As tragédias na Eleição Municipal
Redação DM
Publicado em 30 de julho de 2016 às 02:55 | Atualizado há 10 anosEleição municipal serve a priori para discutir os graves problemas dos seus munícipes encaminhando soluções as dificuldades cotidianas. Municípios constituídos de cidadãos probos com agentes políticos e públicos de boa índole discutiriam no processo eleitoral propostas estruturantes em programas cuja tema transversal decisivamente seria a equidade social. Infelizmente este consórcio, em Goiás, é raridade. Na crise ética a mediocridade do eleitor ancora o oco discurso demagógico dos prefeitáveis.
Nas ciências políticas é consenso (consenso é diferente de unanimidade) o discurso de que a Democracia é o melhor dos sistemas políticos. Nos seus primórdios Aristóteles previu que da democracia nasceria a tirania. Recentemente Foucault acusou a Democracia de a ditadura da maioria. São três frações da verdade universal. De minha parte comungo com aqueles que enxergam na Democracia a resposta legalista a tragédia, quando em cada pleito eleitoral a turba elege seus facínoras preferidos num jogo cuja cidadania é covardemente ofendida pela astúcia dos catalisadores de ilusões alheias, corrompendo a realidade ao construir novas mentiras na única defesa do ethos econômico.
Agravando nossa conjuntura sofreremos ainda as consequências nefastas de vícios acumulados no sistema corrompido de financiamento de campanhas eleitorais com erário da viúva, somado ao oligopólio midiático o resultado é a falação alarmista entre prefeitáveis. Eleger um bom prefeito é votar indiretamente numa constelação de pessoas do bem cujo senso de dever público viabiliza propostas justas na gestão da coisa pública; o contrário é o loteamento vil de todos os escalões do Paço e a posse no Poder Legislativo da abjeta horda de canalhas ávidos em lesar a fazenda pública. Vale ressaltar que toda eleição municipal é a véspera da eleição estadual, por isso o sagrado voto que torna todos iguais valerá o dobro, de modo que, ou se combate agora os candidatos de personalidade e intenções duvidosas ou o preço será altíssimo em fatura cobrada com juros de mora aos cidadãos de bem. Em outros termos; ou age-se imediatamente ou a omissão nunca nos perdoará.
Nesta contenda eleitoral os candidatos explorarão a dor da perda de entes amados na violência do trânsito urbano de Goiânia; a agonia de enfrentar ônibus transbordando de almas na lida cotidiana (dever constitucional do município – Artigo 30, inciso V); a tristeza irreparável da mãe que perdeu o filho para o tráfico de drogas e ainda teve de enterrá-lo (dever constitucional da União – Artigo 21, parágrafo XXII); a aflição e tensão em face de sucessivos furtos e roubos aos milhares de trabalhadores (dever constitucional do Estado – Artigo 25, inciso 1º); a amargura visceral gerando desespero no espírito quando se busca socorro em hospitais (dever constitucional de todos os entes federados). Ao não ver o retorno dos impostos, taxas e contribuições estes dramas suscitam resignação e desesperança. Lamento imputar, mas estes ingredientes são ardilosamente manejados pelos candidatos à prefeitura de Goiânia. Maravilhoso se alternativas houvesse que ao menos mitigassem a via sacra que nos fragilizam, contudo, a cruel realidade estimula o duvidoso caráter por parte de desequilibrados que nas redes sociais encontra condições ideais de apresentar soluções raivosas ante as perdas alheias.
A sombra diabólica vive à espreita de nosso espírito e em nosso meio espalhafatosamente se dispõe a ocupar, no vácuo das ausências de buenas personas, o cargo público mais importante da municipalidade. Neste momento é imperativo a atuação de bons líderes combatendo as anomalias criadas pela Democracia no tocante a coligações partidárias que apresentam ao eleitorado figuras anormais e sem pudor vendem, se preciso, a própria mãe. A republicana Goiânia não pode se transformar numa Gotham City vivendo sob a obscura proteção de um sociopata travestido de Batman. Mas por onde andam os agentes políticos probos? A voz histriônica assusta quem ainda preserva a lucidez. Notoriosos agentes mefistofélicos encontraram na banalização do crime a oportunidade ideal de se apresentar como salvador e a História ensina ser infeliz a pátria que precisa de heróis, no entanto as péssimas condições políticas e econômicas de nossos dias viabilizaram a proposta da repressão policial a todo custo como meio eficaz de solução aos dramas da sociedade.
Por sua vez o jornalismo que deveria servir como meio de denúncia dos delitos tornou-se a melhor e a mais perigosa plataforma eleitoral ao palanque dos reacionários. Parece que interessa à imprensa sustentar, num círculo vicioso, agentes e grupos econômicos ao se beneficiar do alarmismo midiático através de engenhosa publicidade advinda de empresas privadas de segurança com proprietários “laranjas” a serviço de sócios ocultos. De modo semelhante, porém igualmente velado nesta eleição municipal, o eleitor se não for seduzido na disseminação do discurso conservador será arrebatado pela pulverização de carismáticos discursos religiosos que na essência abrigam condutas fascistas escudados na cantilena do liberalismo, do livre-arbítrio e na homilia da predestinação dos divinamente selecionados a governar.
Lamentavelmente, em 2014, Goiás elegeu sua vociferante “bancada da bala” ao Congresso Nacional, cuja “promessa” era tolerância zero com a criminalidade no Estado. Chama bastante atenção o acesso ao site (www.ssp.go.gov.br). Dois anos depois os dados oficiais (sempre é possível encontrar “autoridades” que subnotificam informações sob ordens superiores), segundo o registro integrado de atendimentos da SSP/GO são análogos em sede dos homicídios dolosos, (assassinato intencional) com 628 vítimas em 2014, ano da eleição dos atuais 17 deputados federais, governador e senador, e 553 mortos em 2015. Soma-se a este ano, segundo o site da SSP/GO, mais 03 feminicídios. A exemplo dessa monta, Churchil dizia que só confiava em estatística quando ele as manipulava. A estatística oficial categoricamente afirma que houve queda de 30.4% nos crimes dolosos contra a vida, entretanto ao conferir os dados de Goiânia a verdade é que a redução (se de fato houve) foi de parcos 15.4%. Sempre é bom repetir que números frios aos olhos leigos peremptoriamente cria outra realidade. Por derradeiro nesta seara pode-se enxergar que há, em Goiás, especialistas em segurança pública que mapeiam a nódoa penal, contudo há também manipuladores do Direito que maquiam os dados da mancha criminal. É o poder da farsa e seu modus operandi de fazer escolhas políticas. E assim caminha a largos passos (ao abismo) a política de (in) segurança pública goiana.
Na mesma face de outra moeda a melancólica social democracia em Goiânia não consegue combater o bom combate eleitoral, pois comente o erro da sórdida empáfia de apresentar ao eleitorado candidatos sem lastro com a comunidade, além da contagiosa aliança com a antiga e vingativa UDN, com sua ainda poderosa força na máquina estatal. E agravando o quadro sucessório o messiânico Iris Rezende, o animal político hobseniano por excelência, neste pleito resolveu se ausentar na hora mais inoportuna para Goiânia ante a presença de candidatos obtusos num cenário nacional confuso para um eleitorado difuso cuja conexão é o acúmulo de dores com perdas individuais e decepções coletivas.
Poucos conhecem as causas explicativas da sistêmica da atual crise degeneradora de todos os extratos sociais. Da perplexidade apenas surgiram frágeis respostas legalistas sobre a catástrofe que ameaça o status quo de quem comanda os contrapesos do Estado Democrático de Direito haja visto que detém a retórica midiática e contra àqueles que ofendem a Lei aplica-lhes sua teratológica Justiça, contudo a omissão do Estado carregada de ódio ao humanismo libertário abriga práticas genocidas ao não tratar com seriedade e respeito os menos favorecidos em opções positivadas de práticas eugênicas contra os marginalizados da República.
Dificílima batalha criticar a Democracia que é o menos pior (até quando?) dos sistemas políticos, todavia no front oposto é consenso que o modelo representativo sendo espécie da democracia indireta, ao menos no Brasil, esgotou-se. Esta premissa impõe-nos o dever cívico de rediscutir garantias constitucionais. Oxalá, seja eu somente mais um cético, e as urnas de outubro sufraguem alternativas que ao menos garantam um espírito de moralidade no trato da coisa pública (não creio que haja, nesta disputa, candidato com este know how) e não se torne esta eleição a urna funerária sepultando nossas escassas esperanças!
(Nilton César Guimarães Rezende. [email protected])