Com cifrões nos olhos
Redação DM
Publicado em 18 de fevereiro de 2016 às 00:06 | Atualizado há 10 anos
Você anda tão preocupado com o propósito de amontoar dinheiro, que não percebe o quanto tem sido ríspido com os outros, quantas respostas precipitadas emite da boca, comprometendo pessoas humildes e boas, que lhe devotam respeito, admiração e amor.
Está continuamente nervoso e nem cumprimenta o antigo colega de sua infância. Nem observa que o amigo, que o serviu vezes sem conta, passou por você e o saudou, com um sorriso amável.
Sua atenção está voltada unicamente para o dinheiro. Quer ficar mais rico do que já é. A ambição desequilibrada provoca prejuízos em grande escala.
Você tem perdido caras afeições e nem se apercebeu disso.
Perdeu a saúde, a humildade, o sorriso franco e os alentadores instantes de alegria.
É agora um homem antipático, insensível — quase cruel.
Nem sabe ao menos dirigir uma palavra amena à esposa. Os filhos até o evitam. Os amigos se distanciaram. Eles sabem que você é rico e, mesmo assim, ficaram de longe.
— Melhor assim! Diz-me.
… Eles sabem que, sendo muito abastado, você é, também, rico de sovinice.
… É um escravo da ambição!
Mas muito infeliz!
Continue assim. Não é o que deseja?
Deus queira que não, mas, um dia, quem sabe, correndo por aí ridiculamente atrás de dinheiro, um carro pode lhe pegar, ou uma parada cardíaca, ou uma doença, qualquer coisa assim.
Então, doente irrecuperável, que proveito irá tirar de tanta fortuna?
Amontoou dinheiro para despejá-lo no hospital.
E se você morrer inesperadamente, ainda bem jovem, de que terá valido tanta sovinice?
Para o outro lado da vida só levará a própria consciência.
E a moeda que vigora por lá é somente a moeda do bem.
E se você não tiver feito nenhum bem aqui, o que, então, levará consigo — para o País onde o dinheiro nada compra, porque nada vale por lá?
Cuidado, amigo. Tire os cifrões dos olhos e enxergue melhor a vida.
(Iron Junqueira, escritor)