulante, sempre a construir “em cada canto da minha alma um altar a um Deus diferente”.

A tudo – a todos e todas com quem me enlacei ou trombei – a tudo o que vivi – e em tudo o que fui exaltado ou diminuído – agradeço, comovido. Tudo contribuiu para que me fizesse isto – ou este – em que me tornei.

 

(Brasigóis Felício, jornalista e escritor. Membro da Academia Goiana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de Goiás)

 

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