A saudade evoca valores
Redação DM
Publicado em 4 de março de 2018 às 00:16 | Atualizado há 8 anos
Ouço vozes, estando só em casa. Nada de mais, não estou maluco nem caduco – é que, estando só, mantenho a tevê ligada para não me embebedar de silêncios e adormecer de tédio. Algum som estimula-me a criatividade, em especial se tal som for de boa música. Ah, mas qual! Nestes tempos só se ouve música boa quando se tem em casa o que selecionar.
Sim, não exagero. Os tempos são estes de “anitas” e “luans”, com seus pares às dezenas a estourar-nos os tímpanos e a paciência. Triste mesmo é ver jornalistas de boas (?) escolas a estuprar a Língua Pátria e conclamar a claque a aplaudir as nulidades que, por obediência e ganância, obedecem cegamente ao que ditam seus produtores.
Claro, claro… sei que essa leva de artistas cantantes na casa dos vinte e trinta anos não traz consigo boa bagagem de audição e leitura. Alguns, sim, mas fazem concessões às mídias e ao mercado, formado pela massiva publicação do lixo musical.
Na minha juventude, alguém da mídia decidiu chamar um cabeludo de calça-apertada-e-cinturão de Rei do Iêiêiê, meus contemporâneos recordam-se bem. Hoje, os coleguinhas preguiçosos da imprensa impressa transformaram o título de demagogo musical para “rei da MPB”, em desrespeito total a uma grande leva de talentos nascidos nos Anos 40!
Há pouco, ouvi o canto de alguns ídolos da época dos 90 do século passado. Letras simples, com mensagens parodiadas ora de alguma leitura ou citação dos pais, ora de algum dito nem tão valioso de algum político em evidência na infância daqueles, hoje chamados de poetas em detrimento de chicos, “djavans”, “caês” e “gilbertos” – para não citar os poetas só de textos, sem pretensões musicais.
Vivi a adolescência quando um grupo de moços, uns poucos anos a mais que eu menino, surgiram com grandes novidades. Ritmo suave de tocar a alma, vestindo versos de canções intimistas e otimistas, substituindo a famigerada dor-de-cotovelo dos boleros e sambas-canções das vésperas. Vimos o fogo-fátuo da jovem-guarda e o pipocar das luzes sonoras dos quatro de Liverpool e logo, logo outros jovens – agora, da minha faixa etária – criando coisas diferentes que logo se chamou Música Popular Brasileira.
Tanto os bossa-novistas quando os praticantes da novíssima MPB eram moços egressos do antigo e fora-de-moda hábito da leitura. Lia-se romances – nacionais e estrangeiros – e lia-se poesia, brasileiras e importadas, e de tal aprendizado (muitas vezes autodidatas) vimos brotar (aqueles, sim) jovens geniais a marcar indelevelmente a existência.
Veio deles a criação corajosa e espontânea, a melodia revolucionária e a canção atrevida, contestando os costumes e os regimes (toda a América Latina sofria ditaduras plantadas pela também famigerada CIA, a agência de sacanagens dos EUA para os povos vizinhos e para todo o mundo).
Um dia, fez-se a luz lá longe, na escuridão que parecia infinita. Um dia, cresceu a imorredoura ânsia de liberdade e demos fim à censura. E o fim da censura foi muito além da sonhada Liberdade, e um efeito colateral se fez inevitável – brotou por todo o país a erva daninha da libertinagem, e a criatividade qualitativa adormeceu ante a sanha dominadora da criação desenfreada, sem pré-natal nem vacinas.
Ando triste. Muito triste. E só removo esse sentimento quando, incompetente no manuseio de instrumentos e despreparado para o canto, faço acontecer o soar monótono do meu teclado e venho parir estas linhas, folhagens do meu pensamento.
Ainda bem que posso visitar o passado e despertar meus ídolos, cantantes e instrumentistas, doutros tempos. Aqueles tempos em que o mundo reverenciava o Brasil por “aris” e “eriveltos”, “tons” e “vinícius”, “medaglias” e “elis”.
Hoje, é isso aí…
(Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras)