Brasil

Alexandre, o Grande x Iris e Vanderlan

Redação DM

Publicado em 2 de novembro de 2016 às 01:27 | Atualizado há 10 anos

“É no grande número de sábios que se encontra a salvação do mundo, e um rei sensato faz a prosperidade de seu povo.”
(Sabedoria, 6.24)

 

Em agosto de 1498, Colombo chegou a Espanhola, de onde estivera ausente por dois anos. Lá havia deixado os irmãos, Bartolomeu, adelantado (ou responsável pela colonização), e Diogo, que tinham construído a cidade de Santo Domingo, à época, em pé de guerra com insubordinações contra as autoridades. O homem que conseguiu colocar um ovo em pé tornado, àquele momento, incapaz de arrumar o quintal de sua própria casa. As notícias do “desmadre” socioeconômico e político, promovido pela má-gestão, chegaram à Espanha, convencendo os monarcas de que o seu vice-rei era um mau administrador.

Coincidência histórica, talvez não, a passagem histórica, contada a partir dos vencedores, caberia como uma luva de engodo em grande parte da história mal contada, apartada do proletariado, sobre a realidade golpista-político-administrativa. Estampada em gráficos de violência espraiada nas metrópoles brasileiras (superiores em números à guerra síria) incluindo a Capital goiana. Após 518 anos tardios, o quadro social conjuntural de “uma festa pobre que os homens armaram pra me convencer, a pagar sem ver, toda essa droga, que já vem malhada antes de eu nascer”, segundo Cazuza. Aqui a palavra “pobre” não significa propriamente pobreza social ou econômica, mas sinônimo da negação de caráter e ética.

O teólogo Leonardo Boff traz a reflexão política de que “podemos dizer que a maior corrupção de nossa história é o fato de as oligarquias haverem mantido grande parte da população, durante quase 500 anos, na marginalidade e terem empreendido um processo de acumulação de riqueza espantoso”. Sua conclusão embasa a análise sociológica de pesquisadores, os quais, ao revelar “verdades irrefutáveis”, revelam enquanto ferramenta de emancipação da escravidão moderna, a libertação da consciência eleitoral enrustida no senso comum, do trabalhador destinado a lustrar as botas e esporas que exploram o povo em currais eleitorais manipulados pela mídia.

Acerca dos governos desviados e de feições oligárquicas o filósofo Aristóteles revela que “não se pode dizer que uma oligarquia é melhor que outra, mas menos má” (século IV, a.C). A perpetuação da aristocracia oligárquica, escrita a coerção e compadrio da política tradicional arvorada no poder de fato dos senhores feudais, em pleno século XXI, veste uma carapuça (i) moral denunciada na “corrupção o abuso do poder político para fins privados. Na verdade essa forma de governo já vem das antigas autocracias e oligarquias” (WEBER).

O que já era ruim para as classes trabalhadoras, aparece reificado enquanto fato triste, a ser encarado como uma questão de honra por correligionários que operam o velho modelo de administrar as feridas sociais expostas pela população eleitora enquanto carência de saúde pública, transporte, (in) segurança, escola militarizada para formar os filhos dos pobres e escolas-fetiche, destinadas aos herdeiros do grande capital que administra a terra em larga escala, a indústria terceirizada, o sobrenome do avô, com pós-graduação em Harvard e outras universidades estrangeiras as quais formam em Economia a gente de bem herdeira de templos religiosos erguidos na Vila destinados à salvação das almas carentes de emprego como inserção social, sexo anorgásmico banido pelo pecado da alienação religiosa.

A libertária Emma Goldmann esclarece que “não há falácia maior do que acreditar que os objetivos e propósitos são uma coisa, enquanto os métodos e as táticas são outra. Toda a experiência humana ensina que os métodos e os meios não podem ser separados do propósito final”. Proposta de gestão municipal, secular e sem vergonha, as casas populares dão mote à politicalha local levada a sério enquanto instrumento de alienação das classes menos abastadas. Assim como foi a corrida geral desembestada por inclusão montada a linha branca e viagens, carros 1.0 e iPhones. Neste momento, histórico, mudanças decretadas pelo governo federal – golpista – dão conta da área da política habitacional, tão moderna quanto à era do extinto Banco Nacional de Habitação (BNH), incapazes de instalar na periferia e em barraco algum, aqueles que dormem e sobrevivem ao relento, sonhando um teto que não seja de zinco, lata, indignidade ou papelão.

Sobre a composição de partidos e bandeiras que compõem as barganhas oligárquicas e perpetuam os senhores donos das cidades, ou padrinhos do povo, o cientista político Athos Magno, em sua obra O Estado e o Campo no Brasil (1930-1964), afirma: “Mesmo que grupos opositores, pertencentes às próprias elites, assumam o poder, eles não serão capazes de resolver, em ritmo necessário, a crise estrutural, tanto pelo atraso econômico existentes nos países periféricos como pela correlação interna de forças, e os consequentes compromissos que tais grupos serão forçados a realizar com os grupos defensores da velha ordem ou do velho modelo econômico” (SILVA, 2008, p. 34-35).

Conta-nos a história que um pai famoso, segundo o prosador espanhol Baltasar Gracián, “lança uma sombra gigantesca sobre seus filhos, que, mesmo depois de morto, os mantém escravizados ao passado, arruinando a sua juventude e forçando-os a seguir o seu mesmo caminho desgastado” (1601-1658). As eleições a nível municipal, na Capital goiana moldada pelo engenheiro-arquiteto, paisagista e urbanista Attilio Corrêa Lima emolduram o retrato fiel dessa realidade político-histórica. “Pode ser vantajoso usar a sombra de um grande predecessor se ela for escolhida como um truque, uma tática de que se possa descartar depois de conquistado o poder” (MAQUIAVEL, in Grenne, 2000, p. 382).

Vale lembrar aos que perdem incluindo os que assumem o poder, a partir da virada do ano, mais uma vez, e, na Vila e mais ainda àqueles que sucumbiram durante a campanha ao coeficiente de votos nulos e brancos mais abstenções, que “até Alexandre, o Grande, reconheceu a capacidade do pai de organizar um exército e foi influenciado por ela. […] Joseph II, filho da imperatriz da Áustria, Maria Teresa, exibia-se fazendo exatamente o oposto da mãe – vestindo-se como um cidadão comum, hospedando-se em estalagens e não em palácios, mostrando-se como o ‘imperador do povo’” (idem, p.382)

E o pulso… ainda pulsa!

 

(Antônio Lopes, filósofo, escritor, mestre em Serviço Social/PUC-Goiás e mestrando em Direitos Humanos/UFG)


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