Brasil

A droga e o estado

Redação DM

Publicado em 15 de março de 2022 às 13:50 | Atualizado há 4 anos

As manchetes estampam a banalização, prisão de sujeitos sem face resultantes da sociedade mergulhada no fluxo irracional. A hipocrisia apressa a violência a geração neta-bisneta dos velhos larápios do poder. A massa revela-se manipulada a Era pós-moderna: “Escola é uma droga, quero que o meu mundo seja divertido, sem regras, pais, nada, como se ninguém pudesse me parar” (Justin Bieber). A contemporaneidade escancara signos, efemeridade, digitalização do caos, estreita o território mental da vida que mal respira o que restou dos séculos XIX e XX: “O mundo, ou seus aspectos relevantes, pós-industrial, pós-imperial, pós-moderno, pós-estruturalista, pós-marxista, pós-Gutemberg, qualquer coisa” (Robsbawm, 2007, p. 282-283).

Os meses, em mesmice midiática-sensacionalista, reificam o “preso” pela polícia alardeado como “bandido”, homem estanque em corpo de menino, “maior ou menor de idade”, imputável. O perigoso capaz de formar gangue, fumar maconha, infringir a Lei de Drogas 11.343/06 que torna o potencial da erva na substância ilícita. Na periferia do Brasil cafona (Fernanda Young), apontar o gerente do tráfico é fácil, já o capo do Senado e bastidores não. O dito popular ensina sobre a história do País “descoberto, catequisado, explorado e expropriado” tocado a leis e “leis” direcionadas a diferentes camadas da pirâmide social. “Quando vou a um país, não examino se há boas leis, mas se as que lá existem são executadas, pois boas leis há, por toda parte” (Montesquieu).

Os anos retratam o local do “crime” nas manchas de sangue, na bagana apagada, no amontoado de pinos, caixas de cigarro falsificado, verdades que escoram a casa que cai. A corrupção endêmica engrossa o esgoto das mansões erguidas a muros, cifrão lavado, ilusão do luxo a separar pobres e ricos passim definidos a navalha-realidade. A hipocrisia sociocultural sabe, esconde dos aquários sociais a cor da favela, o poder de compra de jovens ricos traficantes das áreas nobres da cidade aonde a mídia faz-que-desconhece a pistola e calibre, pó e fumo, papel e tarja-preta, estupros e assassinatos. Substâncias, receitas e farmácias sonegam da notícia do dia que “a miséria humana atual, conforme a ortodoxia ‘neoliberal’, não constitui violação de direitos, insensatez, cruel dominação, mas a falta de aptidão pessoal, desventura, ‘exclusão’ do mercado” (VIEIRA, 2004).

A História conta e sonega sobre crianças armadas, sem significância-significado, mal explica o porquê de não alcançarem a escola, a verdade, justiça social, submetidas ao presídio ou cemitério. O celular do traficante e “bandido menor de idade”, geralmente vaza áudios e vídeos em tom de ameaça: “- E aí, doido! Quem mandou foto minha vai cair na bala”. Fato que o poder de fato materializa enquanto “contravenção”, não sem antes provar da raspa no prato sem debate endossado pelo tráfico organizado de armas, substâncias, poder em mais que três instâncias. “Não precisamos apenas compreender os resultados de uma política, mas também analisar determinadas formas pelas quais as estratégias de combate ao uso de drogas vieram a ser usadas para fins políticos” (HART, 2013, p. 27).

Há séculos a hemorragia social, consequência de guerras entre mouros e cristãos, desnuda a fome, a desmentir a abundância de leite e mel. A ideologia de mercado unicamente econômico fomenta a patologia social constatada na cidade. Segregada, dividida e organizada em sujeitos de direitos, cidadãos, habitantes, discurso-falácia burguesa a perpetuar a desigualdade social, o lugar nenhum, a má distribuição da riqueza socialmente produzida. O motor sociocultural econômico institucionalizou a luta de classes, reificada na história contada pelos vencedores a justificar a miséria da razão dos sem face.

Conjuntural a concretude humana expõe vida, morte, justifica o pecado, direciona ao recorte do Holocausto: “Faríamos uma ofensa grave àqueles homens, àquelas mulheres, àquelas crianças enviadas para morrer nas câmaras de gás, se considerássemos aquela época infeliz como um acidente da história, a ser colocado entre parênteses” (Mattarella). Cai o pano do fim do mundo, perpetua o senso comum e engano, a salvação do apenado é intermediada a deuses avalizados pela corrupção dos muitos diabos. Mote capitalista lucrativo os templos travestidos em tramas e bravatas gritam aleluia ao tempo em que promovem favores, falsos milagres, corrupção do homem na sua alma, também, da laicidade do Estado.
E o pulso, ainda pulsa!

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