Advogar em causas de família:desafios e emoções!
Redação DM
Publicado em 9 de agosto de 2016 às 02:57 | Atualizado há 10 anosA advocacia é uma profissão para pessoas que tem a coragem como seu alicerce. Indispensável é o advogado para que haja realmente a administração da justiça. Quando iniciamos o curso de Direito é comum professores mencionarem que o referido curso é extremamente dotado de uma racionalidade considerável. Concordam vários profissionais, principalmente os que lidam com as áreas trabalhista, empresarial, penal, mas é importante ressaltar que quando citamos a área de família, o advogado acaba por vestir uma roupagem em que é necessário não somente o lado racional como também o emotivo.
Parece estranho dizer isso, que o advogado deve convocar seu lado emocional, mas o intuito desse comentário é justamente observar que os advogados que atuam nas Varas de Família devem antes de tudo ser um mediador e incitar a conciliação entre as partes quando na lide houver interesse de menor(es).
Infelizmente observamos que as Varas de Família tem sido consideradas por partes em processos como o local onde suas frustrações quanto ao findo relacionamento são expostas. O advogado deve então auxiliar a parte no que concerne à reflexão acerca da dissolução do matrimônio e a necessária compreensão de que existem ex-mulheres, ex-maridos mas jamais ex filho(as), que a parte pode sofrer, chorar, mas jamais pretender usar o Direito como meio para injustiça,para a vingança.
Certo dia vi em uma rede social um colega dizendo que fez algumas perguntas a uma pessoa que o havia procurado com o intuito de divorciar-se e que o mesmo fez-lhe alguns questionamentos, induzindo-a a refletir sobre o pedido de dissolução. Em resumo, o colega mencionou que ao final da conversa, da reflexão, ele havia perdido um cliente, mas feito um amigo! Atitude nobre e verdadeiramente considerável do nobre colega!
O advogado em causas de família deve analisar quais as verdadeiras intenções de seu cliente, fazê-lo pensar sobre o almejado e entender que se a opção foi o divórcio, se existem filhos menores, o lado racional deve equilibrar-se com o emotivo.
A traição é causa de muitos divórcios e algumas partes em audiências não controlam suas emoções e acabam por achincalhar o outro, sendo consequentemente chamadas à razão pelo próprio juiz, sem excetuarmos que o advogado até então acreditava que tal fato não aconteceria, que o cliente mesmo diante o sofrimento tinha controle acerca de seus conflitos, que apenas a razão prevaleceria naquele instante.
Sem querer usurpar o papel do psicólogo, mas também acabamos exercendo de forma mais branda tal função, ouvimos reclamações, choros, orientamos a reflexão, explicamos os caminhos, conversamos.
Advogar em causas de família nos coloca também em contato com situações que envolvem alienação parental, testemunhos de brigas e muitas vezes mentiras de ambas partes ou da parte contrária, e nesse sentido temos que ser muito racionais para entendermos que na maioria dos casos não há alienação e sim vingança pela parte mais fragilizada que usa o menor com o objetivo de punir o(a) cônjuge traidor(a) e pior, essa mesma parte afirma que essa situação é verídica.
Advogar nas Varas de Família nos apresenta desafios, nos torna experientes, invoca que equilibramos a emoção e a razão simultaneamente, que tenhamos discernimento nas orientações e explicações aos nossos clientes.
(Kelly Lisita Peres, advogada, professora universitária, pós graduada em Direito Civil, Penal, Processo Penal e Docência Universitária)