Campanha, plano de governo e discurso de Zé Eliton são só retorno ao passado
Redação DM
Publicado em 15 de agosto de 2018 às 20:53 | Atualizado há 8 anosNesta quinta, 16, hoje, portanto, a campanha do governador Zé Eliton fará o seu comício inaugural em Goianésia, mesma cidade em que todas as campanhas do Tempo Novo, de 20 anos para cá, foram iniciadas. É tradição, é para dar sorte, é para relembrar as caminhadas vitoriosas de Marconi Perillo, justificam as figurinhas mais batidas do sistema de poder que comanda Goiás desde 1999 – século passado, como se sabe.
Mas há outra interpretação. Repetir o surrado comício de Goianésia é negativo para Zé Eliton, que com isso apenas confirma que é continuidade (ou continuísmo, dá no mesmo) de Marconi, que é mais do mesmo, que não tem personalidade própria, que vai seguir repisando práticas envelhecidas, simbolizadas no evento introdutório da sua campanha. Acrescente-se a isso a presença do ex-governador e do seu grupo imediato na campanha de Zé Eliton, mantendo acesa e forte a principal mancha que o eleitorado enxerga no candidato tucano: é um fantoche, um pau mandado, um político sem identidade, um segundinho, uma sombra de Marconi, a garantia de que nada vai mudar e que tudo de bom e de ruim que foi a marca dos últimos 20 anos de poder seguirá vivo nos próximos quatro anos se o atual governador vencer a eleição. Isso tira votos.
Se tivesse autonomia – e coragem – Zé Eliton faria o seu comício da abertura na praça em que o eleitorado é mais hostil a ele, Aparecida, 2º maior colégio eleitoral do Estado. Seria um ato de afirmação. Uma prova da mudança que ele apregoou em seu discurso de posse, sem cumprir. Em Aparecida, conforme as pesquisas, é preciso lupa para achar um voto no atual governador. Lá, dominam os Vilelas, depois das duas boas administrações de Maguito. O que Zé Eliton vai fazer em Goianésia?
MAIS DO MESMO
A base governista parece não ter entendido até hoje que haverá uma eleição daqui a menos de 50 dias e que, nessa eleição, o eleitor goiano irá decidir sobre o seu futuro e o do Estado de Goiás, não sobre o que já passou ou já aconteceu. Pior: quem ouve os discursos ou lê as entrevistas de Zé Eliton, Marconi Perillo, Lúcia Vânia, Raquel Teixeira e demais estrelas, maiores e menores, do situacionismo, conclui que a população tem a obrigação de mostrar gratidão por tudo o que foi feito nos últimos 20 anos e dar mais quatro, para que tudo continue do mesmo jeito.
Veja, leitor, o exemplo do plano de governo de Zé Eliton, lançado nesta semana. Em resumo, o que o candidato tucano propõe é fazer… o que já foi feito. Manter a Renda Cidadã, a Bolsa Universitária, o Cheque Moradia e tudo o mais que foi inventado por Marconi em quatro governos (e mantido na íntegra pelo seu poste Alcides Rodrigues em mais um) e que os goianos se deem por satisfeitos. Está em boa medida, imaginam os estrategistas palacianos.
Para a coligação comandada pelos tucanos, a finalidade da próxima eleição é apenas confirmar o que já passou, o que já foi feito, ou seja, o famoso “legado” de Marconi Perillo. Mas seria melhor apostar que, para o eleitor, essa eleição tem muito mais a ver com o que vem pela frente. Ninguém vive olhando pelo retrovisor, exceto os tucanos que mandam em Goiás há 20 cansativos anos.
DANIEL EM ALTA
O governador Zé Eliton tem à sua disposição a maior equipe de comunicação e marketing jamais montada para favorecer qualquer candidato majoritário em Goiás, em qualquer época. Mas com tanta gente ocupando o mesmo espaço, o resultado são as trombadas, a disputa pelos principais postos da campanha e uma dificuldade imensa para a definição da estratégia correta a ser seguida pela chapa tucana.
A última guinada desse pessoal foi a deflagração de uma campanha de ataques caluniosos ao líder das pesquisas, Ronaldo Caiado, que está praticamente 30 pontos – ou mais de 1.000.000 de votos – à frente de Zé Eliton. É um erro: em Goiás, nenhum candidato jamais virou uma eleição jogando bombas rasteiras nos seus adversários. O jogo sujo, geralmente, volta-se contra quem o faz.
A outra estratégia que os comunicadores palacianos estão desenvolvendo é ajudar o quanto podem Daniel Vilela, na esperança de que, ao dividir a oposição, no final das contas Zé Eliton seja de alguma forma beneficiado. É engraçado ver os blogs e jornais governistas tratando as notícias do candidato emedebista com carinho e zelo, chegando até mesmo a elogiar suas propostas e posicionamentos.
Mas há um problema: Daniel Vilela é um candidato perigosíssimo, seja pela sua juventude, seja pela capacidade de expressão e formulação de ideias. Isso, quando a última pesquisa Serpes/O Popular revela que metade do eleitorado goiano gostaria de ver uma cara nova no governo do Estado, depois de duas décadas da mesma. Com o apoio que está recebendo do governismo (dizem que Marconi Perillo já o socorreu fazendo corpo mole ao não segurar o PP e o PRB na base governista e deixando-os escapar para a coligação do MDB), ele pode crescer, crescer e de repente parar em um eventual 2º turno com Caiado, deixando Zé Eliton na saudade – lembrando que Daniel segue empatado em 2º lugar nas pesquisas com o homem de Posse, verdadeira façanha para quem não dispõe de mínima fração da máquina governista a seu favor.
NOTÍCIAS FALSAS
A semana começou com o governador Zé Eliton e o ex Marconi Perillo postando nas redes sociais falas em que reclamam de notícias falsas, a exemplo, segundo os dois, das informações que circulam sobre dificuldades financeiras enfrentadas pelo Estado e a iminência de atrasos na folha de pagamento.
Mas os dois também produzem as suas notícias falsas. De viva voz, também em vídeos no Facebook e no Instagram, Zé Eliton e Marconi afirmam que o senador Ronaldo Caiado, em seus mandatos no Congresso Nacional, “nunca fez nada por Goiás”. Marconi foi mais agressivo ainda e disse que “o sr. Ronaldo Caiado nunca trouxe um prego para o Estado”.
Não é verdade, leitor. Nem poderia ser. É simplesmente impossível que alguém cumpra vários mandatos como deputado federal e meio como senador, caso do democrata, sem enviar emendas orçamentárias destinando recursos a municípios, entidades assistenciais e órgãos públicos do seu Estado de origem. Essas emendas são automáticas, um direito reconhecido aos parlamentares federais. Caiado já transferiu para Goiás verbas em valor superior a R$ 100 milhões de reais, em seus anos na Câmara e no Senado, conforme ele mesmo demonstrou, em resposta a Zé Eliton e Marconi, também em vídeos divulgados pelas suas redes sociais. No site do candidato do DEM, há dezenas de matérias reportando o encaminhamento desses recursos.
Não corresponde à verdade, portanto, o que Zé Eliton e Marconi estão dizendo. E é uma atitude incoerente e antiética, o que eles sabem muito bem, já que protestam com razão quando são alvo das notícias falsas. O que não é correto é como estão se comportando quando as vítimas são seus adversários e os dois os propagadores.
MORTO E ENTERRADO
Em teoria, caro leitor do Diário da Manhã, até um certo Marcelo Lira, apresentado como candidato pelo PCB, pode ser eleito e se transformar no próximo governador de Goiás. Afinal, se ele se registrar corretamente na Justiça Eleitoral e se, nas urnas eletrônicas em que o seu nome e a sua foto aparecerão, obtiver a maioria dos votos, nada haverá a discutir e teremos definido o próximo ocupante do Palácio das Esmeraldas.
Matematicamente, portanto, Marcelo Lira tem chances. Da mesma forma, o governador Zé Eliton também tem. Acrescentando-se condicionantes políticos, poderíamos até dizer que, de todos os postulantes, Zé Eliton é o que mais tem fatores a favor, a começar pelo fato de que é o principal beneficiário de uma imensa e gigantesca máquina de governo, com toda a sua profusão de recursos e vantagens imunes ao controle de qualquer legislação eleitoral.
Mas… não é bem assim. A dura realidade aponta para outro rumo, tanto para Zé Eliton como para Marcelo Lira. Ambas são candidaturas sem estofo, sem repercussão popular. É inacreditável: o nome lançado pela mais poderosa máquina política já construída em Goiás não tem chances de vencer a eleição e corre o risco de um humilhante 3º lugar, expulso do 2º turno, se houver. A seis semanas da eleição, é finalmente nesta quinta, 16, que a campanha de Zé Eliton vai começar, com o repeteco do comício de Goianésia e depois sair em desabalada carreira atrás do tempo perdido, propondo-se a percorrer histericamente, em cinco frentes, 203 cidades em pouco mais de uma semana. Você aí, morador de uma delas, se vir um risco passando, é a campanha dos tucanos. Isso, a mim, parece desespero.
(José Luiz Bittencourt, jornalista e autor do Blog do JLB – blogdojlb.com.br)