Brasil

A maldição da Canabrava

Redação DM

Publicado em 12 de novembro de 2015 às 21:56 | Atualizado há 11 anos

Todo mundo tem verdadeiro pavor de praga rogada, embora não se saiba, ao certo, se existe fundamento no resultado de tais imprecações.  Diz o povo que praga de mãe pega, e se for rogada em cima do filho com vontade mesmo, este carrega essa maldição até o fim da vida. Vai para a cova com o pavoroso anátema.

No respeitante a praga de mãe, existe o exemplo do folclórico Romãozinho, que, segundo a lenda, fora incumbido pela mãe de levar ao pai, na roça, uma gamela de comida, como é costume no sertão. No caminho, o menino comeu o de comer, e, chegando de mãos vazias, disse ao pai que a mãe não lhe mandara comida porque estava era senvergonhando com outro homem.  Explodindo de raiva, o pai foi para casa e castigou a inocente mulher de tal forma que lhe provocou a morte, enquanto Romãozinho dava gaitadas. Antes de morrer, a mãe amaldiçoou o filho, que, a partir de então, passou a vagar pelo mundo, com o espírito do Capeta encarnado, caçando jeito de atentar o povo, através de diabruras, como jogar pedras no telhado, soltar animais do ceveiro, cuspir nas panelas, mijar nos potes, não sem fazer acompanhar essas coisas com ruídos medonhos e apavorantes. É uma das versões que conheço. Mas há outras.

A menos de légua lá do Duro, existe um lugar por nome Boa Esperança, que – dizem os antigos – era domínio do Romãozinho, que quase matou de fome uma velha que ali vivia, de tanto jogar porqueiras nas panelas e nos potes. As latumias só acabaram quando Boa Esperança foi benzida.

Nos meus tempos de menino, vez por outra eu escutava histórias de patacoadas que cheiravam a coisas do Romãozinho.

Muitos causos de conseqüência de praga de mãe enriquecem o folclore de muitos lugares.

Há muitos anos, passando por Barreiras, na Bahia, para visitar minha irmã Regininha, o meu cunhado Oswaldo, que andava sempre viajando, mercê de sua atividade de comerciante, e contou-me um caso que estava em evidência por lá, e que, de certa forma, está vinculado a esse negócio de praga de mãe.

Contou-me ele que num lugar por nome Canabrava, naquela re-gião mesmo, havia uma senhora muito disposta chamada dona Sinhá, que fazia tudo quanto era serviço, inclusive labutava no curral, tirando leite das vacas. Lá pelo ano de 46, dona Sinhá – que viveu até há pouco tempo, segundo se conta – desleitava uma vaca e estava nervosa por uma razão qualquer. E naquela labuta, chegou um de seus filhos, que não tinha mais de seis ou sete anos, e começou importuná-la com uma daquelas birras de menino. De cabeça quente, sem dúvida porque a vaca estava lhe dando trabalho, dona Sinhá bradou:

– Ora, vá pro inferno, você e essa vaca!

Quando acabou de tirar o leite, ela procurou o menino em tudo quanto foi lugar possível, mas não o encontrou. Deram notícia de seu rastro, junto com o da vaca, numa das estradas, mas não se soube mais de notícia nem do menino nem da vaca. Para inteirar as medidas, destampou um pé-d’água medonho na região, chovendo ininterruptamente durante mais de 10 dias, enchendo as grotas, apagando vestígios e impedindo a monstruosa busca empreendida pelos moradores das rodeanças.

Frouxaram de mão. Foi a derradeira graça: nem o menino nem a vaca apareceram mais, até quando tive notícias de lá.

E tempos atrás, o povo da região de Canabrava noticiava com certo pavor o aparecimento de um homem todo cabeludo que surgia nas matas que rodeiam a Canabrava, inclusive para pessoas que conhecem com detalhes a misterioso caso do menino e da vaca.

Testemunhas oculares estão crentes de que – pela aparente idade do desconhecido – só pode ser o filho de dona Sinhá.

Se há um mistério no desaparecimento de uma pessoa, que parece até ter virado alcanfor, ouvi da boca de uma tia de um outro desaparecido o intrigante reaparecimento de um menino de menos de cinco anos, que passou 10 dias no mato e foi encontrado a quase três léguas da casa. Chamava-se Rubinho e pertencia à tradicional família Guedes e em janeiro de 82 sumiu misteriosamente do terreiro de casa. O sertão estava alagado e durante mais de semana caiu água no município de Conceição do Tocantins, dificultando as buscas incessantes que mobilizaram parentes e conhecidos. No fim de dez dias (a mãe já tinha botado o menino na conta de morto, pois cobra, onça e enchente era o que havia), quando desconhecidos, passando por umas várzeas a quase três léguas, em lugar oposto ao das buscas, encontraram o menino chorando. O bichinho já era ladinozinho, que soube dizer onde morava, e os homens foram levá-lo aos pais, que quase deram um treco, de tanta alegria.

Refeitos da angustiante situação, apressaram-se em indagar ao menino como sumira e como sobrevivera no meio de tantos perigos. Ele, com seu curto vocabulário, explicou que saíra atrás de uma porca parida para brincar com os leitõezinhos e se perdera, sovertendo no mundo. Todas as noites, a madrinha dele colocava-o em cima de um pau para não ser comido por bicho do mato.

Não me lembro mais é como ele conseguiu se alimentar, pois consta que voltou com visíveis vestígios de desnutrição, só pele e ossos. A madrinha eu não soube decifrar. Mas estou indo atrás de gente que sabe da história e em breve conto esse causo aqui.

 

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO,  membro-fundador da Academia Tocantinense  de Letras, escritor, jurista, historiador e advogado – [email protected])

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