Adeus, Jonas Luiz Guimarães!
Redação DM
Publicado em 16 de outubro de 2015 às 22:50 | Atualizado há 11 anosEsse adeus inconsolável Jonas, eu e todos seus entes queridos, fazemos, com o coração amargurado de dor, desígnio de Deus, mas, inconformável. Um convívio intenso, iniciado na meninice, nem bem principiava sentir na alma, os encantos do mundo dourado de criança, criança da roça, toda vivida na faina rural, aos poucos, com o perpassar dos anos, começa a desvendar os segredos da mãe natureza, mãe generosa, ora ofertando, conforme a época, frutos saborosos como ingá, a guapeva, ora do quintal, cultivados no imenso pomar de vô e vó Chica, do outro lado do povoado, mas que a mãe Maria José, em quase todo dia domingueiro, arriava os animais, bem cedo, você, altivo, sobranceiro, o maior, montava primeiro, quem não dava conta, ia de garupa, a mãe colocava, um à frente do arreio, outro atrás, na garupa forrada.
Em fila partíamos, guiados, pela sabedoria da mãe Maria, marcha cadenciada, iam desmontar, na casa dos avós maternos. Nem bem terminava o folguedo da cavalgada, cedia lugar, o degustar de frutas saborosas do quintal do avô Chico. Ele mesmo, caminhando à frente, a pegar, ora uvas do estaleiro, bananas amadurecidas no forno artesanal, ora, açúcar mascavo sem igual. De repente, a atenção mudava, com você, Jonas à frente, o mais velho e mais persistente, rumo ao laranjal, nele, mexeriqueiras, delícia sem igual, saborosas fuxiqueiras.
Na época de moagem de cana, engenho movido, por animais, atrelados a manjara, as saudosas tias fazendo-os correr, em círculo, moendo a cana. Em época tal, Jonas, saudoso Jonas, você legal contava aos meninos da rua, curiosos, no recreio da aula, em tempo de moagem, façanha do engenho: garapa, melado, rapadura, açúcar mascavo e, mesmo, pinga do alambique artesanal, o melaço, após várias passagens na destilaria, gerava pinga especial. Uma tia mais marota do que as outras, a Auta, cochichava, com você Jonas, afim de, induzir o Juca a beber um gole, no entanto, como era obediente à mãe, não fazia, porém, a danada tia não esquecia da brincadeira, assim, dois ou três da meninada acabavam ficando meio tontos, despertando alegria, dos demais, zombaria.
A volta da fazenda dos avós maternos se fazia à tarde, com cavalo, passo a passo, no povoado, pois ela, mãe Maria, mesmo montada, gostava de prosear com as muitas comadres, entre elas, Zéfina, primas, como a Bem, tudo em plano ligeiro, você, inesquecível Jonas, menino bom cavaleiro, aumentava a toada, até o próximo fazendeiro, vó Cirila e vô Agenor, paternos. Demais, ali tinha muitos tios, a todos você tomava bênção, até que mãe Maria José chegava, aí, você, inesquecível Jonas, corria quintal abaixo, pegava um fruto de pêssego, ainda de vez, atravessava a bica do monjolo, ia parar, na sombra de grande mangueira onde o tio João e o primo Gino tinham seus brinquedos, como era domingo, ambos estavam a postos, não raro o tio brabo, com o sobrinho Gino, acusando-o de haver trocado sua vaca leiteira, tudo de brincadeira, por uma velha curraleira, o boi colosso, melhor e de tamanha beleza, por tucura da redondeza.
Face à rusga, ficava bom tempo despercebido, de forma que, quando os contendores o enxergava provocava grande susto, seguido de riso, o tio como diziam os outros tios, um cavalão brincando com outro marmanjão, entrementes, era domingão, saudosismo da meninice. Brincava, com alegria de ambos, por algum tempo, quando a voz de nossa mãe ecoava lá de cima, chamando para ir embora, você meu inesquecível irmão, pesarosamente deixava-os – a rusga recrudescia – e no cavalo partia à frente, para cumprir a tarefa de apartar as vacas, antes do por do sol, cônscio obedecia, a voz de mãe Maria.
Que mundo dourado aquele Jonas! Estimado Jonas, de lembranças tão altivas na memória, memória de folguedos e tantas inusitadas histórias, da bruxa da vassoura, ao príncipe e princesa do castelo encantado, às vezes, mal assombrado, contadas por Aleixo e Dioxis, brinquedos, mesclados, de vez em quando, com lavor, lavor, como aquele do Augusto Rufino e seus bons meninos, José e João, carreando milho da roça, em carro pequeno, um mimo de arte, cravejado e atrelado a uma dúzia de carneiros, mas, na hora de descer ladeira braba, Rufino tinha que segurar, na traseira, o jeitoso carrinho, para que não disparasse.
Tirante em mãos, bem seguro, tirava e colocava-o, de toco em toco, bem fincado, para que, seguramente, não tombasse, de repente, os dois meninos não dão conta de conter a carneirada, ha aquela disparada, Rufino, tentando conter se arrasta, a toda disparada, rascando traseiro morro abaixo, avantajado tropeçando na tocaiada, carro tombado, milho esparramado, você Jonas, e outros, a espreita, riram, sem querer, da amassada. Rufino azedado contou para o compadre Pedro Agenor, o marotado, como eram de muitos as risadas, inclusive dos filhos, ficou difícil a penalizada.
Tamanha e sublimada vida, me leva a não crer nesta sua inesperada partida, despedida de imenso convívio material, porquanto, no espiritual, estará presente, vivo, eternamente vivo, para todo o sempre. Essa inconcebível separação, a volta ao pó de onde veio, conseguirá separar você Jonas, de nós, seus entes queridos: eu, Pedro Wilson, João; Jussara, Terezinha e Aparecida. Ah! Também, a esposa abnegada, comadre Luzia, que, em gesto de solidariedade, sem igual, próprio das heroínas, acompanhou-o, lado a lado, a esta inesperada partida, deixando imensa saudade, em nós, bem como seus filhos: Jonas Júnior, altivo empresário do agronegócio e bem quista esposa, seus netos. Marcelo, abnegado artesão da informática, Luciano, bravo colega veterinário, empresário, e altiva esposa e netos. Luciana, advogada de elevado senso, maestria profissional, na arte forense, seu abnegado esposo Sérgio e neto, sua existência constitui lição exemplar, legada, de forma sublime aos seus entes queridos.
Quanta lembrança e mais lembrança, ora de criança, menino da roça, ajudando nas lides do gado, ora, no manejo, a cavalo, nas manhãs orvalhadas, maravilhas desabrochadas, com o canto da passarada, mungido das vacas, tu Jonas, fazia, em rotina de bom menino, a laboriosa faina campesina. Jovem adulto, mundo afora, incansável Jonas, filho de grandezas mil, sempre laborioso, ordeiro, fazia, ora, às vezes, de destro vaqueiro cuidando do gado campeiro, pelejando junto ao pai, Pedro Agenor, ano inteiro, ora nas longas estradas, secas empoeiradas, chuvas enlameadas, de novo, tu Jonas, fazia, ora, às vezes de peão, tangendo boiadas, por outra, de patrão, quando o pai, tendo que viajar, para negócio realizar, naquele tempo, pleno sertão. Conduzindo boiada, a noite vinha a parada, para descansar da longa caminhada, hora da janta, tu Jonas, ouvia o que dizia, em ambiente de presteza e alegria, a peonada: culateiros, taieiros e berranteiro-ponteiro. Entre os contadores de histórias, você, estimado Jonas, a pouco tempo, ainda, recordava do Chico Aleixo, ah!, Também, o violeiro Zé Fernandes, Dioxis, experiente rastreador de arribadas, entrementes, na hora do rangi, noite afora, a espera do sono, contava piadas, por tamanha vivência, você Jonas, deixa, em nós, terna reverência.
Toda uma vida ordeira e laboriosa, de herói anônimo, junto a milhões de outros patrícios, responsáveis, como você, pela construção da verdadeira grandeza deste país, país gigante pela própria natureza, como se canta no hino nacional, letra de Manoel Osório, Duque de Estrada, mesmo esbulhado pelos corruptos, inimigos do regime republicano, prospera, alimentando a esperança de nossa gente. Você é Jonas, parte sobranceira dessa história inteira.
Quanta lembrança impregnada de bravura, temperança, tu Jonas, caríssimo, ousado irmão, ombreou vida toda, mesmo, agora, acuado por câncer maldito, resististe, corajosamente, até os últimos instantes, semblante altivo, deixando no coração de seus entes queridos, soberba comoção, imenso vazio impregnado de infinita saudade, uma saudade indeclinável, pela sua despedida, despedida, de guerreiro sobranceiro, do generoso e imenso rincão brasileiro.
(Josias Luiz Guimarães, veterinário pela UFMG, pós-graduado em filosofia política pela PUC-GO, produtor rural)