Brasil

A moldura das ausências

Redação DM

Publicado em 15 de outubro de 2016 às 02:50 | Atualizado há 10 anos

A notícia que ainda repercute é a morte do psiquiatra Flávio Gikovate. Li a notícia no Portal Raízes onde foram publicados vários artigos interessantes sobre o trabalho do famoso psicoterapeuta brasileiro que faleceu aos 73 anos. Por isso falo sobre os sintomas do “coração vazio” que somos acometidos ao ver partir os amigos, parentes, filhos e pais que somem do nosso álbum de figurinhas preferidas.

A primeira vez que a morte me impactou foi em Palmelo, quando morreu um amigo de infância que tinha uma doença congênita. Depois a morte da minha avó paterna Arlinda com quem eu, ainda criança, esquentava bolachas caseiras na chapa do fogão à lenha. Lembro-me também quando partiu deste nosso mundo o meu avô materno Cláudio que tinha a serenidade-símbolo de todos os avôs do mundo. Eu gostava muito do seu jeito de vovô carinhoso com seu olhar de pura bondade. Procuro ser com meus netos o que o meu avô Cláudio representa para mim.

Com o passar dos anos as figuras queridas da minha coleção desaparecem suavemente como bolhas de sabão. A gente percebe e o coração sente a inexorável partida das pessoas queridas. Amigos, muitos deles… Irmãos… Filha… Pai… Todos eles deixaram apenas uma moldura de ausências que, às vezes, preencho com seus exemplos o espaço vazio na caixinha em que as figurinhas escolhidas pelo coração desaparecem.

Meu mundo fica menor a cada dia com ausências de pessoas queridas. Mas, o mundo da minha geração era pequeno, onde tudo fora proibido. Até pensar na morte era um tabu que somente foi desfeito com a concepção espiritualista da reencarnação; a morte não é o fim. Nesta filosofia do espírito que prevalece sobre a matéria, a alegoria avalia que a morte é treva visível.

Vou fazer neste parágrafo o oposto do que disse o escritor Ignácio de Loyola Brandão. Uso da antítese como argumento da sua metáfora. A morte é fundamental, ser espírito, despido de vaidades. Arrancar de dentro sentimentos e construir caminhos de felicidade. Vencer as limitações humanas. Comover-se com o choro, a dor do outro. A dor do outro também é nossa, mas quando ela penetrar em você ajude o outro a se libertar.

Os sentimentos humanos não podem se derreter como uma geleia. Noutro dia, uma pessoa simples de que me tornei amigo me perguntou por que escrevo crônicas para o jornal. Já que mencionou Loyola Brandão vou usar um pensamento dele sobre essa arte estranha de bisbilhotice: “Escrevo para não ser solitário e por amor aos outros; se você não tiver essa solidariedade, é bobagem escrever.”

São 11h25 de sexta-feira. Penso em terminar esta crônica semanal. A amada Clara diz que o almoço está pronto. Ordens são ordens! Mais uma ideia para terminar esta crônica que começou falando sobre a morte do psiquiatra Flávio Gikovate:

É na velhice que o álbum de figurinhas desaparece.

 

(Doracino Naves, jornalista; apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, PUC TV, sábado, 12h30. Reprise, domingo, 20h)

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