Brasil

A mão do destino

Redação DM

Publicado em 8 de outubro de 2016 às 02:56 | Atualizado há 10 anos

Há uma misteriosa mão do destino no encontro e no reencontro das pessoas. Quem nunca foi surpreendido ao dar de cara com uma pessoa com a qual pensara minutos antes? A cultura popular diz que quando isso acontece é sinal de vida longa ao outro.

Cada encontro tem uma margem de mistérios e segredos. Às vezes encontro pessoas amigas nas ruas de Goiânia e, até, em terras distantes. Nos saguões dos aeroportos é comum a gente sentar ao lado de pessoas conhecidas, mas concentrada em ler e enviar mensagens, nem dão atenção ao vizinho. Noutro dia, de volta para casa, sentei-me no banco do meio de um avião lotado de gente. Os colegas dos lados pareciam mudos; ninguém falava nada. Quebrei o silêncio dizendo coisas triviais tipo: “O tempo está fechado”. Ninguém respondeu. Dá uma agonia de pescador de piau arisco e imprevisível. Desconfiei que estivesse sendo inoportuno.

Também percebo na magia no silêncio, certo descaso com o outro. Sou um compenetrado observador do comportamento humano. Por cima das poltronas vejo carecas reluzentes e cabeleireiras variegadas. Mesmo com os ouvidos entorpecidos pela subida vertiginosa e o contínuo ruído das turbinas do avião, continuo de olhos atentos ao jeito das pessoas. Como é agradável ver a bonita morena de pernadas cruzadas, sentada na terceira ou quarta fila à frente. Ajeita os cabelos e olha em volta. Aconchega-se e parece ocupada apenas com a paisagem vista da janelinha do avião. Cada qual com seu segredo.

Quem são todas essas pessoas? De onde vêm? Estão chegando ou voltando para casa? Qual seria o motivo da sua viagem? Tento adivinhar, desisto desta quimera. Talvez nunca mais veja essas pessoas, mas guardo lembranças e experiências das minhas viagens. Umas boas e divertidas, outras com pessoas estressadas ou caladas. O comandante da aeronave anuncia o tempo em Goiânia e nos deseja feliz voo. Logo depois, quando o avião atingiu o seu nível de voo cruzeiro, avistei uma senhora de mais setenta anos, cabelos brancos em coque. Segurava entre os dedos um terço branco. Tinha uma aparência sofrida, mas de semblante terno como o de mãe. Acompanhei-a com o olhar enquanto seus lábios se moviam, quem sabe numa prece silenciosa. Quem será aquela mulher? Por quem está orando?

Uma hora mais tarde, em solo, numa curva da esteira de bagagens, lá estava ela com um lenço a enxugar furtivas lágrimas. Desviei o olhar. Ao perceber minha curiosidade se aproximou de mim e me disse que chorava de alegria. Passados quase trinta anos iria rever o filho que fora sequestrado pelo pai ainda criança e só agora, com a morte do pai, foi possível localizar o filho. Mas, disse: “Estou apreensiva com o reencontro.” Agradeci por ter me contado o motivo da sua viagem. Desejei-lhe felicidades no reencontro com o filho.

Pegou sua mala e, resoluta, saiu empurrando um carrinho de aeroporto. Vi-a atravessar a porta de vidro que dá acesso à sala de desembarque. Ao sair da sala de desembarque avistei a senhorinha, de joelhos, abraçada ao filho numa cadeira de rodas. Em volta deles estavam duas crianças de uns dez anos. O destino formara uma nova família.

 

(Doracino Naves, jornalista; apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, PUC TV, sábado, 12h30. Reprise, domingo, 20h)

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