Brasil

Batuque

Redação DM

Publicado em 13 de fevereiro de 2018 às 21:11 | Atualizado há 8 anos

Tu­do mu­dou. Car­na­val tam­bém. O Axé es­tá des­ban­ca­do, ago­ra é Funk. Não en­tro em de­ta­lhes por não acom­pa­nhar o as­sun­to. Leio is­so nos jor­nais.

Sei que os en­ten­di­dos di­zem que car­na­val sem sam­ba não é car­na­val. Pen­so que têm ra­zão e, por es­te ân­gu­lo, até dá prá dar uns pi­ta­cos. De le­ve, cla­ro.

O rit­mo do sam­ba es­tá nas raí­zes his­tó­ri­cas do Bra­sil. Não se pro­gri­de na mú­si­ca po­pu­lar bra­si­lei­ra sem pas­sar pe­lo sam­ba. Gran­des com­po­si­to­res e in­tér­pre­tes na­ci­o­nais se des­ta­cam e são ad­mi­ra­dos mun­do afo­ra. Ali­ás, o Bra­sil é co­nhe­ci­do pe­lo sam­ba. Sem­pre faz su­ces­so e não po­de fi­car fo­ra, es­pe­ci­al­men­te nas fes­tas po­pu­la­res. Aqui, até per­ni­lon­go sam­ba o zu­im, zu­im.

A dan­ça é sim­ples mas o rit­mo é com­ple­xo, se­gun­do os es­pe­cia­lis­tas en­ten­di­dos do as­sun­to. Ou­vi ex­pla­na­ção do ma­es­tro Isa­ac Ka­rabtchevsky que com­pas­sos do sam­ba po­dem ser sub­di­vi­di­dos em par­tes. O seu es­tu­do rít­mi­co exi­ge com­pe­tên­cia, por­tan­to. Não é sim­ples co­mo pa­re­ce.

A in­ter­pre­ta­ção mu­si­cal do sam­ba é ou­tra es­pe­cia­li­da­de que di­fe­ren­cia os ar­tis­tas. Exi­ge ha­bi­li­da­des que vão além da voz. Gran­des in­tér­pre­tes sa­bem os se­gre­dos das nu­an­ces su­tis em­bu­ti­das nes­se rit­mo. Já o gin­ga­do ( bam­bo­leio, re­que­bro ) é ou­tra con­ver­sa.

A ex­pres­são cor­po­ral que acom­pa­nha os com­pas­sos do gin­ga­do clás­si­co bra­si­lei­ro é mui­to es­pe­ci­al e não po­de con­ter exa­ge­ros. Bus­ca a ele­gân­cia e mos­tra to­da a su­ti­le­za do an­da­men­to mu­si­cal.

E o mais in­te­res­san­te é que tu­do co­me­ça com um ba­tu­que. É o anún­cio da fes­ta. Vem que vai ter um ba­tu­que, di­zem. Ho­je, aqui tem. Ve­ja e sin­ta a be­la amos­tra da com­po­si­ção de Jo­ão da Ba­hi­a­na:

“Ba­tu­que na co­zi­nha

Si­nhá não quer

Por cau­sa do ba­tu­que

Eu quei­mei meu pé”

On­de tem sam­ba, tem ale­gria. En­tão, va­mos lá, gen­te. E va­mos pu­lan­do, que exer­cí­cio faz bem pa­ra a sa­ú­de. O bom é que a mú­si­ca sa­dia ale­gra o co­ra­ção, es­pe­ci­al­men­te do so­fri­do po­vo bra­si­lei­ro.

Mas, res­tam per­gun­tas que não que­rem ca­lar na mi­nha ca­cho­la: quem dan­ça e pu­la car­na­val é po­vo so­fri­do? Es­ta­rí­a­mos vi­ven­do no Bra­sil um con­tras­te re­a­lís­ti­co-fan­ta­sio­so di­an­te de tan­tas ma­ze­las so­ci­ais e po­lí­ti­cas?

Ai, ai… que ba­tu­que di­fí­cil. Acho que quei­mei meu pé!

 

(Fran­cis­co Ha­ber­mann é pro­fes­sor da Fa­cul­da­de de Me­di­ci­na da Unesp de Bo­tu­cau. Con­ta­to: fha­[email protected])

 

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