Brasil

Brasil nunca mais

Redação DM

Publicado em 12 de janeiro de 2017 às 01:04 | Atualizado há 10 anos

Em 14 de dezembro de 2016, o Brasil e o mundo foram surpreendidos com o anúncio da morte de Dom Paulo Evaristo, cardeal Arns, arcebispo emérito da cidade de São Paulo. Seu nome foi lembrando como Cardeal da Esperança, amigo dos pobres e oprimidos, defensor dos injustiçados por regimes opressores, expoente da Igreja Católica na doutrina teológica da libertação.

A história de Dom Paulo iniciou na data de 14 de setembro de 1921, em Forquilhinha, Estado de Santa Catarina, data de seu nascimento. Ainda jovem frequentou seminário franciscano e ordenou-se sacerdote na ordem franciscana. Foi indicado pelos superiores religiosos a estudar Teologia na Universidade de Sorbone, na França, recebendo o título de doutor em Teologia. De volta ao Brasil, tornou-se professor de escolas superiores franciscanas e também em universidades.

O que sempre o distinguiu foi o amor e dedicação pela causa do povo simples ao qual dedicou sua missão pastoral. O papa Paulo VI o nomeou bispo auxiliar de São Paulo, à época do regime militar, posteriormente cardeal. Arns tomou como lema de sua luta, em defesa dos injustiçados da ditadura, a igualdade de direitos e liberdade de expressão.

Leornado Boff, teólogo da libertação, assim se expressou sobre o cardeal: “O que sempre me impressionou nele foi seu amor e o afeto franciscano pelos pobres. Feito bispo auxiliar de São Paulo ocupou-se logo com as periferias, fomentando as comunidades eclesiais de base e empenhando pessoalmente Paulo Freire. Como era tempo da ditadura, especialmente férrea em São Paulo, logo assumiu a causa dos refugiados vindo do horror das ditaduras da Argentina, do Uruguai e do Chile. Sua missão especial foi visitar as prisões, ver as chagas das torturas, denunciá-las com coragem e defender os Direitos Humanos violados barbaramente. Correu riscos de vida com ameaças e atentados. Mas como franciscano, sempre mantinha a serenidade como quem está na palma da mão de Deus e não nas garras dos policiais da repressão.”

Dom Evaristo acompanhou o teólogo Boff ao Vaticano para defendê-lo diante do Tribunal da Inquisição presidido pelo então cardeal Ratzinguer – depois Bento XVI que o julgava pela doutrina da Teologia da Libertação.

Um ponto marcante na vida do cardeal foi o projeto Brasil Nunca Mais desenvolvido por Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel, o pastor presbiteriano Jaime Wright e equipe. O trabalho foi realizado clandestinamente entre 1979 e 1985, durante o período final da ditadura civil e militar instalada no Brasil, e gerou uma importante documentação – livro intitulado Brasil Nunca Mais – sobre a história do País. Ele sempre manteve uma relação ecumênica com outras religiões.

Outro projeto importante para o Brasil e a Igreja foi a criação da Pastoral da Criança e desenvolvido pela sua irmã, Zilda Arns, apoiado por ele, que muito tem feito em prol dos infância, jovens e adolescentes.

Sua influência no episcopado brasileiro foi muito grande, atraiu vários seguidores como Dom Fernando (Goiânia); Dom Helder Câmara (Recife); Dom Pedro Casaldáliga (São Félix do Araguaia) dentre muitos outros. O Papa Francisco enviou a seguinte mensagem à CNBB: “Agradeço a Deus por ter dado à Igreja um pastor tão generoso e faço intensas orações para que Ele dê eterna alegria para seu bom e fiel servo. Dou à comunidade arquidiocesana em luto pela perda e à Igreja do Brasil, que encontrou nele um ponto de referência, e aqueles que compartilharam esse momento de tristeza, o conforto da bênção apostólica.”

Esta é a figura da esperança que deve trazer para todos nós a certeza de um Brasil mais justo, solidário, fraterno e esperançoso no ano que se inicia.

 

(Gil Barreto Ribeiro, professor emérito da PUC-Goiás; diretor editorial da Editora Espaço Acadêmico)

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia