Castellinho
Redação DM
Publicado em 27 de julho de 2016 às 22:02 | Atualizado há 10 anosCarlos Castello Branco era seu nome, conhecido como Castellinho pelos que lhe eram próximos, apelido carinhoso em razão de sua baixa estatura. Nasceu em Teresina – PI em 1920 e faleceu no Rio de Janeiro em 1993. Além de ocupar lugar de destaque no jornalismo, é correto afirmar que pode ser considerado o maior e melhor comentarista político da história do Brasil. Tinha desejo de ser um escritor famoso, mas foi como jornalista que ficou célebre. Apesar de ter muitos conhecidos era de poucos amigos, talvez pelo fato de escrever não o que agradava as pessoas, e sim a verdade como ela era.
Castellinho cursou o primário e o ginasial em Teresina, transferindo-se ainda jovem para Belo Horizonte – Minas Gerais, com o objetivo de prosseguir seus estudos. Concluiu o curso de Direito em 1943, mas nunca exerceu a advocacia. Em belo Horizonte conheceu pessoas que se destacaram na vida cultural e política do país, tornando-se amigo de alguns. Entre outros, podem ser citados Carlos Drumond de Andrade, Otto Lara de Rezende, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Pedro Nava, Altran Dourado, Mario de Andrade Francelino Pereira, Pedro Aleixo, Gustavo Capanema, Milton Campos, Fernando Sabino, José Aparecido de Oliveira e Juscelino Kubitschek.
Transferindo residência para o Rio de Janeiro aumentou seu círculo de relacionamentos que foi consideravelmente acrescido com sua posterior mudança para Brasília, capital e viu nascer e crescer. Em razão da profissão aproximou-se de grandes nomes do jornalismo, como Assis Chateaubriand, Roberto Marinho, Samuel Wainer, José Américo de Almeida, Pompeu de Sousa, , Janio de Freitas, Odylo Costa Filho, Mino Carta, Elio Gaspari, Villas-Boas Correa, Nascimento Brito, Carlos Marchi, Ricardo Noblat, Armando Rollemberg e Abdias Silva.
Em meio século de jornalismo político Castellinho conviveu com treze presidentes da República, de Getúlio Vargas a Itamar Franco, passando por Juscelino Kubstichek, Janio Quadros (de quem foi Secretário de Imprensa), João Goulart, Humberto Castelo Branco (parente distante), Arthur Costa e Silva, a Junta Militar apelidada de “Três Patetas”, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel, João Figueiredo, José Sarney e Fernando Collor de Melo, período em aconteceram um suicídio, duas ditaduras, um impeachment, uma renúncia, pequeno tempo de parlamentarismo, uma deposição, duas redemocratizações e três Constituições.
No campo de relacionamentos constam pessoas que destacaram no mundo político, cultural e empresarial, valendo citar Fernando Henrique Cardoso, Thales Ramalho, Glauber Rocha, Roberto Campos, Amaral Peixoto, Benedito Valadares, Otávio Mangabeira, Magalhães Pinto, Oscar Niemeyer, Danton Jobin, Jorge Amado, Miguel Arraes, Afrânio de Melo Franco, Severo Gomes, Célio Borja, Bilac Pinto, Vera Brant, Neiva Moreira, Leonel Brizola, Afonso Arinos, Monteiro Lobato, , Oswald de Andrade, José Lins do Rego, Carlos Lacerda, Malba Tahan, Dinah Silveira de Queiroz, Sérgio Buarque de Holanda, Tom Jobin, Caio Prado Júnior, Vinicius de Moraes, Aurélio Buarque de Holanda, Antonio Carlos Magalhães, Leitão de Abreu, Florestan Fernandes, Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Aureliano chaves e Mario Covas. Fazendo diferença entre amizade íntima e simples relacionamento, de alguns foi amigo de verdade e de outros apenas manteve contatos necessários ao bom desempenho da profissão de comentarista político. Amigos ou simplesmente conhecidos, todos o respeitavam profissionalmente. Falava bem de quem não gostava e mal de quem gostava, dizendo sempre a verdade.
Como jornalista, mais especificamente comentarista político, trabalhou nos jornais Diário de Minas, Estado de Minas, Correio da Manhã, O Jornal, Diário Carioca, revista O Cruzeiro, Última Hora, Tribuna da Imprensa, Diário de Notícias, Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, entre os principais. Foi no Jornal do Brasil que se destacou profissionalmente escrevendo a “Coluna do Castello” durante mais de 30 anos, apreciada, lida e temida pelos políticos, pois era profundo conhecedor dos bastidores do poder e intérprete eficaz da realidade política. Manteve a coluna até o fim da vida, e pode-se dizer sem medo de errar que o Jornal do Brasil sobreviveu enquanto ele era vivo.
Durante os “anos de chumbo”, período da ditadura militar, cultivou o sistema de comunicação denominado de “entrelinhas”, que significa mandar uma mensagem não explicita na frase, dizendo uma coisa com palavras que não diziam isso claramente, mas que “nas entrelinhas” tinham o sentido do que pretendia dizer. Os comentários políticos de Castellinho ficaram famosos porquanto viveu e conviveu com a “censura”, escrevendo em sentido figurado aquilo que está implícito ou subentendido, permitindo a quem lia fazer uma ilação mental interpretando o texto. A sua linguagem cifrada resultavam em textos que permitiam o leitor entender o que ele queria dizer. Em vários momentos teve a coluna suspensa, mas nunca saiu do Jornal do Brasil. Não era alcançado pela censura em razão ser mais inteligente que os censores, dizendo o que pretendia mas sem escrever declaradamente. A Coluna do Castelo foi leitura obrigatória para políticos de todas as tendências e intelectuais de destaque, bem como para os brasileiros que viviam fora do Brasil espontaneamente ou por razões políticas.
Não quis se candidatar a qualquer cargo eletivo, sendo exceção o Sindicato dos Jornalistas de Brasília, exercendo Presidência por vários anos. Na direção do sindicato Castellinho enfrentava constantemente a censura e os militares, mas com diplomacia e inteligência, contornando as ameaças constantes de intervenção. Sob sua direção o Sindicato dos Jornalistas de Brasília foi um baluarte na luta pelo retorno da democracia no Brasil. Sua independência profissional o levou à prisão várias vezes, mas continuou na mesma linha informativa. Não era nem de esquerda nem de direita, mas apenas e tão somente jornalista. Não era rico nem pobre, apenas independente financeiramente. Apesar de membro da Academia Brasileira de Letras, parece que considerou mais importante sua eleição para Academia Piauiense de Letras.
Detentor de extraordinária capacidade de síntese, a sua coragem profissional resultava em análise política que relatava fatos antes de acontecerem mais que realmente aconteciam, razão pelo qual é considerado um dos ícones do pensamento político do Brasil. A sua coluna informativa e opinativa fazia jornalismo político que pode ser considerado patrimônio histórico da nação. Reconhecido pelo trabalho em prol da verdade, a leitura das colunas de Castellinho pelas futuras gerações podem ser tidas como retratos do Brasil que passou.
Sem intenção de fazer propaganda, para quem pretender conhecer os bastidores da política brasileira é recomendável a leitura do livro Todo aquele imenso mar de liberdade, que relata com precisão a dura vida do jornalista Carlos Castello Branco, conhecido como Castelinho.
(Ismar Estulano Garcia, advogado, ex-presidente da OAB-GO, professor universitário, escritor)