Além do Zika vírus
Redação DM
Publicado em 10 de fevereiro de 2016 às 22:32 | Atualizado há 10 anosEm setembro de 2015 foi observado no Estado de Pernambuco o aumento da incidência de casos de microcefalia em bebês recém-nascidos, através da observação de 2 (duas) médicas neuropediatras, drª Ana Van der Linden e drª Vanessa Van der Linden, onde cada uma em seu respectivo serviço, observou que crianças estavam nascendo com microcefalia em número bastante acima do esperado, sem que houvesse diagnóstico de nenhuma das infecções habitualmente relacionadas a tal anomalia como Citomegalovírus, Toxoplasmose ou Rubéola.
Em 17/11/2015 o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), por meio do Laboratório de Flavivírus, concluiu diagnósticos laboratoriais que constataram a presença do genoma do Zika Vírus em amostras relativas a duas gestantes do estado da Paraíba, cujos fetos foram confirmados com microcefalia através de exames de ultrassonografia. O material genético (RNA) do vírus foi detectado em amostras de líquido amniótico, com o uso das técnicas de RT-PCR convencional e de RT-PCR em tempo real.
Foi imediatamente reconhecido que poderia haver uma associação entre a epidemia de Zika vírus que havia ocorrido no nordeste no início de 2015 com as crianças nascendo com microcefalia a partir de agosto e setembro de 2015.
Em 28/11/2015 foi declarado Estado de Emergência Sanitária Nacional pelo Ministério da Saúde, devido à provável associação de uma Arbovirose com uma malformação congênita de grande repercussão, fato nunca antes descrito, e tendo em vista a possibilidade de disseminação desse vírus, que tem o seu vetor Aedes aegypti presente em praticamente todo o território nacional.
Em Goiás também foi estabelecido Estado Sanitário de Emergência no dia 16/12/2016 quando foi instituída a campanha Goiás contra o Aedes através de Decreto do Governador Marconi Perillo.
Desde então mais e mais evidencias científicas se avolumam no sentido de estabelecer a correlação do Zika Vírus com a microcefalia, com padrão clínico e tomográfico de alterações do cérebro já reconhecido, além de outras alterações ainda em estudo. Em 03/02/2016 foi noticiado o achado de Anticorpos IgM contra o Zika vírus em amostras de liquor de 12 bebês com microcefalia, o que comprova que os fetos foram infectados no útero materno, reforçando as evidencias de que o Zika provoca microcefalia.
Os acontecimentos se precipitaram e em 01 de fevereiro de 2016 foi declarado Estado de Emergência Sanitária Internacional pela OMS em virtude da disseminação do Zika vírus e do aparecimento de casos de microcefalia em vários estados do Brasil, já havendo um caso de microcefalia em criança americana filha de mãe que esteve no Brasil no inicio da gestação. O que imediatamente gerou recomendação para que cidadãos americanos evitem viagens a América Latina, com especial atenção as grávidas.
A repercussão do assunto é tão intensa, que já se fala em suspender a Olimpíada no Brasil. Outros temas começaram a ser discutidos como a legalidade do aborto, a saúde reprodutiva em pessoas com maior vulnerabilidade sócio-econômica, outras formas de transmissão do Zika vírus, o que explicaria com maior propriedade essa disseminação tão rápida, a corrida da ciência em busca de exames adequados para diagnóstico, vacinas, soros, antivirais para tratamento são algumas coisas que começaram a fazer parte do nosso noticiário diário.
Essa é, entretanto, apenas a ponta do Iceberg, ocorre que estamos expostos as mais diversas doenças, com potencial explosivo de disseminação na comunidade, gerando problemas tão ou mais sérios que o Zika Vírus. Temos hoje reconhecidos mais de 150 de arbovírus, que são os vírus transmitidos por artrópodes, circulando em diversas partes do mundo, causando doenças dos mais variados matizes nos seres humanos, desde quadros leves como a dengue clássica, ou a doença exantemática causada pelo Zika ou por Mayaro, até casos gravíssimos de doença hemorrágica pelo vírus da Febre Amarela no Brasil, Febre Hemorrágica do Vale Rift na África, Febre do Kyasunur na Índia, doenças de evolução crônica como a artropatia pelo vírus Chikungunya, encefalites como o Vírus da encefalite Japonesa em países do sudeste asiático, Vírus St. Louis nos Estados Unidos, Encefalite do Vale Murray na Austrália.
O deslocamento de pessoas nas suas andanças pelo mundo facilita também o trânsito de germes e vetores. Nessa situação, agentes infecciosos poderão se adaptar facilmente em outras terras. Arbovírus como o Vírus do Nilo Ocidental que circula na África e é transmitido pelo mosquito Culex, se introduzido no Brasil tem um potencial explosivo de disseminação, com todas as condições propicias para tal.
Não basta apenas aprimorar a rede de atenção básica de saúde, onde as pessoas são atendidas inicialmente e as informações preciosas para a vigilância de surtos são produzidas. Só isto não basta para condução dos casos de doenças emergentes e reemergentes, tendo em vista a complexidade do assunto.
Goiás é o centro do Brasil e é necessário aprimorar a nossa assistência e capacidade de fazer os diagnósticos apropriados, isso é vital para a Nação. É importante e estratégico para a Saúde Pública que haja um Centro de Referência em Doenças infecto-contagiosas com alta resolutividade, tanto para diagnóstico e tratamento. É nesta instituição onde o diagnóstico e terapêutica de alta competência técnica deverá receber as tratativas adequadas, estar aparelhada para investimentos técnicos científicos e desenvolvimento de novas propostas terapêuticas e diagnósticas. É preciso que nossos governantes e gestores comecem a ter uma visão mais abrangente do quadro.
(Letícia Aires, médica infectologista, mestre em ciências da saúde, diretora técnica do Hospital de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad)