Brasileiros fragmentados
Redação DM
Publicado em 6 de agosto de 2016 às 03:44 | Atualizado há 10 anosQuem sabe sentir o “estado de espírito” dos próximos, o “inconsciente coletivo”, ou seja, lá o que equivalha ao modo de ver-se, ver o mundo e compreender o significado de nossa existência, perceberá que os brasileiros de 2016 não passam de blocos empilhados que, outrora, formaram um edifício e, no futuro, quer-se que seja uma residência nacional razoável, capazes de nos abrigar como um povo provido de seus razoáveis direitos.
Esse sentimento de estar em ruínas decorreu dos mais sensíveis fatos históricos. A enorme massa popular que tomou as ruas aos domingos. Aqueles menores segmentos, organizados e embandeirados, que nem por isso devem ser ignorados, ao imaginar-se um país minimamente civilizado.
O contraponto murado entre eles não foi bom. As dissidências entre famílias, pais e filhos, irmãos, namorados, casais que nada discutiram há anos, foram boas no sentido de tornar o privado público, de escancarar a república como uma parte de nosso ser; de dar-se a cara para bater e deixar de fingir ante a verdade como avestruz. Entretanto, foi ruim ao dissolver laços que não deveriam ser dissolvido em razão do gerenciamento da coisa pública.
Todavia, o pior de tudo veio da classe política, outra ave que enterrou imediata e profundamente as cabeças sob os areais. Cabia aos políticos e à alta magistratura procurar interpretar, dar o devido sentido a esses movimentos, incuriais em nossa história. Não fazer como fizeram, falar demagogicamente em reformas e não fazê-las, porque fazê-las é derruir seus arraigados privilégios. Um espírito rondou as ruas e praças e os políticos não tiveram forças sequer para tentar interpretá-lo.
Está evidente o vazio, a falta de lideranças que dialoguem com todo esse povo, interprete, se conseguir, o momento em que vivemos, e aponte os caminhos a serem trilhados. Poderiam errar, mas teriam tido a coragem de falar francamente ao povo brasileiro.
Não. A saída era o impeachment, necessário, mas não a saída. Idem a deposição de Eduardo Cunha. O mesmo se diga de processos judiciais, por mais que tenham por objeto relevantíssimos temas e resvalem para o ativismo político, estranho a quem ocupa um poder como vassalo das leis. E foi esse o melancólico panorama de nossa vida política nos últimos meses, que se seguiram aqueles eventos historicamente inigualados.
Os brasileiros, não somente os que foram às ruas, mas todos vivem um momento em que se sentem “desgarrados”, “forasteiros” em sua própria nação e Estado, em suma, “desajustados”.
O homem que não se completa e não se relaciona em seus aspectos, pessoal, social e espiritual é um ser fragmentado e deprimido. Não tem forças, inclusive para criar e empreender. Ao presenciar desmandos e novas falcatruas como as que cercaram as olimpíadas, além daquelas diariamente noticiadas, não se sentem cidadãos agrupados e esperançosos.
A quem cabia preencher o vácuo de liderança? Obviamente, ao político que substituiu a Presidente. E que deverá permanecer. Sua justificativa está em sua provisoriedade. Não convence. A liderança é ligada ao carisma e o carisma à vontade de galvanizar multidões para a passagem de uma ideia. Parlamentarista, deveria enfrentar com frequência o Parlamento para expor suas cogitações e, sem problemas, suas angústias, que devem ser compartilhadas com o outro poder. Além disso, encarar semanalmente o povo, pelos mecanismos que, antes, eram reduzidos aos rádios e palanques, e melhor utilizados. Contudo, a prioridade foram os compromissos, os bastidores, as falas baixas, a indicação e deposição de Ministros. Isso é importante, dr. Temer, mas sua função, nesta quadra, queira ou não, é iluminar esse povo, que parece navegar por um mar sem porto, desequilibradamente, à deriva. Sabe-se de muitas medidas provisórias e outras providências do governo provisório. Aqueles bravos que fizeram a história, neste ano, de nada sabem.
Não à toa dizia o deputado Ulisses Guimarães que, no político, a virtude primordial é a coragem.
(Amadeu Roberto Garrido de Paula, advogado subscritor da respectiva petição inicial e poeta. Autor do livro Universo Invisível, membro da Academia Latino-Americana de Ciências Humanas. Esse texto está livre para publicação. Se precisar de mais informações ou quiser agendar uma entrevista com Amadeu Garrido de Paula entre em contato na De León Comunicações, nos telefones (11) 5017-4090//7604// 99655-2340 ou e-mail [email protected] ou [email protected])