A vida é uma sucessão de acasos?
Redação DM
Publicado em 3 de fevereiro de 2016 às 23:59 | Atualizado há 10 anosPara aqueles que entendem que o maior bem da vida é a vida mesma. Vidas se entrelaçam para se completarem, por acaso ou providencialmente? A questão é: por que certas coisas acontecem como se predeterminadas a algumas pessoas e não a outras? Por exemplo: cuidar da vida de alguém como condicionada à própria vida?
Um certo primo que tomava parte da conversa, disse que isso acontece como uma natural sucessão de eventos cuja causa é misteriosa e para a qual não há explicação. Outro primo interveio dizendo que tudo que acontece com as pessoas decorre de suas escolhas ou de mera sucessão de acasos.
Eu havia apenas colocado o fato, sem assumir nenhuma posição prévia e foi a partir da minha colocação que começou a polêmica. Seguinte.
Era um aniversário. Cheguei tarde e tive que justificar-me que deveria sair mais cedo em função da assistência devida à minha mãe que, como é da sabença de todos, vive sob meus cuidados. Uma das causas do bom estado de saúde (ou preservação) dos idosos e doentes é o pronto atendimento dentro da regularidade dos horários. Hora de comer, comer. Hora do banho, o banho. Hora de dormir, velar-lhe o sono. O corpo frágil precisa de todo tipo de proteção para a reposição de energia vital.
É como diria o poeta Ascenço Ferreira no seu poema sobre filosofia de brasileiro: “Hora de comer, comer. / Hora de dormir, dormir. / Hora de trabalhar, / pernas pro ar que ninguém é de ferro.”
Causa e efeito
Por causa da aludida dedicação à minha mãe começou a reflexão: seria meu carma? Eu deveria estar pagando alguma culpa remota contraída em outra existência? Para o primo materialista, não era nada disso. Tudo não passa, segundo ele, de um acaso e Deus não interfere diretamente no destino dos homens. Então a suposta predeterminação que envolve minha vida seria independente da minha escolha?
O outro primo, de visão holística, acha que sim, mas com uma razão de ser. Nossas vidas, segundo ele, são marcadas por uma sucessão de eventos que guardam correspondência como numa relação de causa e efeito. E qual seria a causa?
Assumi que, se por um carma, reconhecia meus débitos espirituais e já me havia resignado para cumprir a minha catarse a fim de resgatar o estado de graça. Sempre me julguei egoista: não quis ter filhos para não ter que assumir responsabilidades. Agora tinha que cuidar de minha mãe, como minha própria filha.
Questionou o primo Um: mas qual a relação desse fato com a situação existencial de sua mãe, que não presidiu os seus atos? Aí entrou a explicação do primo cético: por mero acaso. Deus não poderia usar sua mãe como instrumento para o seu autoaperfeiçoamento, vez que ela não tinha culpa dos seus supostos desacertos.
Acaso e escolha
Interferi colocando outra circunstância especial. O fato é que, na verdade minha mãe adotara-me e desde então nossos destinos se entrelaçaram: passei a infância sozinho com ela numa fazenda (a Fazenda Cantinho, de propriedade de meu pai) e agora passa ela a velhice sozinha comigo (neste cantinho denominado Vivenda dos Arcos), pois tive que assumi-la, ao que parece, para terminarmos juntos da forma como começamos. Por mero acaso, ou por escolha?
Acudiu o primo Dois: sua mãe escolheu ter você como filho e você escolheu tê-la como mãe. – Então, perguntei-lhe – escolhi perder uma mãe para ter outra da qual eu viesse a cuidar como minha filha? – Perder sua mãe foi um acaso. Cuidar da sua outra mãe foi uma escolha – respondeu o primo cético. – Então, por que você fala de uma sucessão de acasos? Um acaso gera outro acaso? – Não, cada acaso é independente, assim como cada escolha. E concluiu: eis aí uma sucessão de eventos que têm correlação: você não escolheu, foi escolhido para ser filho e cuidar da sua mãe. Em tudo há uma compensação. Uma vida compensa outra, assim como certos fatos compensam outros na cadeia de sucessões.
Uma vida compensa outra
– E tem isso a ver com a questão cósmica? – indaguei. – Certamente. Do contrário, não haveria sentido na união de duas vidas para uma compensar a outra e dar sentido a sua própria existência (como pagar uma dívida de gratidão). Se não fosse sua mãe, você seria como é? Se não fosse você, sua mãe estaria viva?
Dentro dessa lógica coloquei mais uma ponderação respondendo aos dois primos. Sendo acaso ou escolha, sendo uma sucessão de acasos ou sucessão de eventos, sinto-me gratificado na experiência existencial com relação à minha mãe. Se por vontade de Deus, estou em paz com ele. Se Deus não interfere como patrono de nossos destinos, nada devo a ninguém e estou em paz comigo mesmo. Uma vida compensa a outra.
(Este texto foi publicado originalmente no livro Dossiê de uma professora, de Emílio Vieira, Goiânia, Kelps, 2009).
(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa – E-mail: [email protected])