Brasil

Com a mesma moeda

Redação DM

Publicado em 31 de março de 2017 às 02:59 | Atualizado há 9 anos

No início da década de 1970, quando era um jovem estudante em Goiânia, meu pai acabou se tornando amigo de atletas vinculados ao time do Goiás. Tinha o hábito de beber cervejas com essa turma e até bateram bolinha em campinhos da capital. Embora fosse doente pelo Botafogo, abriu espaço em seu coração para a equipe esmeraldina. Tornou-se torcedor dedicado e acabou exercendo saudável influência em casa.

Ainda hoje, basicamente, o ciclo diário de interesses pessoais meu pai gira em torno de futebol. É a primeira parte do jornal que lê. Ele acompanha pela televisão até reprise de partidas recentes, só para comentar o desempenho dos atletas ou avacalhar o primogênito dele quando o São Paulo leva uma sova em campo.

Meu pai é tão fissurado por futebol que fica amuado quando o Botafogo perde. Não adianta ligar para ele – simplesmente não atende ou repassa imediatamente o telefone para minha mãe. Para avacalhar um pouco, preciso criar uma narrativa. Algo como perguntar a ele se a carne de porco estava boa no almoço – em caso de vitória do Palmeiras sobre o Fogão. Por exemplo, quando o Bragantino derrotou o time da estrela solitária, tivemos o diálogo a seguir:

– Sua benção, meu pai.

– Deus lhe abençoe, meu filho. O que posso fazer por você?

– Por favor, pai, ajude dois amigos meus que passarão por Jandaia amanhã.

– Claro, filho. Quem são eles?

– O Braga e o Tino.

– Vai tomar banho na soda. Vou chamar sua mãe. Tenho que trabalhar agora.

Acredito que a maior decepção que meu pai poderia ter na vida seria se um dos seus filhos tivesse um diálogo mais ou menos assim:

– Meu pai, preciso lhe confessar algo.

– Diga, meu filho.

– O senhor não vai gostar.

– Saiba o que for, estarei ao seu lado. Sempre te apoiarei.

– Eu torço para o Flamengo.

– Não! Meu Deus, onde foi que eu errei?

Talvez nem fosse tão dramático assim. Poderia até ser mais leve e sereno. Como se resmungasse algo indizível ao filho ou simplesmente ficasse rabugento o resto do dia. A única certeza era a de que um filho que torcesse para Flamengo ou Vila Nova não teria o mesmo respeito aos olhos dele.

Meu pai contaminou um monte de sobrinhos com seus times. Tinha especial prazer em estimular o gosto pelo time esmeraldino nos herdeiros dos poucos vilanovenses da família. Era até um pouco ardiloso. Gostava de cantar as glórias do time em sua magnitude, plantando a sementinha do torcedor na cabeça de jovens admirados com a grandeza de Botafogo e Goiás. Teve sucesso com alguns, como o Dudu, filho do tio Ironi, que era vilanovense apaixonado.

João Francisco, primeiro neto de meu pai, veio passar uns dias em Goiânia comigo. Embora futebol não fosse exatamente uma paixão do menino, meu pai já havia começado a pregação religiosa sobre o time da estrela solitária. De qualquer maneira, julguei que seria uma experiência interessante levá-lo ao estádio para acompanhar jogos do campeonato brasileiro.

Passei na casa do tio Ironi, que levou um neto dele, Cauã, para ir ao estádio conosco. Lembro que, naquele dia, o Vila Nova iria jogar contra um time da série B do Brasileirão. Fomos ao Serra Dourada. O Tigrão estava inspirado. Embora não fosse torcedor, tinha gosto ver os atletas empenhados com a vitória. Decidi ligar para meu pai e contar a novidade.

Quando meu pai atendeu, contei que estávamos no estádio. Ele me perguntou, ressabiado, sobre as reações do João Francisco. De sacanagem, coloquei o telefone próximo ao netinho. Empolgado, ele berrava “Vila, Vila”. Notei que meu pai ficou decepcionado. Pediu para falar com o tio Ironi.

– Poxa, Ironi, sacanagem você levar o João Francisco para assistir jogo do Vila. O menino está empolgado e gritando o nome do time.

– Estou retribuindo.

– O quê?

– O que você fez comigo. Não foi você que induziu o Dudu a gostar do Goiás? Estou pagando com a mesma moeda…

 

(Victor Hugo Lopes, jornalista)

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