Brasil

A humanização animal e a desumanização humana

Redação DM

Publicado em 9 de setembro de 2016 às 01:53 | Atualizado há 10 anos

Pode-se afirmar que, se entre cada duas pessoas houvesse um animal e uma planta, o homem seria mais humano. E se entre uma planta e um animal houvesse um ser humano melhor, o mundo seria mais feliz. À medida que foi se afastando da natureza, o ser humano passou a sofrer perdas de sua humanidade que o levaram a buscar compensações como que para recuperar o sentimento de que todos os viventes fazem parte do existente em conjunto.

 

TRÊS REINOS

Não há como viver plenamente no mundo natural sem a integração dos três reinos, mineral, vegetal e animal. Do reino mineral vem a força mecânica. Do reino animal vem a força orgânica. Da força orgânica surge a vitalidade animada por uma inteligência instintiva. O ser humano quis destacar-se dos demais viventes desenvolvendo uma inteligência mecanicista, mas esquecendo-se de que é parte de um todo univérsico que só se apreende com a inteligência holística.

 

TODO E PARTE

Na medida em que o ser humano quis impor a tecnologia como transformação da natureza, foi perdendo gradativamente a percepção de si mesmo e do mundo imaterial que o liga ao mundo espiritual. Ora, se o  homem se destaca entre os entes da  natureza pela elevação da consciência, deve também ter a consciência do todo que o cerca, em que todas as criações naturais se harmonizam em suas funções específicas.

 

TRANSGRESSÃO

Os animais seguem a rigor as leis naturais e evoluem em função dos seres humanos, como seus servidores inteligentes. Os animais têm inteligência instintiva, assim como  têm alma rudimentar, só não têm consciência do seu eu e não possuem livre arbítrio, por isso não sabem agir por escolha. Agem por reflexos condicionados e não são dotados de princípios intelectuais ou morais. Se os tivessem, certamente não os transgrediriam como fazem os humanos. Só o ser humano, por estranho que pareça, transgride as leis da natureza.

 

OBJECTUALIZAÇÃO

Ao contato com os humanos, os animais foram assimilando suas características, que parecem comuns também ao reino animal. Em função de sua domesticação, os animais foram-se humanizando, enquanto  os humanos foram-se desumanizando pela relação com a máquina e seu afastamento do mundo natural.  Ficaram objectualizados e se esqueceram de si mesmos como seres emocionais. Daí  aumentaram  suas carências ligadas à suas querências, não supridas pelas essências esvaziadas de suas consciências.

 

HUMANIZAÇÃO

Não se pense em separar o ser humano dos animais domésticos, que lhe servem inclusive de companhia nos casos de abandono e solidão ou até mesmo de terapia emocional, como já vêm sendo utilizados pela medicina convencional. Os animais sempre estiveram presentes na história do ser humano. Desde a arca de Noé até o presépio do Menino-Deus. Desde os cervos palacianos como adereço de madames, até as funções utilitárias nos redutos familiares, como é o caso da cachorra Baleia humanizada por Graciliano Ramos em Vidas Secas, na saga dos retirantes nordestinos.

 

DESUMANIZAÇÃO

Hoje é difícil ser gente, criar gente, educar gente, confiar em gente. Então os  humanos procuram compensar-se nos animais domésticos – principalmente cães e gatos-  que se tornaram seus parceiros inseparáveis na senda da vida marcada pela solidão existencial. Os animais são dotados do instinto de imitação, sabem imitar uns aos outros e logo aprendem a imitar os humanos. Mas os seres humanos não devem reduzir-se à condição animal para servir-se de seus instintos e até mesmo satisfazer-se em suas necessidades (ficam os exemplos por conta da imaginação dos leitores).

 

DAS DOENÇAS

Em matéria assinada pela jornalista Calipso Careline no DM de 4-9-2016, p. 5, consta que profissionais da saúde alertam para o risco da incidência de doenças de animais, transmitidas por contaminação aos seus conviventes humanos. Doenças  transmitidas pelo gato: toxoplasmose, alergia respiratória, micose de pele, esporotricose e ancilostomíase. Entre doenças transmitidas pelo cachorro, estão a micose, leptospirose e ancilostomose, que requerem atenção redobrada com relação aos animais criados em casa. Pesquisa sugere também correlação entre gatos e esquizofrenia, adverte a jornalista.

 

EVOLUÇÃO

O crescimento do ser humano se dá na proporção em que ele se afasta de sua natureza animal. Não significa afastar-se dos animais, mas libertar-se da influência dos instintos, ligando-se à dimensão espiritual que o eleva acima das demais espécies. Não se pense em metempsicose, acreditando- se que o espírito humano se encarne num animal ou vice-versa.  Não se transfere a essência íntima de uma espécie para outra. Nem se acredite que a aparente docilidade animal satisfaça à psiquê humana, como nos casos de zoofilia. Ao buscarmos nossa humanização no animal, estamos nos desumanizando. Eis uma inversão da ordem natural criada por Deus.

 

(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa. E-mail: [email protected])

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