Brasil

A rua escura

Redação DM

Publicado em 1 de novembro de 2016 às 00:33 | Atualizado há 10 anos

A visto a rua escura sabendo que não tenho mais que cinco minutos. Vejo todo aquele tempo de espera se resumindo ao final daquela rua, uma avenida cinzenta, que vai se ampliando a cada pegada que sou obrigado a largar para trás. Ao me aproximar da entrada da rua, tudo que consigo imaginar é água violenta que desemboca em uma queda fatal e inevitável. Entramos.

O clima mórbido do local nos deixa mais a vontade, mas não é forte o bastante para frear nossas pernas. Nos aproximamos. Sinto a gentileza do seu toque amigável em algum lugar da região de entre os meus ombros. Deus sabe o malabarismo que eu realizo pra segurar a gentil emoção que sinto ao receber sua atenção física combinada com a tentativa de jogar frases coesas em nossa conversa, e com o pavor que sinto do final da rua se aproximando.

O tom da sua voz vai servindo de sedativo. Passamos da metade. Tento diminuir o ritmo dos passos. Disparo minha visão a todos os cantos na busca de uma saída tangente. Lanço olhares profundos com todo meu sincero desespero, numa esperança vultuosa de que talvez você compreenda meu sinal de SOS.

Faltam alguns metros. Já consigo sentir o cheiro fúnebre da fumaça de um ou outro carro audacioso que corta aquela avenida soturna na quase madrugada. Tento me aproximar mais um pouco na tentativa de aproveitar melhor os últimos momentos… mas a rua acaba.

Escuto suas últimas palavras, pesadas, e percebo que a sua atenção já se desligou do meu espectro arrastado que insiste em acompanhar sua figura até a perdê-la de vista. Agora está feito. Eu estou sozinho de novo.

 

(Mariana Zetro, 17 anos e pretende estudar Literatura)

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