Brasil

Apologia para a noite

Redação DM

Publicado em 7 de setembro de 2016 às 03:01 | Atualizado há 10 anos

É durante á noite que, os desejos insaciáveis se afloram, desde os prazeres dos amores sólidos, ás paixões mais sórdidas por parte de homens e de mulheres que, somente no sigilo das trevas noturnas, são capazes de extravasar os desejos indomáveis. É no reduto da noite que, a Dama da Noite, mulher que durante o dia recebe o desprezo da sociedade, alcunhando-a de Prostituta, mulher da vida ou mulher de vários homens, torna-se a rainha noturna, atraindo para si homens nos seus mais variados estilos e que, somente impulsionados pela magia noturna arriscam uma paixão proibida e promíscua.

A noite também revela o lado místico, espiritual e transcendental, de muitos que, ao invés de extravasarem os seus instintos, procuram suprimi-los por meio de missas, cultos, vigílias, orações e intercessões, talvez porque a noite, na interpretação dos mais supersticiosos é mais carregada dos assombros noturnos, da ação de “demônios transeuntes da escuridão”, mas, para outros, imbuídos de fé,  á noite traz-nos a quietude plena de um luar que nos inspira, o frescor de  uma brisa que refresca a nossa alma, o silêncio pleno para a prática da oração e da meditação e a certeza de que, Deus criou a  noite para descansarmos e repor as nossas energias.

A noite inspira boêmios, a poesia se materializa no coração dos apaixonados, o vinho escoa na taça com mais alegria, a taberna da nostalgia enchem-se de notívagos que cantam juras de amor, sob a penumbra e ao som de um violão apaixonado, ecoando pelos ares notas musicais das músicas de Gardel. Se na noite o pranto é maior, a saudade vira canto, a paixão vira alegria, a sobriedade é volátil como a bebida que se bebe, o paladar torna-se mais aguçado. Se na noite a dor é mais intensa, os sonhos se tornam reais, a fantasia encarna a realidade de um amanhã sempre melhor.

À noite por mais escura que ela seja, a lua sempre aparece para contrastar com a escuridão,  o brilho nos olhos de quem ama permanece irradiando o mundo. Na noite os pássaros dormem, mas uma vigilante coruja está sempre atenta, analisando o mundo com a sua visão investigativa, tal a qual a “coruja de Minerva”, por isso, não é á toa que, a coruja é a ave símbolo da filosofia e do magistério, é também uma ave de hábitos extremamente noturnos, uma vez que, durante o dia ela contempla e durante á noite ela voa e solta os seu pio agourento e reflexivo.

Felizes os notívagos que fazem da noite a sua inspiração e que, somente na noite são capazes de amar com mais intensidade,  criar versos,  compor músicas e declamar poesias, dizer adeus ás tristezas dos dias cotidianos, e que conseguem montar no cavalo alado que, somente a noite consegue trafegar entres estrelas e cometas levando os sonhadores noturnos aos outros mundos e as outras dimensões. Viva a Noite!

 

(Giovani Ribeiro Alves, filósofo, escritor, poeta, professor de Filosofia na Rede Pública Estadual em Goiânia e articulista do Diário da Manhã)

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