Brasil

A missa na ponte do Rio Grande

Redação DM

Publicado em 8 de julho de 2016 às 02:26 | Atualizado há 10 anos

Antes da invasão de Igarapava o povo comprou todos os tecidos de cor vermelha. É que iria ser celebrada uma missa solene na ponte do rio Grande e quem fosse teria que ter um lenço vermelho ao pescoço, distintivo dos “revoltosos”.

Um enorme comboio da Mogyana, puxado e empurrado por duas locomotivas, partiu de Ribeirão Preto com destino a estação Coronel Quito, nas Usinas Junqueira, trazendo o Bispo da Diocese, padres e “revoltosos”, pelo itinerário: Jardinópolis, Orlândia, São Joaquim da Barra, Guará, Ituverava, Aramina e Igarapava. Quem possuía condução acompanhou o trem, dando vivas a São Paulo, tremulando bandeirinhas-paulista, confraternizando com os passageiros aboletados nos vagões. Também, muita gente de bicicletas e a-pé, que a distância era de apenas uma légua.

Nós fomos com o tio Pedro no caminhão da serraria. Para nós, meninos, não poderia haver nada melhor do que aquele inesperado passeio proporcionado pela Revolução!

Assim que a composição férrea margeou o rio, os passageiros avistando o chão mineiro com muita gente de lá, abriu-se em vaias.

Os aparatos para o evento, vindos da Prelazia de Ribeirão Preto, foram riquíssimos. As bandeiras brasileira e paulista tremulando juntas, imponentes ao vento, inspiraram um patriotismo de doer o peito.

O Bispo celebraria a Missa auxiliado por padres e senhoras devotas. Mais de 10.000 fiéis comungando pela causa da Revolução Constitucionalista de 1932, a “Guerra Paulista”, eclodida no dia 9 de julho.

As forças do outro lado do rio Grande ficaram vigilantes, não estavam entendendo o que seria aquilo, um aparato de guerra, decerto.

A Banda do Quinzinho ataca o Hino Nacional Brasileiro acompanhado por vozes harmoniosas, eloquentes, entusiásticas da multidão, de um lado e de outro, somente desentoando pelo vento, que a margem mineira se repletara de soldados, civis e gente de Delta, cidadezinha na barranca do rio. O corneteiro de lá vai dando uns trinados, tentando acompanhar a cantoria e a música, uma coisa de trazer lágrimas aos olhos. É o povo brasileiro irmanado, vibrando de entusiasmo por um Brasil que está se dividindo, seus filhos se matando como selvagens e não como irmãos.

De lá, as armas, acintosamente expostas, brilham ao sol da manhã de domingo, fuzis, canhões e metralhadoras. Do lado de cá brilham o Cálice e a Patena, assim como nos olhos do povo  brilha o entusiasmo, a fé e a esperança.

A clarineta-requinta do Quinzinho soa mais alto puxando os outros instrumentos e vozes, no ouviramdoipiranga… Os hinos sacros mais comuns são ouvidos, mesmo desentoados: “Queremos Deus, ó povo ingrato…”, “Ave, ave, Ave Maria…”Divina Luz…”

Somente pelas três horas da tarde terminou a comunhão distribuída para tanta gente. Assim que a cerimônia religiosa se encerrou com as palavras do Bispo enaltecendo São Paulo: “Viva São Paulo!”, “Confiamos em Deus que a vitória será nossa!”, as pessoas começaram a agitar os lenços, gritando, com excesso de entusiasmo! “Viva São Paulo!”, “Como é bom ser paulista!”, “Viva o povo brasileiro!”, “São Paulo vence e vencerá!”

Ninguém imaginava, não adivinhava o que iria acontecer dias depois, a maior carnificina sobre uma ponte brasileira. É o fim do tradicional acordo Café com Leite. Só ela, a ponte, os canaviais infindáveis das Usinas Junqueira (onde nasci) e os soldados de ambos os lados, seriam as testemunhas daquela hedionda estupidez humana!

Do lado mineiro, 7 canhões (75 mm), 14 metralhadoras pesadas e 2.000 soldados armados com fuzis 1908, comandados pelo Coronel (depois general)  Rabelo. Do lado paulista, 67 voluntários com fuzis e apenas um fuzil-metralhadora de 30 tiros por minuto.

A grande ponte de arcos de aço vindos da Alemanha, em 1914, no início da Primeira Grande Guerra Mundial, estava trançada de arame farpado. Nem gato passaria.

O que se ouvia falar em Igarapava era que “os mineiros” iriam invadir, deflorar as moças, espetar as crianças nas baionetas, incendiar a cidade… A nossa rua, saída rumo à caixa-d’água, virou romaria com pessoas de trouxas nas cabeça, e até a nossa família se refugiou na Fazenda Ressaca, do Sr. Américo Moreira, amigo e freguês do meu avô Fioravante, dono da Serraria Bariani. Ele o meu pai ficaram vigiando a serraria. Pra espiar fizeram um buraco com o arco de pua na porta.

Poucos dias após a Santa Missa celebrada na ponte, uma granada lançada da Serrinha, em Delta, matou 8 estudantes de medicina instalados e “protegidos” no primeiro pilar da ponte. Soldados mineiros com alicates e tesouras-funileras vieram cortando os arames e assim que a ponte se encheu de combatentes, os  apenas dezenas de paulistas comandados por um sargento da Polícia Militar, acionaram as armas e se meteram pelos imensos canaviais, rumo à estrada-de-ferro, onde o trem os esperava.

Nada aconteceu do que se propagou. Houve a invasão na mais perfeita ordem. O meu avô, muito “jeitoso”, com dois filhos paulistas e oito mineiros, ficou amigo de “abraços” do Coronel Rabelo, e o meu pai, carpinteiro e cozinheiro, confeccionou 8 engradados de um metro cúbico cada, para abrigar as fardas dos soldados mortos na ponte. Desvestidos e de ventres abertos eram jogados ao rio. O meu tio Júlio Gomes, pai do Horieste, pescador, levava sempre um espécime, dourado ou piracanjuba para a minha avó, sua sogra, Maria D’Alloca Bariani, mas depois do acontecido ela jamais aceitou um só peixe.

N.B – Vou parar por aqui, que a história completa está no livro A FRONTEIRA, premiado pela Academia Paulistana da História e pelo Ministério das Comunicações – Correios e Telégrafos).

 

(Bariani Ortencio – ([email protected]))

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