Brasil

A narceja, o mexilhão e o pescador

Redação DM

Publicado em 21 de setembro de 2016 às 02:04 | Atualizado há 10 anos

“Quando a narceja e o mexilhão brigam, quem leva a melhor é o pescador.” (sabedoria chinesa)

Se a panela social esquenta o suor da convulsão sai pelo ladrão, e, por falar em ladrão, os dias atuais refletem um Brasil que trilha os erros de um ‘ontem’ muito próximo e ditatorial. A pequena burguesia insiste em bater panelas, vigilante, nega a fome que ronda roendo os quatro cantos da democracia perene conquistada a sangue e movimentos sociais. A corda neoliberal dá poder e lastro à caneta da expropriação, aperta o pescoço da plebe com o nó dos direitos amputados, assina tratados da elite com tinta da cor do podre poder. Entre manchetes e chamadas sensacionalistas, lucrativas, a mídia soberba conta à classe menos abastada uma história (ir) real e pulsante recortada a capítulos que relatam a luta pela sobrevivência retratada na peleja diária entre lulas e caranguejos, donos de helicópteros e dedos-duros, senhores que arrotam a isenção parlamentar, um Congresso banalizado tocado a escravos mulambos engravatados presos ao contracheque sacado no alforje da matilha instalada no seio e covil da corrupção.

Ao deus-dará a força de expropriação detém e maneja o capital, fomenta o mérito da busca por uma vaga remunerada no mercado de trabalho terceirizado, adula o fetiche formal infernal que denuncia, segundo Paula (2011) “a existência ou síntese das lutas sociais que confluem num projeto político-econômico da classe hegemônica de manutenção do sistema perante a necessidade de legitimá-lo em função das demandas populares e do aumento da cumulação capitalista” (Netto apud Montaño, p. 33-34). Esta expressão econômica da conjuntura político-administrativa estatal regulada não define a ‘questão social’ – gênese do Serviço Social – mas embasa sua emergência quando transformada em ‘objeto de intervenção do Estado’ através de sua mediação política. O espelho da conjuntura sociopolítica nacional (longe de ser nacionalista) expõe, de acordo com Marx, “a classe-dos-que-só-vivem-do-trabalho”, ou o trabalhador acuado e afanado em suas garantias a alfinetadas institucionalizadas.

O conta-gotas das benesses caritativas disseminadas no poder de ONG´s instaladas a vergonha e voluntariado social denuncia a reificação do ser social, fenômeno que, segundo Lukács (1885-1971), em conceito de Karl Marx (1818-1883) conta do “processo histórico inerente às sociedades capitalistas, caracterizado por uma transformação experimentada pela atividade produtiva, as relações sociais e a própria subjetividade humana, sujeitadas e identificadas, cada vez mais, ao caráter inanimado, quantitativo e automático dos objetos ou mercadorias circulantes no mercado”. A imagem coletiva no espelho político brasileiro, trincado e emoldurado pela artimanha golpista, expõe a deslavada corrupção, ativa e passiva, fomentada a conchavo e barganha por todos os lados. Delimita-se, às pressas, e, em benefício do rico, a lógica do capital de especulação e expropriação transnacional, neoliberal, ganancioso. Há um plágio da proposta do Leviatã ou Estado endemoniado.

A face enrugada do País, histórica, carrega traços políticos e econômicos de uma região continental submetida às garras imperialistas de países centrais, desde que Colombo, mais esperto que o galo e o diabo, ‘botou o ovo em pé’, reafirmando sua ‘descoberta da América’ e alcançando os dias atuais quando o poder de fogo das armas letais e econômicas de ‘países do primeiro mundo’ estruturam o capital especulativo, manejam e manipulam o exército de reserva ou manada (des) humanizada já a partir da catequese que extirpou os nativos e sua cultura, usurpou da sua raça, roubando sua terra e dignidade. A História contemporânea chega a números sociais deploráveis que alcançam a casa de 13 milhões de desempregados, sujeitos sem face nem rumo em idade ativa, mais de meio milhão destes, encarcerados perfilados pela coação e medo, a certeza nas incertezas. Seres sociais tornados lixo (des) humano (i) material, fetiche do mercado da (in) segurança, estrato social hierarquicamente sobreposto a um Estado paralelo e lucrativo.

Erguida à força da (des) razão humana a estrutura de poder alimenta a máfia do jogo (ainda) ilegal, do tráfico (realidade internacional), da indústria da falsificação (que emprega grande parte do comércio informal) e a negação da proposta de emancipação dos concidadãos condenados a impostos que denunciam a maior alíquota do mundo cobrada de todos os setores da coletividade a alimentar a boca do leão sem excluir, aí, os miseráveis. Os discursos proferidos pelos últimos governos ‘legais’ do País representados pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso (FHC), o metalúrgico Luiz Inácio da Silva (Lula) e a tecnocrata Dilma Rousseff (a camarada) transitam entre o mundo da sociedade política e refletem a vida e o pensamento de sujeitos coletivos que os circundam e relacionam organicamente. Já as primeiras falas do peemedebista Temer – vice golpista – remontam ao fortalecimento da autoridade presidencial estabelecida a partir do controle sobre os aparelhos de segurança, comuns ao recorte histórico e “revolucionário de 1964”.

Na cartola mágica do Estado a manobra das políticas públicas quanto às expressões sociais de indivíduos amealhados por direitos coletivizados ignorados em suas individualidades construídas. Segundo Marx “o homem faz a sua história, mas não como a quer” (1978), fenômeno que expõe as mazelas pós-modernas da desigualdade social e escancara o poder de consumo determinante da (in) consciência coletiva ou pertencimento a um grupo social, explicando a sujeição dos sujeitos à cidadania delimitada nas mazelas do capitalismo selvagem. Em tempos de eleição – precedida de promessas –, ainda hoje a população anseia remédios e paliativos mais imediatos como santos e coronéis, netos e afilhados, amigos e suas laranjas e a urgência da moral carece do entendimento quanto aos “textos escritos que almejam a literatura, já que os textos falados anseiam pelo comício […] ou tagarelice do dia a dia” (Jabor, 2009, p. 8).

Quem sabe a classe trabalhadora irá às urnas em 2 de outubro com o entendimento de que é “preciso incluir-se entre os loucos que ainda acreditam na razão, no País. Pode ser que reste ainda e alguma sensatez, talvez pela quase exaustão dos erros nacionais, mesmo que seja um resto, um bagaço de razão no fim de nossa vergonhosa caricatura” (idem) desenhada num balde em madeira talhada na luta entre a plebe narceja e o capital de fetiche mexilhão aos olhos e estômagos famintos do Estado pescador.

E o pulso… ainda pulsa!

 

(Antônio Lopes, filósofo, escritor, mestre em Serviço Social/PUC-Goiás e mestrando em Direitos Humanos/UFG)

 

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