Brasil

A história particular do Homo sapiens

Redação DM

Publicado em 15 de novembro de 2016 às 00:37 | Atualizado há 10 anos

Os seres humanos se interessam naturalmente pelas suas origens, e cada cultura concebeu suas próprias lendas para explicá-las. A maior parte está centrada na figura de um criador sobrenatural, e aceitá-la é inteiramente uma questão de fé. A ciência, no entanto, produziu um tipo diferente de narrativa, a que se pode ser testada e até mesmo rejeitada, como provas encontradas no próprio solo ou, cada vez mais, com evidências presentes no próprio genoma humano.

O estudo das origens do ser humano moderno não é algo recente, e também não é assunto exclusivo de cientistas, já que esse é um dos temas mais importantes em praticamente todas as tradições religiosas. Considerando a cultura ocidental européia, até o final do século XVIII esse tema era de posse de teólogos, padres e sacerdotes, principalmente das religiões cristãs. Essas tradições assumem que nossa espécie foi criada (assim como as outras) por uma divindade, e não existe relação de parentesco entre as espécies. Foi dessa forma que a origem de nossa espécie foi explicada por centenas de anos.

Essa visão foi duramente desafiada quando Charles Darwin publicou o seu livro “A Origem das Espécies”, no qual ele propunha uma ideia que já andava vagando na mente dos pesquisadores desde o século XVIII, de que as espécies evoluíam no tempo, de que elas se relacionavam umas com as outras. Outra ideia proposta foi o mecanismo pelo qual essas espécies evoluíam, a seleção natural. Com essas idéias em mente e olhando para as evidências, ou seja, os fósseis, uma nova visão da origem dos seres humanos foi sendo construída.

A história particular do Homo sapiens começou há aproximadamente 200 mil anos, provavelmente em algum lugar do nordeste da África. Nossa espécie, apenas mais uma em meio a diversas espécies de hominídeos presentes na África e nos demais continentes nessa época, não era tão diferente das demais. Por cerca de algumas dezenas de milhares de anos, nossos antepassados, apesar de se parecerem fisicamente conosco, permaneceram na África sem exibir qualquer traço comportamental que hoje associamos exclusivamente à nossa espécie. A partir de 100 mil anos atrás, nossa história evolutiva passou a ficar mais complexa. Nossa espécie começou, então, a sua grande dispersão dentro e fora do continente africano.

Para entender nossas origens, de qual espécies somos derivados, diversos achados fósseis espalhados pelo mundo são avaliados, definindo quais são as características físicas que são exclusivas da nossa espécie. Então, com base nessas nossas características  únicas, comparações com outros hominídeos são feitas e, assim, podemos inferir nossas relações de parentesco com as demais espécies que nos antecederam.

No final do século XIX  início do século XX diversos foram os sítios que apresentaram a possibilidade de exumação de fósseis humanos, e esses eram frequentemente encontrados associados a ossos de outros animais e ainda a diversos artefatos. Esses sítios podem ser encontrados por toda a Europa, com datações que hoje indicam que o continente  europeu já era habitado por seres humanos modernos há aproximadamente 35 mil anos. Claro que, a medida que novos fósseis são encontrados, nossos modelos teóricos tornam-se sempre mais precisos, aproximando-nos paulatinamente da história real, como ocorre em qualquer área do conhecimento cientifico.

A partir da década de 1970, ficou bastante claro para nós que, tendo em vista as características físicas e comportamentais do Homo sapiens e de seus parentes mais próximos ainda existentes, os grandes símios da África, sobretudo o chimpanzé, nossa saga evolutiva descortinou-se na seguinte sequência (imaginando como ancestral um animal muito similar ao chimpanzé de hoje): fixação da bipedia, fabricação de ferramentas de pedra, consumo expressivo de proteína animal, desenvolvimento de cérebro grande e complexo, fixação da capacidade de significação no cérebro, revolução criativa e tecnológica e ocupação de todo o planeta.

Não é menos verdade, porém, que muita coisa ainda precisamos aprender sobre os detalhes desse processo e de como e por que viemos a ser o que somos.

Décadas de pesquisas em campo e em laboratório ainda serão necessárias para que a comunidade científica possa disponibilizar para todo o mundo, dentro e fora da academia, um quadro detalhado do que ocorreu conosco e com nossos ancestrais nos últimos sete milhões de anos, quando nossa linhagem evolutiva se separou do ancestral comum que compartilhamos com os chimpanzés.

 

(Gutierry de Souza Correia dos Santos, graduando em Ciências Biológicas (Faculdade Araguaia – Fara), membro da Liga Humanista Secular do Brasil – LiHS)

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