A história do jornalista Antero Costa Carvalho, barbaramente assassinado
Redação DM
Publicado em 12 de agosto de 2016 às 02:47 | Atualizado há 10 anosA simpática e tão acolhedora Catalão de hoje, outrora palco dos mais horrendos assassinatos que ficaram impunes, entre os quais o do jornalista e farmacêutico Antero Costa Carvalho, ocorrido há 80 anos (16/08/1936), em face da frágil atuação de um Promotor de Justiça, da omissão de um inoperante juiz leigo e da conivência de um truculento delegado de polícia submisso ao comando político local, cujos interesses se voltavam contra o acusado por mera suposição de ter sido o mandante do homicídio perpetrado contra o fazendeiro Albino Felipe do Nascimento, de quem era amigo, compadre, sócio de negócios e confidente pessoal.
Sempre tido como inocente e até santo, com uma bem cuidada capela erguida no local de seu holocausto, passados 80 anos, mesmo com a prescrição do crime que o vitimou e o falecimento de todos os envolvidos, os mais antigos integrantes da população local evitam comentar o fato. Até hoje paira nos espíritos aquele receio, herdado dos antepassados, de falar a verdade de todos conhecida – um certo medo de melindrar descendentes dos culpados ainda residentes na cidade.
Não obstante isso, muito já se falou e escreveu sobre o acontecimento. Existe uma vasta literatura a respeito. Cornélio Ramos, em “História e Confissões”, diz que tudo se deu preparado pelos que mandavam na Terra catalana. Nasr Fayad Chaul, em “História Política de Catalão”, faz referência a Cornélio Ramos, critica a tendenciosidade do inquérito policial incriminador, apresenta depoimentos de participantes do crime envolvendo membro da família do chefe político local e ainda transcreve trecho de uma carta dirigida a Pedro Ludovico, confirmando tais acusações. O presente articulista destas linhas, em seu livro “História da Terra Branca e outras Coisas Mais” e em artigo publicado na Folha Espírita de São Paulo, endossa a opinião dos autores citados e com base em soneto psicografado pelo médium Francisco Cândido Xavier, cujo primeiro verso diz “acusado sem culpa ante a calúnia infrene”, proclama sua inocência.
Iwan Santana, em “Herança de Sangue”, retrata muito bem o fato, embora com um pouco de exagero na citação dos detalhes.
Finalmente, em 2012, veio a lume o livro de Luiz Righeto “O Mártir do Catalão”, sem dúvida, a começar pelo próprio título, a melhor obra sobre Antero, devido à sobriedade de uma narrativa rica em detalhes, com a corajosa menção a nomes de membros de tradicional família detentora de grande poder político-econômico na época, sem fazer acusação alguma a nenhum deles.
Como se pode ver no referido trabalho, fruto do talento de uma profícua inspiração espiritual, Antero, moço bom e caridoso, descendente da tradicional família Carvalho de Jataí-GO., deixou seu torrão natal para se radicar em Campo Grande, juntamente com sua mãe. Bom orador, dedicado às letras e à prática de atividade farmacêutica, tornou-se pessoa benvinda à nova cidade, no sul matogrossense, onde se integrou de corpo e alma na campanha separatista pela criação do Estado de Maracaju (Mato Grosso do Sul), cuja existência chegou até ser proclamada, no decorrer do levante paulista de 1932 (Revolução Constitucionalista), ao qual maracajuenses se aliaram, com apoio militar liderado pelo general Bertoldo Klinger.
Vencidos os sul-mato-grossenses pela resistência legalista das forças civis e militares de Goiás e Minas Gerais que vieram para as fronteiras do Estado e derrotada a rebelião da brava gente de Piratininga (outubro de 1932), violenta foi a repressão contra os vencidos. As forças de Cuiabá ocuparam a cidade e muitos foram levados à prisão e até ameaçados de fuzilamento.
Juntamente com sua companheira Amélia Nazar, de nacionalidade síria, cuja mãe residia em Catalão, Antero, que estava na lista de procurados, partiu para esta cidade, levando um casal de filhos da amásia, onde passou a residir no início do ano de 1933. Depois de trabalhar como empregado, tornou-se dono de uma farmácia e prestava serviços à comunidade, principalmente aos mais necessitados, a cujas casas ia para aplicar injeções e realizar tratamentos diversos.
Colaborava com o jornal “O Estudante” e dirigia “O Esporte”, juntamente com o escritor Antônio Azzi. Sem nenhum interesse político, até porque precisava ocultar a sua condição de refugiado, em pouco tempo se viu querido e prestigiado por todos os moradores da cidade, que o procuravam para escrever e ler cartas, confidenciando-lhe muita coisa, o que, sem dúvida, despertou inveja e preocupação nos donos do poder na época, a tradicional família Sampaio, que havia assumido as rédeas da chefia política na crista da revolução de 30.
Curioso observar que Antero, na rota do seu destino, ao que tudo indica, conforme o aforismo popular, “escapou do espeto para cair na brasa”. Fugiu dos repressores de Campo Grande, para encontrar em Catalão, justamente os Sampaio que participaram ativamente contra a revolução paulista. Ah! Se soubessem eles que se tratava de um fugitivo participante da luta em Mato Grosso, tê-lo-iam entregue imediatamente às autoridades de lá, já que a anistia demorou um pouco a ser concedida.
Diógenes Dolival Sampaio era prefeito nomeado de Catalão e havia conduzido um grande contingente de civis às fronteiras de Minas com São Paulo, integrando o destacamento general Rabelo, em operações de guerra na região de Mato Grosso. Após a capitulação de São Paulo, chegou a assumir, numa atitude insólita, a chefia da Prefeitura de Ribeirão Preto abandonada por seu prefeito na tomada da cidade pelas forças comandadas pelo capitão João Jaques Massom.
Consta que no dia do embarque, na velha estação ferroviária de Goiandira, um jagunço seu, de nome Realino de Oliveira, conhecido por Charuto, apontou sua arma no pescoço do comandante da tropa, tenente Livertino Leão Sobrinho, quando este acabava de repreender rispidamente Olímpio de Araújo (meu pai, alistado voluntariamente) que reclamara do uso de gaiola de bois para a condução do pessoal. Eis que neste instante intervém Diógenes, à frente do oficial atônito e diz, quase gritando: “Tenente, este é o meu povo, que tem de viajar conosco como gente e não em gaiola de animais!”
A resistência contra São Paulo causou uma verdadeira guerra civil, com grande número de mortos. Vítima de bombardeio morreu o ipamerino Newton Boaventura e, na batalha do túnel da Mantiqueira, pereceu o goiandirense Belizário Ferreira Lima, ambos jovens soldados recrutas do 6º BC de Ipameri, deslocado para zona perigosa do conflito, no sul Minas.
Interessante que antes de o jovem jornalista ganhar notoriedade em Catalão, havia trabalhado como escrevente do Cartório do 2o Ofício, cujo titular Lourival Campos, ferrenho adversário dos Sampaio, foi destituído do ofício em decorrência de perseguição política, depois disso, Antero se viu praticamente escorraçado com a posse do novo escolhido.
As desavenças quanto à titularidade deste Cartório sempre foram uma pedra de tropeço nas relações entre Diógenes, os adversários e o próprio interventor do Estado, Pedro Ludovico Teixeira. Tudo indica que, pelo simples fato de Antero ter trabalhado lealmente ao lado de Lourival Campos, não era bem visto pelos Sampaio, embora, certa feita, o coronel Luiz, o tenha até elogiado, em virtude do bom atendimento na atividade farmacêutica.
No final do ano de 1935, houve eleição municipal e o major Anísio Gomides (major da guarda nacional) foi escolhido prefeito. Diógenes elegeu-se vereador, assumiu a presidência da Câmara e continuou como chefe político, à sombra do pai, coronel Luís Sampaio(coronel da guarda nacional) e com apoio do mano João Sampaio, que não tinha ambições políticas, contentava-se com a fama de ser o homem mais valente da cidade, por ter dado fim, impunemente, em 1924, ao valentão prefeito Salomão de Paiva, que, na sua bipolaridade esquizofrênica, mandava matar adversários e comparecia aos velórios. Ora se portava como cidadão educado e amigo dos pobres, ora saía embriagado pelas ruas, atirando nos postes da precária iluminação pública.
Catalão era assim: de vez em quando um valentão assumia o governo municipal. Elizeu da Cunha, participante do assassinato do senador Antônio Paranhos, depois de muito tempo foragido, conseguiu absolvição no júri popular e, com apoio do governo estadual instituído pelo golpe regional de 1909, se tornou prefeito. Seu filho Isaac da Cunha, para vingar a morte de uma amante, comandou o massacre de 9 ferroviários, inclusive duas crianças, no leito da implantação de trilhos. Crime que ficou impune.
Na fatídica tarde de 26 de maio de 1936, Albino Felipe do Nascimento, com 78 anos de idade, sem ter inimizade alguma e bastante benquisto, é covardemente atocaiado e morto, quando voltava para sua residência na zona rural, no lombo de uma mula. A cidade estava com seu juiz de direito licenciado e sem delegado. O último, capitão Francisco Ferraz de Lima, havia pedido exoneração, por não se amoldar às injunções políticas locais.
Após contatos com familiares do falecido e com o promotor de justiça, dr. João Augusto de Melo Rosa, o coronel Luiz Sampaio solicitou providências do sargento comandante do destacamento policial, e este resolveu prender João Albino, filho da vítima, considerando-o suspeito por ter estado com o pai na estrada, um pouco antes do crime, e porque andava contrariado com o falecido, em virtude deste ter manifestado o propósito de fazer um testamento beneficiando a segunda esposa e filhos (isso foi relatado ao coronel pela própria viúva do falecido).
Torturado barbaramente pelo truculento policial, os gritos de João Albino foram ouvidos por toda a vizinhança da cadeia. Recusou-se a confessar a autoria de um crime que não cometera, preferindo a própria morte a mentir ter assassinado o pai. Em face da repercussão negativa e graças à intervenção do amigo e compadre João Sampaio, foi posto em liberdade. Seu protetor era também compadre do falecido, mas a amizade estava estremecida, desde que lhe propôs comprar uma junta de bois, e o amigo, não interessado em vendê-la, pedira um preço exorbitante, o que foi considerado uma desfeita.
Nomeou-se o advogado Francelino Franklin Ferreira para o cargo de delegado e, segundo muito bem narra Luiz Righeto, começou então o zum-zum do disse que disse numa roda da alta sociedade local, onde a maledicência campeia e não faltou algum maledicente para dizer: “Se não foi João Albino, quem teria sido?” “Só pode ser alguém da intimidade da família.” “Dizem que o velho queria, com ajuda de Antero, fazer um testamento para dona Nem, sua segunda esposa.” “Quem sabe o Antero é amante dela e mandou matar o marido.” “E gente para isso ele tem – o mulato Chico Prateado, seu capataz.”
Tais mexericos – uma terrível calúnia que acabou chegando aos ouvidos dos Sampaio. Dona Nem, mulher singela, muito honesta, sem nenhum atrativo físico (era muito gorda), só sinhá amizade com Antero, seu compadre.
E, segundo Ivan Santana, na obra citada, Charuto teria dito a Diógenes, seu patrão, que o executor do crime era Theodorico Gomes, também conhecido por Francisco dos Reis, apelidado de Chico Prateado, um jovem mulato, esperto, trabalhador, fanfarrão, que veio de Minas com carta de recomendação ao coronel Luiz Sampaio assinada pelo tenente Augusto de Araújo (tenente da guarda nacional), dizendo tratar-se de um rapaz “bem mandado” e logo foi contratado para serviços rurais, e depois se tornou conhecido de Antero, de quem ficou amigo e serviçal para trabalhos de vaqueiro e também de entregador de remédios e de cobrador.
Em face das informações recebidas, Diógenes e seu pai encaminharam ao delegado uma nova direção para a atividade investigatória, mas este, reconhecendo a idoneidade de Antero, rebateu a suspeita e se recusou a processá-lo sem provas cabais.
Entretanto, para contentamento dos Sampaio, chega a Catalão o tão esperado delegado especial, tenente José Francisco Póvoa, com fama de violento desvendador dos mais intrincados casos e, não por uma ironia da sorte segundo o entendimento popular, mas por força de imperiosa contingência circunstancial, assume a direção do inquérito, disposto a transformar a mera suposição e vontade dos políticos locais dominantes em verdade e lei.
Não existe um destino implacável traçado à nossa revelia no trajeto existencial, mas uma implacável lei de cauda e efeito que se cumpre inexoravelmente. Ninguém renasce neste mundo com a missão de ser carrasco de quem quer que seja. Respeitado o livre arbítrio de cada um, ninguém é obrigado a se tornar instrumento para a prática de algo maléfico contra outrem, ainda que este seja endividado no âmbito da justiça divina, inclusive por mazelas de existências anteriores, e não tenha ainda resgatado seus débitos através da realização do amor que cobre uma multidão de pecados ou através do sofrimento. O praticante do mal não está livre das consequências de seus atos, pois “quem com ferro fere, com o ferro será ferido”.
Por ordem do novo xerife, Chico Prateado é preso, mantido incomunicável para desespero da pobre mãe, uma humilde lavadeira, e, depois de cruéis torturas, resolveu dizer que matou o fazendeiro a mando de Antero, e este, detido e seviciado pelo sargento nas cercanias da cidade, ao chegar à cadeia, já foi logo confirmando as declarações do seu companheiro de infortúnio.
Colhidas ambas as declarações, uma grande preocupação atormentava o delegado: arrancar dos acusados uma harmônica história com todos os detalhes, à guisa de motivação para a prática do crime e o pior é que agora, o promotor de Justiça, ciente da pública e notória violência reinante no meio policial, havia solicitado sua presença no desenrolar do inquérito. Foi uma boa atitude, mas o mais importante teria sido fazer constante inspeção na cadeia para verificar “in loco” a situação dos presos. Sua participação nos interrogatórios não passava de mero formalismo que jamais mudaria a ordem das coisas, já que os indiciados, sob o temor da repetição de novas torturas, não iriam modificar suas confissões, como de fato aconteceu.
Assim, realizou-se novo interrogatório com a presença do ilustre agente do Ministério Público e de duas testemunhas, e tudo ficou dito com as mínimas particularidades de uma história inventada para confirmar as declarações anteriores e, concluindo, no final, não ter havido coação alguma.
Consta que, na noite anterior, segundo relata Luiz Righeto, uma pessoa importante teria comparecido ao presídio e feito uma promessa a Chico Prateado, que seria posto em liberdade, caso mantivesse sua acusação contra Antero.
Como bem analisado pelo referido escritor, a peça policial, devido a várias incongruências, inclusive com relação ao laudo médico, foi um amontoado de situações inverossímeis, que compromete sua validade jurídica. O suposto executor do homicídio, tido como hábil pistoleiro, afirmou que teria ficado de tocaia numa moita, à beira da estrada, e mirou o pé do ouvido da vítima, mas a bala acabou atingindo-lhe a nuca. Ora, se isso fosse verdade, ele teria que ter saído da toca e atirado por trás, mas, realmente, segundo o laudo, o tiro foi disparado pela frente e o projetil, resvalando na orelha, atingiu de raspão a parte lateral da região occipital, momento em que a vítima caiu com o movimento brusco do animal assustado e, já no solo, foi ferida mortalmente por outro projetil que lhe varou o coração.
Feita a juntada das declarações e ouvidas algumas testemunhas, decretada a prisão preventiva dos indiciados, veio, finalmente, o faccioso relatório do delegado, alegando fato jamais apurado no inquérito, segundo o qual Antero teria mandado matar a vítima, para apoderar-se de seus bens.
Familiares e amigos do falecido, tentaram invadir a cadeia e executar os acusados. Estes, porém, foram livrados pelos Sampaio. Depois disso, sentindo-se inseguro, Antero chegou a pedir audiência com o juiz em exercício, Álvaro Cunha Ferreira Filho, para esclarecer toda a verdade, mas, lamentavelmente, não foi atendido, o que demonstra a precariedade da justiça entregue a um juiz leigo, que, insensível e descompromissado com os deveres de um correto homem da lei, substituía o magistrado titular.
Na noite do dia 14 de agosto de 1936 (sexta-feira), sem nenhuma dificuldade, a cela já estava até com cadeado destrancado, Chico Prateado ficou livre da prisão e se viu conduzido por dois cavaleiros às divisas com Minas, no rio Paranaíba, de onde seguiu sua viagem. Era o cumprimento da promessa de liberdade, em troca da acusação a Antero, e quem sabe houve até ajuda dos meus parentes, os Araújo de Araguari, useiros e vezeiros em livrar amigos da prisão.
Enquanto isso, Antero pensava porque não o levaram juntamente com Chico Prateado, já que o cadeado de sua cela amanhecera destrancado. Compreendeu então que, agora, iriam matá-lo antes que o juiz de direito titular assumisse a comarca e chegasse à cidade para tirá-lo da cadeia o advogado Paulo Alamy (celebre defensor dos irmãos Naves de Araguari, condenados pelo tribunal mineiro por prática de um crime que não existiu).
Chegou a escrever uma carta para sua mãe, em Campo Grande, dizendo que, quando ela a estivesse lendo, ele já teria morrido. E não deu outra: nas primeiras horas da noite do dia 16 de agosto, amigos e familiares de Albino Felipe, inclusive seu neto Almiro, revoltados não só com a morte deste, mas sobretudo com as torturas sofridas por João Albino, cuja prisão, segundo boatos e insinuação do tendencioso relatório do delegado no inquérito, teria acontecido por culpa de Antero, resolveram liquidá-lo da forma mais brutal possível, e agora poderiam contar com a participação de João Sampaio e jagunços deste, o qual odiava Antero, por ter, certa feita, socorrido sua amásia Santinha, acometida de crise renal, o que despertara nele um terrível e injustificável ciúme.
Sem resistência alguma do destacamento policial, arrancaram o indefeso prisioneiro da cela, ataram-lhe as mãos e entre elas passaram uma corda e saíram puxando-o pela via pública, todos fortemente armados, uns a pé e outros montados em animais. Não davam a menor atenção aos seus apelos, em nome de Deus, jurando sua inocência. Ora lhe davam ponta-pés e bofetões para que se mantivesse calado, ora o feriam com punhais afiados. A infeliz vítima caía, às vezes, e logo era levantado, para que prosseguisse a caminhada e, assim, numa “via crucis” mais atroz do que a de Jesus rumo ao calvário, ia aos poucos, sendo massacrado pela turba sanguinária de cerca de 30 homens, muitos dos quais haviam por ele sido beneficiados.
Ao suplício não faltou nem mesmo uma coroa de arame farpado em sua cabeça, que vez ou outra recebia aperto através de uma torquês, para lembrar o torniquete usado pelos policiais durante a prisão de João Albino.
O séquito macabro passa na frente da casa do prefeito, próxima à ponte do ribeirão Piratininga e aquela autoridade, tão beneficiada por favores dele, se nada fez antes, àquela altura nada poderia fazer, tal como o juiz omisso, o promotor meramente formalista, o policiamento comprometido com os chefões políticos nas rédeas do poder e porque não dizer o próprio povo amigo e amedrontado, do qual apenas se viu um pequeno gesto de socorro, quando o comerciante Sebastião Caiado e sua esposa pediram clemência aos algozes na porta da cadeia.
Finalmente, o grupo, alcança a Rua da Grota e aí, Antero, já com a voz combalida, chama por João Albino, dizendo que desejava lhe revelar um segredo e que dentro de 4 meses todos iriam saber quem era o verdadeiro culpado da morte do compadre. Nesse instante, ouve-se alguém dizer: “Que segredo que nada, acabem cm este bandido” e, logo em seguida, João Pescador, jagunço de João Sampaio, com habilidade que só os criminosos profissionais têm, disfere o golpe fatal pelas costas, com uma faca de 40 centímetros de lâmina, que lhe atravessa as costelas, atingindo o coração do mártir que cai morto, enquanto o bando se dispersa, em algazarra, bebendo cachaça e dando tiros para cima: estava consumada a suposta vingança.
Seu corpo ficou ali até que aparecesse a leal companheira Amélia Nazar, acompanhada do primeiro patrão de Antero, senhor João Farid, para recolhê-lo. Como jornalista e pessoa culta, tornou-se conhecedor de muita coisa e por isso talvez tenha sido eliminado (queima de arquivo), conforme admite Cornélio Ramos. E assim, o mistério que envolve a morte de Albino Felipe caiu no buraco negro da história. Os processos do assassinato do fazendeiro e o do massacre de Antero sumiram dos cartórios.
Interessante é que o derramamento de sangue de Antero parece ter lavado os ares nevoentos da violência em Catalão, colocando fim no rosário de tenebrosos crimes que mancharam sua história desde os tempos do Império e sobretudo com o advento da República.
Após o seu martírio, praticamente se romperam os laços entre Diógenes e o então interventor em Goiás, Pedro Ludovico Teixeira. Veio para a prefeitura o tenente Públio de Sousa e uma nova era de paz começou, somente abalada tempos depois em 1953, com a morte do jornalista Antônio Barbosa, por vingança de um policial, durante a repressão contra o movimento comunista, quando era prefeito Ciro Neto e governador Pedro Ludovico. Em Catalão sempre houve atritos contra jornalistas. Moisés Santana fundou ali, em 1917, o jornal “Sul de Goiás”, que logo cessou suas atividades, e, na última edição ficou escrito que a liberdade de imprensa nunca fora respeitada, “desde os domínios do cel. Roque, ao violento mandonismo dos Paranhos até as atrocidades de Eliseu da Cunha”. Zoroastro Artiaga editou, a partir de 1926, o jornal “Novo Horizonte”, que foi criminosamente empastelado, e certa feita afirmou o seguinte: “Catalão, cidade sem lei, sitiada pelo medo e pelos Sampaio”.
Aliás, não só em Catalão, mas em todo o Estado, mesmo depois da era dos Bulhões e dos Caiado, sobretudo nos tempos de Pedro Ludovico, atentados e assassinatos contra jornalistas, com mandantes impunes, sempre aconteceram, haja vista a morte de Egerineu Teixeira em Orizona, editor do jornal “A Roça”; a de Haroldo Gurgel, em Goiânia(1953), repórter de “O Momento”, dirigido pelos irmãos João e Antônio Carneiro Vaz, que foram baleados, e, finalmente, o muito discutível acidente de trânsito em Goiânia(janeiro de 1945) que vitimou José Ayube, dirigente do combativo “Estado de Goiás”, fundado em Pires do Rio e transferido para Uberlândia- MG, por falta de clima de segurança em terras goianas.
Antero é patrono de uma das cadeiras da Academia de Letras de Catalão. Seu nome denomina uma importante instituição de abrigo na cidade e seu espírito é considerado como luminar protetor de Catalão. A maior prova de sua inocência está nos versos do majestoso soneto alexandrino (12 sílabas), publicado pela revista manchete, anos 60, que nos legou através da psicografia de Francisco Cândido Xavier, onde admite ter sido criminoso no passado de outra existência.
REDENÇÃO
Acusado sem culpa ante a calúnia infrene,
Explico-me a chorar, no entanto é assim que eu morro…
“Deus! Ampara-me, ó Deus!” – exoro por socorro,
Sem que a força do Céu me responda ou me acene.
N’alma, remorso algum… nada que me condene…
Nas raias da agonia, em pranto jorro a jorro,
A bênção da oração é o teto a que me recorro,
A render-me, sem mágoa, ao minuto solene.
Mas quando o corpo tomba exânime, cansado,
Vejo-me, austero algoz, a rugir no passado,
Em vômitos de lama e cólera assassina…
O lobo então que eu fora, o suplício desterra!
Glória à reencarnação! Glória às dores da Terra,
Em que se cumpre a Lei da Justiça Divina.
(Vivaldo J. de Araújo, ex-professor de História e Língua Portuguesa do Lyceu de Goiânia, escritor e agente aposentado do Ministério Público do Estado de Goiás)