China e Brasil: visões de curto e longo prazos
Redação DM
Publicado em 10 de janeiro de 2017 às 00:55 | Atualizado há 10 anosAnalisando a década de 1990, a economia do Brasil cresceu, em média, 1,2% ao ano e a Chinesa, por seu turno, cresceu quase 10% no mesmo período. Especialistas da área econômica avaliam que o baixo crescimento por parte do Brasil deveu-se, parcialmente, à liberação repentina e ao mau planejamento do mercado interno, além das incertezas políticas oriundas da recente redemocratização do País. Já a China amadureceu suas exportações e teve uma alta taxa de investimento externo, além do planejamento minucioso do Estado, culminando com sua entrada na OMC, em 2001.
Outro quesito fragiliza a posição brasileira, qual seja o fato de ser grande dependente da demanda mundial pelas commodities, estando sujeito às suas oscilações de preço. Já o gigante asiático, em 2010, assumiu o posto de maior exportador do mundo e 2º maior importador, atrás somente dos EUA. A China alcançou esse posto graças a um portfólio que vai desde a indústria pesada, carros de passeio, brinquedos e tudo o mais que se possa pensar do mundo industrializado. O Brasil, no entanto, só alcança o posto de 7ª maior economia mundial quando o mercado de commodities está aquecido, pois, em outras circunstâncias, cai para a 9ª posição.
Curiosamente, há quem diga que a China está hoje onde está pelos seus milênios de existência, de história e até pela cultura confucionista do seu povo. Segundo a The Economist, em 1600 a China era uma grande potência, sendo responsável por quase 30% do que era produzido no planeta à época. Contudo, do século XVIII a pouco depois da metade do século XX, a China estava tímida ante os acontecimentos do mundo, fechando-se em suas insurreições e invasões imperialistas que sofrera. Mas, nos anos de 1970, um dos fundadores do Partido Comunista chinês traçou um plano, fundamentado em 4 grandes pilares para o crescimento chinês: agricultura, indústria, ciência e tecnologia e defesa nacional. Tal plano, que começou a ser executado em 1978, permitiu que a economia chinesa deslanchasse e se tornasse o motor do crescimento mundial. E isso pouco após o fracassado “Grande Salto Adiante”, que destruiu mais de 30 milhões de vidas por causa da fome. Saindo dessa hibernação, o cidadão chinês está sedento pelo consumo. A China tem ambição e planos para os próximos 50, 100 anos. A nova maior população de classe média do mundo e os 14 milhões de indivíduos que saem do campo todos os anos para as cidades querem aumentar seu nível de bem-estar. E é preciso muitos empregos criados a cada ano, mesmo com a primeira redução, em décadas, da população economicamente ativa, em 2012, ela ainda é a maior do mundo, com 937milhões de cidadãos aptos a trabalharem: um número colossal!
No caso brasileiro, talvez a visão de maior alcance que algum estadista cultivara tenha sido a de JK com o seus 50 anos de progresso em 5 de governo. Para além da retórica política, ela alcançou uma industrialização recorde. Ainda, claro, destacaríamos o chamado “milagre econômico” no final da década de 1960 e início dos anos de 1970, com um elevado crescimento do PIB. No todo, crescimento ínfimo se colocado ante a China.
No que concerne às relações comerciais entre os dois países, o Brasil, em 2010, era o 8º maior parceiro importador da China, representando um total de 2,7% do comércio chinês no período. Já a participação da China, em 1991, nas exportações brasileiras era de 0,7%, passando a 15,2%, em 2010. Já as importações ocupavam 0,6% e saltaram para 14,1%, no mesmo período. Efetivamente, o Brasil importa produtos com alto valor agregado, produtos duráveis e exporta 80 % de produtos, entre soja, petróleo e minério de ferro.
A agressividade da nova China atropela diversos interesses. O país tem tentáculos que chegam à América Latina e aos mais esquecidos lugares da África. O Brasil pouco vigoroso não tem competitividade frente aos chineses. A China hoje é o maior investidor direto no Brasil, e não o contrário. Em 2010, ela tirou o posto que foi dos EUA, chegando a um investimento de US$ 17,2 bilhões de dólares, quase três vezes mais que os EUA no mesmo período.
Enfim, o inusitado modelo chinês com seus “dois sistemas e um país” (socialismo/capitalismo) tem demonstrado inequivocamente que o século XXI será asiático, assim como o XIX foi europeu e, o XX, americano. Saber disso é um ponto de partida para posicionarmo-nos melhor no mundo e na América do Sul. Voltarmos ao Pacífico, estreitar os nossos elos com o Peru (nossa melhor saída para aquele Oceano) e abrir os olhos são as melhores receitas para não termos um século perdido.
(Victor de Sousa Amaral, estudante de Relações Internacionais na Universidade Católica de Brasília)