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A saúde de Itumbiara irá matar quantos em 2016?

Redação DM

Publicado em 3 de janeiro de 2016 às 23:11 | Atualizado há 10 anos

É como, por exemplo, querer acertar ou precisar a quantidade de pessoas que irão morrer em todo o ano de 2016 nas estradas brasileiras. De fato, não é possível, contudo, com algumas modelações é possível sim se trabalhar com números aproximados.

Para esse exercício leva-se em conta, por exemplo, a série histórica dos, por exemplo, cinco ou dez últimos anos. Só isso? Evidentemente que não! A criação desse algoritmo deve considerar a maior quantidade possível de informações para a definição de uma equação tal que consiga mais ou menos, fornecer o valor que se busca.

Essas considerações servem também e por exemplo, ao Estado de Goiás ou ao Município de Itumbiara. O mesmo pode ser indagado ou analisado, a título de exemplo, no campo da saúde “stricto sensu”.

Supondo que cerca de cento e vinte nove pessoas morreram nos hospitais de Itumbiara por motivos banais ou torpes no agourento 2015 talvez se possa perguntar: quantas vítimas a saúde de Itumbiara irá produzir em 2016?

Irá produzir as mesmas 129 vítimas, conforme o exemplo citado acima? Mais? Menos? Qual a probabilidade de que este número se eleve? Que fatores definem essa elevação? E quais as probabilidades para a redução desse índice? Essa redução depende de quê?

Não, não é exercício de retórica, jogo de adivinhação ou especulação pura e simples! O aspecto central dessas elaborações é que a desejada redução deste valor depende da articulação de uma série de variáveis externas e internas; de fatores que não são da alçada apenas da governança municipal; mas que necessita também de ações políticas estaduais e federais; dos níveis de comprometimento das pessoas com sua alimentação; com a vida que levam; com a redução de riscos na vida doméstica, no trabalho ou no trânsito e; até dos níveis de educação dos indivíduos.

Certo é que as nuanças desse processo são muitas e diversas, no entanto, o Estado, em seus diversos níveis (Federal, Estadual e Municipal) tem a obrigação de desenvolver políticas tais que resguardem a saúde pública; que protejam os cidadãos da morte precoce e que; enfim, os indivíduos não percam suas vidas porque não havia nas despensas dos hospitais uma única cápsula de controle de pressão e que muito, muito… Custa oitenta centavos.

No plano municipal a saúde pública deve ser prioridade zero; e sua ausência desmantela a sociabilidade local; gera absenteísmo nas famílias e nas empresas; provoca pressão pública em outros centros urbanos e, enfim, produz uma cascata de ônus aos cofres públicos e privados e o que é bem pior, aos miúdos orçamentos familiares.

No caso da baixada goiana de Itumbiara, receio dizer que nada fora efetivamente feito para mitigar essa matança seletiva de pobres, periféricos e assalariados e que, sem outras opções, insistem por atendimento público.

O desafio é maior, bem maior do que apenas manter médicos trabalhando no horário previamente acordado em contrato. A montanha a ser escalada é o desenvolvimento de outro modelo de organização da saúde que combine ações externas, nos bairros, nas casas, nas famílias com saúde intensiva; com educação e inteligências preventivas que vão da educação alimentar ao combate ao sedentarismo, passando por muito e adequado investimento em saneamento básico.

Para os específicos de Itumbiara as políticas de saúde são majoritariamente pensadas e feitas para primeiro, o enfrentamento dos amplos problemas cardíacos e que arrasa com a população; às epidemias de diabetes e que segue sem controle; aos dramas das doenças sexualmente transmissíveis que atravessam todas as faixas etárias da cidade. Finalmente, temos o sazonal e já esperado tsunami alado de mosquitos de dengue e correlatos que fazem “festa” na cidade.

Fundamentalmente a saúde local é a saúde que enfrenta ou tenta enfrentar esse “quarteto de morte” e como se sabe não tem dado muito certo, posto que é suplicio por cima de suplicio, drama por cima de drama.

É que ou se repensa as formas de gestão destas mesmas políticas ou os resultados não serão alterados; ou se repensa a forma de mapear estes problemas espraiados em todos (eu disse, todos!) os bairros ou variáveis definidoras desse cenário de morte permanecerão inalteradas.

Ou se articula saúde com educação, geração de renda e movimento de jovens, mulheres e comunidade LGBT ou… A saúde será a saúde formal, dos protocolos de governo, dos discursos fáceis, das prosódias eleitorais para desanuviar os ouvidos de um eleitorado cada vez mais passivo, abobalhado e afeito a um “doce e meigo” auto-engano.

 

(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando em Geografia Humana (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)

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