Belkiss, ilustre musicista
Redação DM
Publicado em 28 de novembro de 2017 às 23:32 | Atualizado há 9 anos
Pianista consagrada, tanto no Brasil como no exterior, Belkiss nasceu na cidade de Goiás, no ano de 1928, e faleceu na cidade de Goiânia, em 2005, com apenas 77 anos de idade. Era uma pessoa iluminada, que deixava transparecer simplicidade, característica inerente aos seres dotados de talento, cultura e personalidade.
Sua família era originária de Ouro Preto. O bisavô da ilustre professora, o maestro Francisco Vicente Costa, e a bisavó, Angélica Honorata Torres, foram figuras de destaque na música em Minas Gerais. Ele, talentoso pianista e violinista; ela, além de pianista, cantora. Ambos produziam música de elevado valor artístico.
Sua avó, Nhanhá do Couto, eminente musicista e professora, fez seus estudos com o pai, que logo lhe reconheceu o talento, foi o principal incentivador de sua carreira, na qual depositou grandes esperanças.
Após o casamento com Manuel Luís do Couto Brandão, Nhanhá transferiu-se para a cidade de Goiás. A ilustre pianista trouxe de Minas Gerais para Goiás conhecimentos musicais, artísticos e educacionais. Radicada nessa cidade, aos pés da serra Dourada, lugar onde se realizavam concertos, encenavam peças de teatro, cultivavam literatura e artes, ela surgiu com ideias inovadoras, baseadas nos projetos de seu pai de sempre divulgar a música, estivesse onde estivesse.
Belkiss, além dos genes de musicalidade herdados da família materna, trazia também no sangue um DNA proveniente do velho mundo, graças à ascendência italiana paterna de quem herdou o sobrenome Spenzieri. Num ambiente de musicalidade, teve como mestra a avó, que bem cedo percebeu o seu potencial e fez o possível e o impossível para lhe proporcionar uma educação esmerada a fim de que galgasse o mais alto patamar no mundo da música.
Acostumou-se, desde a mais tenra idade, a apresentar-se em público, cantando, tocando piano e violino, circulando pelo mundo artístico como se esse fosse sua própria casa.
Bem cedo, foi com a avó para o Rio de Janeiro, para estudar na Escola Superior de Música da Universidade do Brasil. Os professores ficaram surpresos quando ouviram aquela menina, vinda do interior de Goiás, tocar os Estudos completos de Chopin, O Cravo Bem Temperado de J. S. Bach e outras peças de difícil execução, bem acima do nível do curso pleiteado.
Quando retornou a Goiânia, a intenção de Belkiss era divulgar a música no Estado. Para tanto, resolveu juntar-se ao maestro belga Jean Douliez, às professoras Maria Lucy Veiga Teixeira (D. Fifia), Maria Luísa Póvoa Cruz (D. Tânia), e Dalva Maria Pires Machado Bragança, para fundar o Conservatório de Música, mais tarde Instituto de Artes e, atualmente, Escola de Música e Artes Cênicas, instituição da qual foi diretora durante vários anos.
Belkiss apresentou-se como concertista no Brasil e no exterior. Foi solista de grandes orquestras, gravou vários discos, escreveu livros, artigos para revistas especializadas e jornais, pertenceu às mais importantes Academias de Música e de Letras, recebeu grandes prêmios e muitas homenagens. Seu talento foi reconhecido no meio artístico-musical, participou de bancas examinadoras nas mais importantes universidades e recebeu em sua casa alunos provenientes de diversas partes do mundo. Foi uma artista consagrada.
O Estado sente-se reconhecido com a semente por ela plantada em seus alunos, que a fizeram brotar e se multiplicar por gerações. O resultado é o progresso alcançado pela música em Goiás, indubitavelmente graças ao seu espírito empreendedor, aliado a uma mente aberta que transcendeu o seu tempo. Essa herança nos foi legada por um ser especial que só aparece raramente, mas, semelhante a um cometa, deixa o brilho do seu rastro impregnado no céu.
Merecidamente, com festas e homenagens, foi instituído pela Seduce o Ano Cultural Belkiss Spenzieri Carneiro de Mendonça, compreendido entre 15 de fevereiro de 2017 e 15 de fevereiro de 2018, data do seu aniversário natalício.
Aflag completou 48 anos de cultura
O 48º aniversário de fundação da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag) foi comemorado no dia 9 de novembro, na sede da entidade, com uma série de atividades culturais. O encontro foi aberto pela presidente Alba Lucinia de Castro Dayrell, que se disse orgulhosa de pertencer a um grupo tão seleto de intelectuais que fazem a diferença, observando “que nestas quase cinco décadas a Aflag vem contribuindo para a preservação do patrimônio artístico herdado de nossas antecessoras”.
Para falar sobre a entidade, a acadêmica Ana Maria Taveira Miguel traçou um histórico desde a fundação em 1969, quando as escritoras Rosarita Fleury, Nely Alves de Almeida e Ana Braga decidiram reunir mulheres que se distinguiam nas letras e artes de Goiás para integrar a nova associação. Ana Maria observou que a Aflag sempre buscou interagir com a comunidade, participando ativamente da vida cultural do Estado, em lançamento de livros, publicação de artigos, declamações, entrevistas, palestras, apresentações musicais e saraus. Sua fala deu especial atenção à poetiza Cora Coralina, patrona da Cadeira n° 5 da Academia, considerada por muitos a maior escritora goiana de todos os tempos.
O governador Marconi Perillo encaminhou mensagem, lida na solenidade pela secretária de Estado de Educação, Cultura e Esporte, Raquel Teixeira, destacando que o “amor, o talento, a competência e a dedicação marcam a história da Aflag nestes 48 anos”. Raquel, por sua vez, reafirmou a parceria da Seduce nas atividades da Aflag, citando como exemplos o concurso de redação Cora Coralina, ocorrido em agosto deste ano, e o recital de piano com o consagrado musicista carioca José Carlos Vasconcellos, no dia 12 de novembro.
A manhã do dia 9 também foi marcada por apresentações musicais da pianista Maria Lucy Veiga Teixeira, ora a quatro mãos com Consuelo Quireze, ora acompanhando a cantora Walda de Almeida. Elizabeth Fleury, Alba Dayrell, Ercília Macedo Eckel e Sônia Ferreira completaram a manhã declamando belas poesias.
Recital de piano em homenagem a Belkiss
O pianista carioca José Carlos Vasconcellos, que se apresentou no Teatro Goiânia, na manhã de 12 de novembro, classificou a musicista goiana Belkiss Spenzieri Carneiro de Mendonça como “uma lenda do piano brasileiro”. O recital de Vasconcellos foi uma promoção conjunta da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag), Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte (Seduce) e Academia Nacional de Música (sediada no Rio de Janeiro) e teve como objetivo justamente homenagear Belkiss, que morreu em Goiânia, em 2005, aos 77 anos de idade.
O pianista enalteceu a iniciativa das três entidades culturais por valorizar o que há de melhor no Brasil em termos de música erudita. Referindo-se à homenageada, destacou sua opção de ficar em Goiás e aqui estabelecer uma verdadeira escola para a formação de um centro de cultura e de música. “Não conheci dona Belkiss pessoalmente, mas admiro a sua obra e sei de sua predileção pelos autores brasileiros e seu pioneirismo em lançar autores até então desconhecidos”, afirmou.
O músico fez também um agradecimento especial à presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, Alba Lucinia Dayrell, e à acadêmica da Aflag Elciene Spencieri, sobrinha de Belkiss.
O programa do recital constou de músicas de Alberto Nepomuceno (Prece), Henrique Oswald (Valsa Lenta), Leopoldo Miguez (Noturno op. 10), Francisco Mignone (Valsa de Esquina nº 8 e Caiçaras). O ponto alto foi a performance do pianista na execução de Heitor Villa-Lobos (Canto do Sertão e Impressões Seresteiras), Chopin (Noturno op. 9 nº 2) e Liszt (São Francisco de Paula caminhado sobre as ondas). Veementemente aplaudido pela plateia, Vasconcellos retornou ao piano para apresentar a Lenda do Caboclo, de Villa Lobos.
José Carlos Vasconcellos é conhecido por apresentações ao vivo na Rádio Nacional e concertos de piano em todo o Brasil. Participou de festivais internacionais de música em Portugal, Espanha e Itália. Antes da carreira solo, integrou um duo ao piano com a professora Aracy Pereira da Silva.
(Alba Lucínia de Castro Dayrell, presidente da Aflag)