Amanheceu com jeito de circo
Redação DM
Publicado em 5 de novembro de 2016 às 01:44 | Atualizado há 10 anosHoje, nesta sexta-feira chuvosa (o sol há de aparecer mais tarde), eu me levanto às cinco da manhã, com a certeza de que o meu circo vai se abrir, a lona será estendida, o espetáculo há de começar e a mágica surgirá por um milagre. Mesmo se o sol não der o ar da sua graça sei que ele está no giro de sempre esperando a sua hora de brilhar no mesmo ritmo da vida. Este meu circo é colorido e tem um mastro no centro, acima da lona, com uma bandeirinha branca e azul de significados. O meu dia nasce com uma baita luz de esperança. Para outros, a quem o circo deve pegar fogo, o dia amanhece com planos de ocupar o espaço do outro.
Será que a rejeição do povo na última eleição municipal não ensinou nada aos arrivistas? Que vá para a sarjeta o Enem e a PEC 241? Como diz Rita Lee, que se acha uma hiponga comunista com um pé no colonialismo: “Todo dramalhão tem um lado comédia”. Talvez o que os arrivistas querem é continuar gastando muito para fazer jus à ideologia de esquerda com um pé no consumismo. Este, sim, é o retrato da atual elite brasileira que perdeu a mamata e logo vai ter que procurar emprego. O povo sofrido e enganado quer é trabalho, comida e dignidade. Hoje amanheceu com jeito de circo. Em vez de escrever sobre este assunto ranheta seria mais agradável falar de poesia.
Pois é, a vida seria mais bem interessante se fosse um vale de quimeras. O circo que se abre hoje traz o risco de o trapezista cair, o acrobata falhar e aí a saída é dar uma ‘chaleira’ para recolocar o objeto no ar. Não é assim o dia a dia do equilibrista do tempo? O atirador de facas é guiado pelo anjo da guarda da moça que não confia nem um pouco na pontaria do atirador. As farpas que atiramos contra o outro atingem o seu coração. No circo, o globo da morte é a precisão dos movimentos dentro da esfera, uma falha e todos se embolam no fundo do globo. E a mágica de tirar pombo da cartola? Foi, a meu ver, uma forma de manipular os números do IBGE e do Dieese que tiraram 20 milhões da pobreza. 20 milhões? O que acho estranho é que a pobreza continua nos bairros das grandes cidades e no interior do país. E a migração do Brasil acontece dramaticamente do Nordeste para o Centro-Sul.
O circo é a imitação da vida com metáforas do nosso cotidiano; nem tudo é o que parece. E a corda bamba do circo é impregnada de alegorias que caminham junto com o homem pelo planeta de vales iluminados por pirilampos, montanhas com chapéus de neve e precipícios habitados por bruxas esquisitas. A pluralidade do mundo me deixa inquieto e me instiga a prosseguir com uma espada e uma canção; afinal, meu jeito capricorniano é de uma espantosa incoerência. Uma coisa eu aprendi: o palhaço é o símbolo do acriançar com permanente contraponto da empáfia do ser humano que se julga tão inteligente que não aceita o ponto vista contrário.
E, neste ponto, esquerda e direita são farinha do mesmo saco; se equivalem nos atos de canalhice e atiram facas uns nos outros. E com os olhos vendados pelo fanatismo em defender o indefensável. Apesar de tudo, meu circo vai se abrir e a magia do circo vai me acriançar de vez até eu entender as incoerências da polarização que cresce até chegar ao fundamentalismo.
Doracino Naves, jornalista; apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, PUC TV, sábado, 12h30. Reprise, domingo, 20h00.
(Doracino Naves, jornalista; apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, PUC TV, sábado, 12h30. Reprise, domingo, 20h)