As usinas hidrelétricas de Sobradinho, Machadinho
Redação DM
Publicado em 25 de janeiro de 2016 às 22:38 | Atualizado há 10 anos
A privatização da Celg ganhou um novo sentido ante a competente articulação do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Urbanas de Goiás – Stiueg, a poderosa Central Única dos Trabalhadores – CUT, a representação dos funcionários e de outros movimentos sociais em torno de um único objetivo: o de evitar a privatização da empresa.
Para quem, como este escriba, observa o desenrolar desse processo de luta política, julgo ser oportuno relembrar o resultado, em duas diferentes regiões do País, dos efeitos da mobilização da sociedade em torno da construção da usinas hidroelétricas e suas consequências na vida das pessoas que dos rios obtêm sua fonte de sobrevivência. Falo da construção da Usina Hidroelétrica de Sobradinho, na Bahia; e Machadinho, no Rio Grande do Sul.
Sobradinho dista exatamente 40 quilômetros da cidade baiana de Juazeiro. A usina foi ali construída nos duros anos da ditadura militar, num ambiente autoritário e com uma população altamente desmobilizada para resistir à não construção dessa. Resultado: milhares de pessoas foram deslocadas para cerca de 700 quilômetros de distância. Uma população unida pela sobrevivência da pesca e dos laços culturais de muitos anos de convivência em comum que não queria sair dali.
Vale ressaltar que o Estado autoritário impôs sua vontade a uma população altamente desmobilizada politicamente. Sem mobilização política, não houve resistências contra os desmandos do governo. Tudo era possível em nome do “desenvolvimento”, em uma época que os militares fizeram dessa área uma estratégia de governo.
Resultado oposto se observou na tentativa que o Estado fez no sentido de construir a Usina de Machadinho, numa região de forte tradição quanto ao movimento campesino organizado por meio dos sindicatos para reivindicar seus direitos a partir de políticos: o Rio Grande do Sul.
Lá a elevada consciência política levou os movimentos sociais a resistirem ante a força impositiva do Estado. Resultado: a população não achava, na época, importante a construção de Machadinho – e ela não foi construída. O governo não conseguiu impor sua vontade por efeito de forte mobilização da população.
Posto isso, é mais que oportuno o exem-plo supramencionado para se entender os dois importantes momentos na história da Celg. O primeiro desses momentos se refere à privatização do maior ativo da empresa ocorrida em 1999, que se deu nos subterrâneos do poder, com direito a inconcebível superfaturamento do contrato de compra de energia, por conseguinte, provocando colossal prejuízo de mais de um bilhão de reais aos cofres da empresa. A sociedade não resistiu porque não estava mobilizada para isso.
A privatização da Celg é outro importante momento na vida da empresa. E, por isso, volto ao início deste artigo: não deixa de ser positivo o fortalecimento das forças de resistência. De duas, uma: ou a empresa não será privatizada ou ela será privatizada. Nessa última hipótese, não tenho dúvidas de que o governo pagará um preço político devidamente registrado pela história. É o efeito da mobilização que traz a luz do sol para o processo.
(Salatiel Soares Correia é engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético. É autor, entre outras obras, do livro Energia na Região do Agronegócio)