A praga da contratação de falsos cabos eleitorais
Redação DM
Publicado em 1 de outubro de 2016 às 02:43 | Atualizado há 10 anosO efeito do dinheiro na campanha de candidatos a vereador é devastador. Foi pensando assim que o advogado Marlon Reis, ex-juiz da Ficha Limpa, disse: “Quem tem dinheiro para contratações (compra de votos) não perde eleição.” E a contratação de cabos eleitorais escondida na legalidade dos pagamentos declarados à Justiça Eleitoral são formas elaboradas de comprar votos. O Ministério Público fiscaliza, mas a lei votada no Congresso Nacional permite a contratação de cabos eleitorais.
Depois de inventada essa forma legalizada de comprar votos, as eleições proporcionais do Brasil deixou de dar voz aos legítimos representantes das comunidades. E pensando na gorda ‘verba de gabinete’ e nas emendas parlamentares comprar votos é um investimento mais rentável do que a agiotagem. Quem perde com isso são os eleitores que votam para melhorar a vida da sua comunidade. Pensei vários dias sobre a minha intenção de escrever sobre este tema.
Lembrei-me de uma frase de Dostoievski em Crime e Castigo: “É impossível se calar quando se sente, quando se tem a convicção absoluta de que se poderia ajudar a fazer luz.” Deixar de falar na hora oportuna e de maneira clara é esconder a luz. Omitir-se por medo quando se trata de defender a verdade é covardia.
Talvez apenas 10% dos vereadores eleitos sairão das comunidades dos bairros, dos movimentos sociais ou de setores legítimos da sociedade. 90% ou mais dos eleitos vão pagar em dinheiro pelos votos que tiverem. E o coitado do candidato idealista ficará longe da Câmara Municipal. O eleitor perde de novo. Essa é uma prática criminosa que deve ser rejeitada com coragem. Qualquer benefício oferecido em dinheiro para votar em determinado candidato configura crime eleitoral.
Então, é simples: o eleitor deve recusar toda oferta de dinheiro ou denunciar o político criminoso que quiser levar vantagem na eleição. Com disse o escritor russo, a nossa postura pode fazer luz nesta eleição. Por essa causa é impossível ficar calado. Eu sonho em ver a Câmara Municipal cheia de bons representantes de bairros, de segmentos sociais democráticos e de pessoas que defendem causas populares justas.
Vou encerrar minha pretensiosa e intencional crônica de hoje citando um provérbio chinês anotado pelo poeta argentino Jorge Luiz Borges: “Não fale, a menos que possa melhorar o silêncio.”
(Doracino Naves, jornalista; apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, PUC TV, sábado, 12h30. Reprise, domingo, 20h)