Colher de pau -I- (Bahia IV)
Redação DM
Publicado em 19 de março de 2017 às 02:34 | Atualizado há 9 anos
Sol aceso. O mar quente, em sucessivas ondas mansas, atira uma imensa toalha de renda sobre meus pensamentos. Vou bordando, com a identidade dos meus e de outros passos, a renda que se movimenta na orla de minhas emoções.
Passam os vendedores de cores e sabores: o menino das pulseiras e dos chinelos, o homem das listradas bolsas de tear, a mulher das cangas, esvoaçantes ao vento; passa o vendedor de picolé, passa a vendedora de espetinhos de queijo. Lá vem o garoto do amendoim torradinho. Lá vem os jovens com garrafas d’água gelada para espantar o calor tropical de um sol baiano e bronzeador.
As duas primeiras filas de sombrinhas são branquinhas. As cadeiras e mesas brancas, debaixo de toldos brancos, também sugerem, nesse espaço, muita paz e tranquilidade; contemplam ondas serenas, totalmente verdes, e escutam música popular brasileira.
Acabo de abraçar os garçons Felipe e Ana Campos, aos quais expus o objetivo de minha presença no Restaurante Colher de Pau, praia de Itaperapuã. Fotografamo-nos, meio a outras mesas desta casa acolhedora, carregada de brasilidade: cobrem-se de verde-amarelo e olham o teto, revestido de esteiras, sustentado por rústicos paus roliços. Aí, balançam-se graciosas araras azuis e vermelhas, dançarinas ao vento salgado e ao doce ritmo musical. A procissão de colunas em madeira, sempre em posição de sentido, como se cantasse o Hino Nacional.
Palmeiras, consagradas popularmente como “coqueiros da Bahia”, ladeiam parte do restaurante, onde poltronas confortáveis, ricas em fofas almofadas, também são em branco, sobre madeira da terra. Nesse recanto gostoso, sorrisos carismáticos de garçons felizes recebem o visitante, reverenciado por uma grande e artesanal árvore, carregada de buganvílias brancas e desidratadas, ostentando flores enormes de papel crepom. _ Sabem qual é a cor? _ Branco, é claro. No restaurante Colher de Pau I, aninhado na Avenida Beira Mar de Porto Seguro/BA, todo dia é réveillon.
Sinceramente, não vejo, na imensidão do horizonte das águas que me beijam os olhos e os pés, uma onda assustadora. Cresce meu encantamento pelo mar de Porto Seguro/BA. Até me esqueço, por alguns instantes, que esse mesmo mar trouxe, vergonhosamente, ao Brasil navios e navios negreiros. _Abro o celular e leio: aqui tem gosto de vida e cheirinho de Deus. Foi um recado de Vera Lúcia, minha irmã e afilhada, escrevendo-me de Goiás.
A linda baiana marrom caminha e, em sua mão, a corda que conduz a coleira e o elegante e fiel cachorro, com cara de lobo mau. No pequeno palco, o cantor e o violão tocam e cantam: Dodô Dias e seu pinho. Eu os aplaudo, mas minhas palmas são solitárias, porém, tocadas por música, cores, movimento, alegria e sabores.
Agora, o algodão doce, em azul e rosa. Um homem de calção lilás brinca sozinho com uma bola laranja. Pipas, muitas pipas voam. Gente de vários lugares do mundo aconchega-se nos diversos ambientes dessa mega barraca, e, somando-se aos trabalhadores da casa, constrói o perfil humano desse cenário paradisíaco e tranquilo; e, como eu, se interessa pelos segredos da administração desse recanto, tão aconchegante, tão alegre, sinônimo de bem estar. _ Os segredos serão revelados, depois. _O cantor canta Vandré:
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas nas ruas
Campo construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Vem vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer (bis)
Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão
Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição
(Sonia Ferreira, escritora, presidente do Centro de Cultura da Região Centro-Oeste/Ceculco e membro da Associação Nacional de Escritores/ANE/DF. Pertence a diversas instituições culturais de Goiás. E-mail: [email protected])