Carta a Papai Noel (urgente)
Redação DM
Publicado em 20 de novembro de 2017 às 21:31 | Atualizado há 9 anos
Olá, Papai Noel, tudo bem?
Espero que sim, e é o que desejo ao senhor.
Olha, em outras cartinhas que enviei eu disse que queria tanto dar uma voltinha no seu trenó, acho lindas as renas com os sininhos badalando aquela musiquinha gostosa tlim-tlim-tlim-tlim… Mas não deu certo até hoje, quem sabe um dia, né? Até compreendo, porque o senhor recebe todo tipo de pedido e do mundo inteiro, que nem sei se tem jeito de atender, mas a esperança continua.
Papai Noel, fiquei horrorizado. O senhor não há de ver que uma criancinha, na noite do Natal passado, colocou os sapatinhos na janela e de manhãzinha quando foi olhar o que tinha acontecido os sapatinhos não estavam mais lá, o senhor acredita?
Estou de coração partido, meu querido Papai Noel, porque aqui na minha terra, que me deu todas as oportunidades de melhorar de condições, já quase na hora de se dar e se receber presentes, a estatística confessa que pretos e pardos ganham, em média, 55,5% do rendimento dos brancos. O que é isso, Senhor Deus dos desgraçados?
Olha, Papai Noel, tem mais, a estatística ainda contou que aqui por nossas bandas, cheias de bandidos, ainda tem 13 milhões de seres humanos desocupados. E falta o de comer, de morar, de educar, o de acudir para que a perrenguice não aumente atingindo mais e mais os necessitados. “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura… se é verdade Tanto horror perante os céus…” Castro Alves.
O senhor acredita, Papai Noel, que a minha caçulinha, Milena, os filhos pensam mais do a gente, colocou um comentário abaixo da crônica que escrevi semana passada, que foi um dedo de fogo na minha consciência. Olha o que ela escreveu: “A situação deveria nos fazer refletir sobre o ‘verdadeiro’ sentido natalino que parece não fazer mais ‘sentido’ para a maioria das pessoas”. Daí o motivo destas mal traçadas linhas que mando para o senhor.
Papai Noel, o senhor é testemunha de que nos últimos anos eu tenho reclamado, escrito, escrito para ver se amoleço os corações dessa gente que governa. Não tem adiantado. Então, me restou orar, orar e guardar a fé.
Este ano, Papai Noel, não vou pedir nada, o senhor já deve estar de saco cheio. Receba o meu abraço entristecido.
(Iram Saraiva, ministro emérito do Tribunal de Contas da União)