Como o controle governamental, como sempre desastroso
Redação DM
Publicado em 12 de dezembro de 2015 às 23:01 | Atualizado há 10 anosTodos sabem de um grave problema vivido hoje na obstetrícia dos planos de saúde : “contaminado” pela “assistência de graça no SUS”, os planos de saúde pagam muito pouco ao médico obstetra. O acompanhamento correto de um trabalho de parto dá um enorme trabalho para o médico consciencioso : várias avaliações, vários “alarmes falsos”, trabalhos de parto muito demorados – às vezes durando dias, infecções maternas, sofrimento fetal, exames e mais exames, etc. Para tudo isto os planos pagam umas merrecas de reais. Resultado : poucos obstetras disponíveis para um bom parto normal, muitas maternidades quebrando e fechando. Enquanto isto, o Governo abrindo mais e mais maternidades, muitas com qualidade questionável, justamente por terem aqueles problemas gerenciais inerentes a toda administração Governamental. Ou seja, aqui já está um exemplo de aprofundamento da crise obstétrica que vive o país. A população, sem entender estas engrenagens, sobretudo porque brasileiro não lê e não aprofunda, apenas diz que “o parto precisa ser humanizado”.
Outro exemplo de “afundamento da obstetrícia” causado pelo Governo : ao invés de criarem mecanismos para que os planos paguem mais para o trabalho do médico obstetra e o hospital obstétrico (a raiz de todos os problemas), o Governo, com uma nova resolução, obriga os planos a contratarem profissionais de saúde não-médicos, aqui no caso enfermeiros, para darem este atendimento.
Com esta obrigatoriedade de mais contratação, quanto não dava para melhorar o salário dos médicos ? Quanto não vai aumentar de inadimplência nos planos de saúde, que hoje já beira os 50% e vai subir ? Como obrigar uma cooperativa médica, que é fundada, mantida, bancada, por médicos, a contratar profissionais que serão seus “concorrentes” ? Numa cooperativa médica, em caso de falência, esta é rateada,não entre os não-médicos, mas sim entre os médicos; então, como se vê, mais uma vez, o Governo faz “caridade com o chapéu alheio”. Por motivos complexos, de modo geral, nem médicos, nem empresas, ninguém se opõe a esta política corporativista anti-médica suicida do Governo contra os planos de saúde. A cada dia sangram mais o plano e desvitalizam mais o médico, mas não há nenhuma reação a isto. Pelo contrário, os médicos, via suas Entidades, de modo geral, fazem é fortalecer o Governo, obrigando-o a editar medidas anti-concorrência-na-iniciativa-privada (tipo : “tabela de honorários para médicos”), que, de modo geral, estão sempre defasadas, não são cumpridas, etc. Mas, como o médico brasileiro, assim como toda a população brasileira, “gosta de regulação pelo Governo”, esta é a principal pauta dos médicos face ao Governo, em relação aos planos. Os próprios médicos, que em sua maioria, hoje, regulam-se pela lei de mercado(e não por regulações cartoriais do Governo sobre um setor), não vão atrás das “medidas corporativistas” feitas pelas Entidades Médicas para aumentar seus salários. Já outras classes profissionais, mais “unidas” e mais “ligadas ao modus operandi” estatal (reserva de mercado corporativo), estas vão atrás do cumprimento das leis, por exemplo, em muito breve podem ter certeza de que haverá enfermeiros cobrando obstetrizes nas maternidades, brandindo tal “lei” nas mãos. Nunca haverá “fiscalização médica” cobrando “mais médicos em maternidades”, nunca haverá fiscalização médica cobrando “salário de tabela para médico em plano”, pois, como eu disse,a maioria já se regula é pela “lei do mercado”. Neste sentido, já deixaram – um pouco – o “apadrinhamento” do Estado. Outras classes, no entanto, ainda são aferradas ao Estado. Por exemplo, como dito acima, cobram com unhas e dentes que mesmo uma cooperativa médica tenha profissionais não-médicos, psicos, nutris, fonos, fisios, etc, conforme resoluções e mais resoluções do Governo. Uma resolução, inclusive, que não foi contestada na justiça, o que seria viável, pois, como dito acima, um psicólogo em uma cooperativa médica está concorrendo com um médico psiquiatra que também faz psicoterapia, ou poderia fazê-lo se fosse melhor bem pago, caso o dinheiro não tivesse de ser desviado para outro profissional. Do mesmo modo, nutricionistas/endocrinologistas/nutrólogos, fisiatras/fisioterapeutas, fonos/foniatras, etc. Ou seja, contrata-se, na cooperativa médica, o profissional não-médico, e, consequentemente, por falta de pagamento, o médico psiquiatra, assim como muitos especialistas, continuam escasso e sub-pago. Além do problema psiquiátrico não ter sido resolvido, o custo do plano aumenta (tem de aumentar a mensalidade para aumentar a cobertura não-médica exigida pelo Governo) e com isto a inadimplência sobe. O paciente, sem médico adequado, tem de internar, o custo sobe. Mas, incrivelmente, mais uma vez, ninguém parece ver – ou entender – este mecanismo simples que está matando os planos por via da interferência desastrada do Governo.
(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra)