Acolhimento familiar da mulher com câncer de mama
Redação DM
Publicado em 17 de outubro de 2015 às 23:15 | Atualizado há 11 anosNessa última quarta-feira, coordenei, no Senado, um evento que teve como tema o título que dei a este artigo, ou seja, o acolhimento familiar da mulher com câncer de mama.
Somente neste ano, 57 mil mulheres receberão o diagnóstico de câncer de mama no Brasil. São 57 mil brasileiras que enfrentarão uma dura batalha contra uma doença perigosa, mas perfeitamente superável. Uma luta que pode ter resultados positivos, se iniciada em tempo hábil.
Os efeitos do câncer de mama vão muito além dos males físicos. As dores psicológicas, os males do coração, muitas vezes representam grande parte do sofrimento das pacientes. Durante todos os estágios da doença, os sentimentos se alternam. Até porque o estado de espírito da paciente é fator determinante para o sucesso do tratamento, conforme já garantem os pesquisadores da área. Durante a audiência, uma das convidadas, a professora Antonieta Lucena, contou como está enfrentando esse problema. Ela defendeu que a superação pessoal é, realmente, o maior desafio de quem enfrenta o câncer de mama. Em seu depoimento, usou como exemplo um mito sobre a história da águia, que quando chega aos trinta anos, em média, precisa passar por um doloroso processo de renovação física. Perde o bico, as garras e arranca as próprias penas para poder viver por mais algumas décadas. As aves que não tem a coragem de enfrentar essa regeneração, geralmente, morrem nessa fase da vida. É o que acontece, segundo a professora, com uma mulher que enfrenta o câncer. Durante a luta, perde os cabelos, tem as unhas enfraquecidas e muitas vezes, a mama mutilada. As que têm força para passar por essa transformação pessoal sobrevivem e se renovam com a superação da doença.
É por esse motivo que fiquei muito feliz em coordenar este debate sobre o acolhimento familiar da mulher com câncer de mama, pois é exatamente o apoio da família que servirá de suporte para o tratamento bem-sucedido das neoplasias.
Durante este árduo embate contra o câncer de mama, é imprescindível contar com a força dos filhos, dos pais, dos maridos, ou de qualquer outro familiar escolhido para essa caminhada. São essas pessoas que representam um verdadeiro esteio, capaz de oferecer ferramentas para que as pacientes enfrentem a depressão, a ansiedade e todos esses sentimentos que não podem ser menosprezados, inclusive o constrangimento da mutilação, já que, em alguns casos, eles chegam a inviabilizar intervenções terapêuticas. E, após todo esse empenho, o saldo, além da cura, pode ser um vínculo afetivo ainda mais estreito.
A luta contra o câncer de mama é um trabalho de todos nós, profissionais de saúde, pesquisadores, agentes sociais, familiares e quem mais puder fazer parte desta união de esforços. Os parlamentares também têm um papel importante nesse grupo. Cabe a nós propor, discutir e aprovar leis que garantam melhorias para o sistema de saúde, com claros benefícios para a população.
Somente este ano, tive a honra de apresentar duas propostas que, creio, terão consequências diretas em favor do diagnóstico precoce da doença, condição decisiva para o bom resultado do tratamento. Um dos projetos, de minha autoria, (o PLS 583/2015) obriga o Poder Público a oferecer ultrassonografia mamária a mulheres jovens, na faixa etária dos 40 aos 49 anos, com elevado risco de câncer de mama, e àquelas com alta densidade mamária, conforme preconiza a Sociedade Brasileira de Mastologia. Pesquisas apontam que a mortalidade entre as mais jovens cai significativamente quando as mulheres têm acesso a mamografia para um diagnóstico precoce da doença.
A outra proposta, (o PLS 584/2015), determina que o Sistema Único de Saúde mantenha unidades móveis com mamógrafos e profissionais de saúde a fim de atender especialmente àquelas pessoas que vivem no interior e na periferia das cidades e não têm acesso a grandes hospitais. O ministério da Saúde informou que o governo não cobre os gastos com o veículo para esse atendimento móvel, o que desestimula os gestores estaduais a oferecerem o serviço.
Mas o papel do parlamento é buscar soluções, por isso, com essas medidas pretendemos contribuir para facilitar e aperfeiçoar o rastreamento do câncer de mama, pois esta é uma doença perfeitamente curável se for diagnosticada em tempo hábil.
Também é de minha autoria a proposta que deu origem à Lei 11.695, de 2008, que institui o Dia Nacional da Mamografia, comemorado todo 5 de fevereiro. São ações como essas que garantem a visibilidade exigida pelo tema.
Os esforços somados de cada um de nós oferecerão as condições necessárias para que as pacientes com câncer de mama vençam esta batalha.
Todos somos parte de uma engrenagem que deve estar muito bem coordenada. E, pelo entusiasmo que aqui vislumbro, creio que temos boas chances de sucesso. Coragem é contagiante. E é isso que temos a oferecer.
(Lúcia Vânia é Senadora (PSB), Ouvidora Geral do Senado e jornalista)