Carta aberta aos herméticos de coração
Redação DM
Publicado em 30 de abril de 2016 às 00:56 | Atualizado há 10 anos
Great times are coming. Ouvi ou li isso não sei onde e tampouco me interessou, de imediato, saber. Por isso não quis me dar ao trabalho de digitá-lo no maravilhoso buscador da rede mundial para saber sua origem. Great times are coming. Soa bonito. Tem significado bonito. Vaticinante. Frase que nos leva a suspirar, ter esperança, acreditar que dias melhores virão. Lindo. O coração fatigado da gente parece encontrar motivos para seguir esperando que algo positivo vá acontecer, algo que recoloque o trem nos trilhos, se é que um dia esteve, e que dê jeito neste furdunço em que nos encontramos. Mas, trocando umas ideias com meus botões, caio na real concluindo, com eles, que essa esperançosa ideia nos coloca a reboque de um comodismo besta.
Então, com a frase na cabeça, uma avalanche de coisas me chegou, porque andamos irritados, cuspindo maribondos, pisando dessa altura, engolindo sapo de tudo quanto é tamanho, falando pelos cantos. Andamos uma pilha, resmungando por qualquer esbarrão na fila do supermercado ou olhar de travesso de quem não conhecemos. O tique-taque do relógio ouriça ainda mais nossos nervos, com seu compasso questionador e inoportuno. Se chegamos atrasados no compromisso, foi por conta de uma barricada de labaredas imponentes, e insistimos em pensar e apontar e culpar as mãos que riscaram o fósforo, e nunca aquelas outras mãos gatunas, leves, asquerosas, que avançaram no que não é seu, subtraindo o que seria para o bem comum. A vontade que temos é de mandar para aquele lugar todos que insistem em replicar o ovo de Colombo, batendo no peito e elegendo seu umbigo como detentor único da gravitação de tudo que existe, dos ciscos às estrelas. Temos estado também vulneráveis aos desencantos que se professam e se difundem por todos os lados, nos outdoors mexeriqueiros que nos tiram das vistas as árvores e os pássaros, e por vezes tentam nos refletir distorcidamente, querendo nos “narcisar” sempre mais e mais.
Atônitos e ainda mais exasperados, acompanhamos o que se passa a nossa volta e não nos sentimos capazes de mover uma palha. A gasolina que aumenta. O álcool também. Por que o preço do álcool acompanha o preço da gasolina, sendo produtos provenientes de matérias primas e de origens geográficas distintas? O cachorro não pode mijar no poste de luz, cuja conta está fielmente paga em dia, que ficamos no escuro. E sem energia elétrica, o que somos? Se a energia acaba, esmurramos o ar, imitando o rei do futebol, só de raiva, uma vez que fomos mal acostumados a dependermos tanto dela. E quando a queda de energia não abrevia a vida útil dos nossos humildes eletrodomésticos, comprados em suadas parcelas, nos resta dar graças a Deus, pois saímos no lucro. Chega o dia de pagar o imposto do carro ou da moto, honramos a duras penas para fazê-lo e ao sairmos às ruas nos deparamos com pistas esburacadas, mal sinalizadas e cheias de mato em suas margens. Uma pergunta, talvez retórica, se desenha: onde erramos, gente?
Sem “blablaísmos”, pensemos que nada vem de hoje. Isso eu já ouvi, podem estar pensando alguns. E não estão errados. Se a bola de neve, ao longo da história, explica muito do que acontece atualmente, explicaria mais claramente se imaginarmos que somos nós quem a embalamos e ao mesmo tempo estamos nela. Ela vem descendo, crescendo, ladeira abaixo, cada vez mais rápida, cada vez maior. Não vai parar? Não há barreira? Odeio política, grita um pregado nela. É preciso aprender a aprender – não foi erro de digitação – com certa urgência. Passa da hora de nos olharmos, bem profundamente, e reconhecermos que a jovialidade do nosso país, comparado com outras nações, não mais representa justificativa para sempre nos ambientarmos nossos viveres em comodidades, ignorâncias e apatias cívicas.
Are great times coming? Oxalá fosse apenas esperar por milagres nesse emaranhado de desilusões, que cumprem e fermentam tanto mais a inerme dúvida coletiva se o macaco come a banana ou se é a banana que abocanha o macaco. Quiçá houvesse em algum lugar no subsolo do Brasil o botão reset. Seria tão mais fácil começar do zero, como aquele aparelho que pifa suas configurações, sobrecarregado de vírus e aplicativos desnecessários. Seria bom se fosse possível nos formatar como um sistema de informática. Como não é, não há dúvida em dizer que o caminho deva ser o de reconhecermos nosso papel na sociedade, revisando todos os nossos conceitos, cada qual o seu, antes de darmos pitacos nos dos outros. Dos mínimos aos máximos e dos micros aos macros, provoquemos, cada qual, um renascimento de si.
Melhor iniciar isso o quanto antes. Urgente que seja. Como? Batendo panelas? Se acreditarem, o faça. Gritando? Quem sabe funcione. Esperneando histéricos? Se quiserem arriscar. Mudando-se do País? Pode ser que dê certo. (Titubeio agora em colocar o que deveras quero. Conto até três, pausadamente, revolvendo algumas palavras… Não parece ter adiantado. Hesito em dar solução simples a tão caótica perspectiva geral advindas de tantas mazelas arraigadas. Insisto. Há poucas palavras para as ideias. Aprisiono e liberto ideologias. Passam horas, passam dias, semanas se vão desde que comecei a escrever estas linhas. Não me dou por entregue. Não jogo a toalha. Que passem décadas, mas hei de terminar. Suspiro, coçando a barba, relendo o que até aqui está escrito. Deu vontade de jogar tudo fora. Daria mais alívio. Ficou tudo maior que eu imaginava. Quem sabe maior que eu. Haverá quem diga que a conclusão esteja chocha para o desenvolvimento do texto. Será? Não me importarei. Digam o que quiserem, desde que leiam, decido. A gente não escreve para agradar todo mundo. Que seja. Então é.) Arrisco a dizer, sob grande risco de ser discordado por muitos, mas não importando com isso, que dando um bom dia pleno e sincero a quem nunca vimos e que estará passando carrancudo do nosso lado pode ser um bom princípio de mudança e considerável ponto de partida. Se nos virar o rosto, não façamos o mesmo. Repitamos. Insistamos. There are great times inside us. Liberemos ações. Bom dia!
(Hailton Correa, agente prisional, graduado em Letras pela UEG de Inhumas e escritor. Contato: [email protected])