A eleição e a ressaca filosófica do cachorro e do dono do bar
Redação DM
Publicado em 5 de outubro de 2016 às 02:20 | Atualizado há 10 anos“Disseminadas, sem centros de união, as inteligências do País brilham transitoriamente, esterilizam-se ou estacionam desencantadas.” (Quintino Bocaiuva, 1836-1912)
Nos quatro cantos da Capital, ecoando ao Estado, manchete de atentado político ou assunto e bola da vez, mais uma vez, e, no Cerrado goiano, é o processo e resultado das eleições local e nacional para prefeitos e vereadores. Na vila, em plena esquina do Café Central, e, à boca pequena o eleitor desvalido que perdeu o voto no primeiro turno, acompanhado de anarquistas em meio a intelectuais e cientistas políticos donos da bola de cristal -conjuntural – conta-se dos podres poderes da politicagem. Comenta-se que se é para levar o ouro, já a partir do segundo turno, o gestor das prefeituras – na Capital ou interior – será o Anhanguera que, mesmo e apesar de morto, teria proposta melhor sem contar do seu poder de transformar água em fogo.
Parte ínfima da coletividade sabe da força de seu voto que vale distribuição da riqueza socialmente produzida. E não está disposta a eleger coronéis, latifundiários, pastores e padres, empresários multimilionários que promovem a concentração de renda e poder que avalizam o adensamento das cidades, visitam a periferia da metrópole, a cada quatro anos, quando descobrem que sob as rédeas que direcionam a carruagem do rico encontra-se a realidade do mais pobre calçada em ferradura, fome e desemprego, exclusão. O proletariado – sitiado pela Era Moderna – sabe de suas derrotas, a palavra desistir não permeia seu ‘dicionário’ da sobrevivência. Quem sabe iluminada por deuses e santos, padrinhos ou orixás a classe expropriada escreve, a cada gota de suor derramado durante o dia – que voa – os capítulos de uma história mal contada no livro parcial de suas conquistas amealhadas, dentre elas, a sabedoria da certeza de que o segredo da vida é queimar a vela sem jamais deixar apagar a chama.
Salamandra que é o eleitor – escravo moderno – transforma o chumbo nas asas em pingente. As dores tatuadas na memória – com a agulha da alma – espantam fantasmas que dormem ao lado de leões alimentados na bacia das falsidades, enfrentados com identidade e sabedoria. Ao final da tarefa, árdua e diária, apelidada vida, faz das parcas e importantes vitórias um mural de colorido pálido que conta sobre as lutas e delícias da sociedade sem face refletida no espelho de um mundo dilacerado a navalha afiada em pedra fria e mentiras. Da loucura que é a vida ou fagulha de luz – fina – alimentada a perrengues a vida, o que certamente o diferencia do resto dos humanoides – dependentes do iPhone – não é a poeira do desemprego que amarela a Carteira de Trabalho transformada em Atestado de Desemprego mas a beleza de ensinar e saber, a ferro e fogo, dos amores e promessas, da concretude da morte, da (des) razão das (in) verdades fundidas a sangue, lágrimas e escória.
Verdadeiro como a certeza líquida e certa da traição, o ditado afirma que se eleitor que desconhece seu passado, trespassa a existência em cinza, repete a história. O jornal ‘Folha de S.Paulo’, edição de segunda-feira, 3 de outubro de 1960, trazia a manchete: O Brasil vai hoje às urnas: “Mais de 15,5 milhões de brasileiros são chamados hoje às urnas (das 8h às 17 horas) para a escolha de presidente e vice-presidente da República que governarão o País no quinquênio 1961/1965.” Em frente às bancas de jornais – redes sociais de uma época livre da praga do Iphone – o eleitor era incapaz de imaginar que aquele momento histórico-político moldava a proposta de golpe planejado de perfil ianque americano já financiado e articulado. Os candidatos, à época, divididos entre fantoches e articuladores eram o general Lott (PSD-PTB-PSB-PRP-PST); Milton Campos (UDN-PL-PTN); Fernando Ferrari (PDC); Ademar de Barros (PSP); Jânio Quadros (UDN-PDC-PL-PR-PTN) e o candidato a vice, Jango Goulart (PTB-PSD-PSB-PRP-PST), que assumiu a Presidência na sala de uma democracia abalroada, em 7 de setembro de 1961, deposto, em 1 abril de 1964, no revoltoso alpendre dos marujos, açoitados a coturnos e gandolas.
Tal qual a verdade do voto ao final do processo, democrático e de direito, alguns gatos pingados renovarão as Câmaras ou arena politiqueira onde o poder do cifrão perpetua, desde 1500, a pena de brasileiros miseráveis endossada na pena do tinteiro de alcaides. Os candidatos menos afortunados, excluídos dos debates sobre o pleito, juntar-se-ão à gritaria da plebe em denúncias sobre as mazelas mais imediatas, muitos deles, a serviço do patrão, ocuparão cargos comissionados onde batem carimbo e prorrogam a extrema unção dos vulneráveis, atores sociais sem representação nem representatividade que ilustram os gráficos da hipocrisia – exposta a fome, dependência do Estado e das substâncias, exclusão – que a gerência da insanidade socioeconômica – ou governo – insiste em demonstrar em números o que a carne sente a corte seco e como efeito físico da ausência de proteína, salubridade e dignidade. Segundo o candidato a prefeito por Goiânia, Djalma Araújo, abortado do pleito e de alguns debates: “Não se constrói uma democracia na base da suposição. Os meios de comunicação são concessões públicas, outorgadas pelo Estado. Não se trata de uma propriedade privada. Deveriam transmitir conteúdo de qualidade e informação, e, nesse fato específico, estão vendendo desinformação para o eleitor. Esse tipo de debate induz o público a votar nos mesmos.”
A história milenar compartilha propostas cristãs, pagãs, da riqueza que compra e vende a pobreza, dos que não fogem à luta, das caras e ideias novas, de gente que milita em meio ao trabalhador, e, nas ruas. Nas redes sociais foram muitos compartilhamentos de todos os lados, em busca de apoio ou na forma de denúncia. Na medida do possível, cada um deu o que pôde em sua curta caminhada. Ao proletário, ferramenta do capital montada em ossos, carne, sangue, ideias e ideais, resta alguma intuição ou proposta de revolução democrática representada no voto expresso – arma cívica – capaz de promover mais oportunidades à coletividade e reduzir o poder de organização da matilha, há décadas, instalada no (des) governo de uma Nação cujo comércio anda tão parado que tem dono de boteco trabalhando fora, e, quem cuida do balcão é o cachorro do dono do bar.
E o pulso… ainda pulsa!
(Antônio Lopes, filósofo, escritor,mestre em Serviço Social/PUC-Goiás e mestrando em Direitos Humanos/UFG)